Agora sim, Amazônia

Bola de gude

Por livre escolha, testando meu nível de vício por redes sociais, andei mais de um mês afastado delas, de postar uma ou outra aleatoriedade pessoal mas não ver (absolutamente) nada, de ninguém. A não ser que me marcassem; por educação, no mínimo um joinha.

Desde dezembro de 2018, precisamente no período em que antecedeu o Natal e as férias coletivas de minha empresa, tive uma experiência “quântica”, por assim dizer, que me impulsionou a iniciar um novo hobby: cultivo de plantas. Plantas + trabalho + namoro + cachorro + twister mecol: cinco pilares dinâmicos e vivos para (sem grandes dificuldades) não haver espaço para os famigerados assuntos e comportamentos no Facebook. Das gay-eternal-selfies à política, da política às gay-eternal-selfies.

Consequentemente, me permiti certa alienação sobre os assuntos jornalísticos e soube do caso da Amazônia, por exemplo, muito de relance, mais pelo meu namorado. Até semana retrasada eu não tinha nenhuma opinião.

No começo da semana passada, fui analisar as notícias para olhar o cenário novamente e para encarar, inclusive, a “velha opinião formada sobre tudo”, vindo das mesmas pessoas das maneiras mais óbvias e marteladas. Estavam elas lá, nos velhos e bons lugares como dita a “sala de jantar” do século XXI.

Faço questão de ler o retrato das mídias de esquerda, como o El Pais, por exemplo. E de mídias que, hipoteticamente, são mais de direita como – dizem – é o Estadão. Notei que, desde que as queimadas começaram – na maior parte do caso – a questão na boca das pessoas não era o fogaréu em si e, sim, o desdém comportamental com contornos populistas de Bolsonaro. Quase que óbvio, para não dizer enfadonho. O que não quer dizer que não tinha alguma legitmidade. Alguma.

E, literalmente, do final de semana passada para segunda-feira, 26/08/2019, como em um estalo, os registros aéreos e de satélites, inclusive da NASA, passaram a apontar por uma quantidade maior de desmatamento intencional, provocando incêndios para formação de pastos para pecuária. De repente, talvez, hipoteticamente quem sabe, o problema central das chamas da Amazônia poderia ser o desmatamento propositado! E não Bolsonaro!

O que me gera náuseas misturadas com um profundo sentimento de preguiça é a sequência da narrativa dos motivos: primeiro o circo, o fatalismo, o combustível polarizado para o fortalecimento do populismo para depois, muito depois, os fatos.

Fui ruminando, como um boi em meu próprio quadrado. Colhendo reflexões enquanto dirigia, relembrando linhas lidas em livros, desenrolando o subtexto das mídias jornalísticas (partidárias), relembrando aulas de História e resolvi olhar pela janela da rede, jogar meu saco de estrume e passar mais um mês fora dela.

Um pouco do meu adubo NPK 10-10-10 para vocês:

“Cês sabiam que quando os britânicos encostaram com as caravelas na Austrália, achando que era a primeira vez que o homem respirava o ar daquela terra, milhares de anos antes o humano já tinha invadido aquele território?

E que, quando os discípulos da rainha avistaram aquela beleza natural, a geografia estava toda transformada pelos ancestrais dos aborígenes? E que animais gigantescos e variados, mais de 50% da fauna (muito mais na verdade) que ali habitava, foi aniquilada para virar roupas e acessórios, como colares?

Cês sabiam também que – para boa parte dos historiadores, arqueólogos e cientistas – a maior destruição ambiental da História foi quando o Homo Sapiens resolveu se espalhar pelo continente, não só devastando a vegetação, assassinando animais, mas extinguindo também – por exemplo – o irmão Homo Neandertal que coexistia no planeta ao mesmo tempo?

Cês estão sabendo que neste exato momento, 30/08/2019, na África, está queimando cinco vezes mais, para os exatos fins de pastos e pecuária? Cês acham que os insumos vão para onde se não para a turminha do G7 e países adjacentes super ‘peace and love’?

Cês estão sabendo que Timberland, Kipling e Vans não são tudo isso de boazinhas e que gastam milhões em pesquisa todos os anos para saber que seus consumidores vão amar essa cartada de marketing? Que essa decisão também é uma cartada de marketing?

Cês querem saber? Não adianta só controle ambiental, políticas e ações de sustentabilidade, plantar árvores, sistemas de coleta de lixo, de latas, (da sogra de direita) e etc. Não adianta todos esses controles e longe de tirar a legitimidade daqueles que trabalham com isso e para isso. Respeito máximo a esses ofícios. Mas se a gente quer mesmo salvar esse planeta, precisamos – antes de mais nada – tirar de vista esse antropocentrismo geral voltado para o umbigo de esquerda, de direita, de cima ou de baixo. De viajar que tem realmente um herói entre nós.

O pior parasita dessa bola de gude é o homem. Esse, sim, precisa ter controle”.

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