Relações passageiras

O vai e vem de relacionamentos

Zygmunt Bauman foi um dos principais críticos da maneira que a sociedade se configura atualmente, tempos que ele conceituou como “modernidade líquida”.

Em linhas gerais, a modernidade líquida está estruturada na ideia de que as pessoas, hoje, estabelecem relações extremamente temporárias e voláteis; fala da ausência da criação de vínculos mais duradouros e de que, por exemplo, no campo profissional, vida pessoal e trabalho se fundiram e em tempos atuais caminham misturados: não há mais limites delimitados de tempo destinado para a atuação profissional e o desligamento para a vivência particular e pessoal.

Bauman também foi um (poderoso) crítico às redes sociais, sustentando a ideia de que as mídias estão reconstruindo o sentido das relações, quando antes as pessoas – para entrarem em grupos – passavam invariavelmente por aprovações posturais e, hoje, para fazer parte de um grupo basta um clique e o indivíduo adentrar a uma comunidade, desprovido da aprovação do coletivo.

O sociólogo e filósofo deve levar todos os méritos como persona, aquela que conseguiu definir em meia dúzia de conceitos a realidade das dinâmicas sociais atuais. Mas como todos os modelos que organicamente se estabelecem, não existem apenas ônus.

Em que a “modernidade líquida” de Zygmunt se aplica nas dinâmicas da vida gay?

Antes de mais nada, acho interessante revelar que filósofos e sociólogos como Bauman costumam transcender os aspectos políticos. A natureza da filosofia tende a levar o indivíduo a abarcar, enxergar e analisar o todo, enquanto política é uma parte do todo cuja natureza é partida/partidária. Partido aponta para fragmento do todo.

A modernidade líquida é altamente presente na vida dos gays. Aplicativos como Grindr e Hornet são – por completo – redes sociais, tal qual Facebook ou Instagram. Tais aplicativos permitem a máxima socialização e, como citado em posts anteriores, podem levar ao vício comportamental.

Quantos não são os gays que vivem todos os dias da liquidez sugerida pelo filósofo, quando não conseguem largar os aplicativos de relacionamento e, em uma semana, são capazes de interagir com mais de 10 pessoas com o interesse de amizade, sexo ou afeto?

É desse estado temporário que Zygmunt se refere: não focamos mais em apenas um indivíduo com o interesse de conhece-lo em profundidade, mas sim, tendemos a ter contatos temporários, em grande quantidades, até conseguir “fisgar o peixe” e realizar o desejo de amizade, sexo ou afeto. E depois de realizado, as vezes de curta duração, a tendência é partir para uma próxima pesca ao invés de se estabelecer alguma profundidade na relação iniciada.

Arrisco a dizer que este seria o olhar do sociólogo, caso utilizasse de seus conceitos orientados ao comportamento do público gay. É idêntico as dinâmicas estabelecidas entre heterossexuais no aplicativo Tinder que, inclusive, tem gays numa expectativa de que os demais do Tinder sejam um pouco mais “sérios”.

Admiro o olhar de Zygmunt Bauman pela capacidade de condensar em poucas palavras tantas realidades e movimentações sociais. Mas, ao mesmo tempo, inserido (igualmente) na modernidade líquida, tenho a tendência a ver o lado positivo dessa realidade.

Quando Bauman cita que, outrora, nas relações presenciais perante os grupos o indivíduo passava por certa “triagem” postural e ideológica para poder pertencer ao mesmo (ou não), não há como negar que este fato, da aprovação ou negação, era uma realidade mais comum e que possibilitava uma maior garantia (e conservação) da identidade do grupo. Instituições ortodoxas (como algumas religiosas), algumas escolas e universidades, alguns núcleos familiares, mantém esses princípios. Mas ao mesmo tempo, por meio de uma lista de requisitos, eram e são passíveis da discriminação.

A minha cultura oriental, por exemplo, embora esteja muito mais diluída hoje na brasilidade geral, ainda mantém alguns “focos” de conservação, onde é possível notar orientais se relacionando afetivamente com outros orientais. Uma volta na Liberdade, a mesa de algum restaurante, é possível perceber tais fatos.

Ao mesmo tempo em que as relações são mais temporárias e voláteis e transitamos de pessoa para pessoa de acordo com nosso bel-prazer, sem criar nenhum tipo de profundidade, nunca o homossexual, independentemente do nível de homossexualidade que leva, pode explorar tanto e se entender melhor utilizando os aplicativos. Pensem que, quando eu tinha 20 anos, eu e toda minha geração dependia de “chat’s do UOL” e Internet discada para poder interagir com um semelhante e/ou explorar e descobrir um pouco mais sobre, no caso, a homossexualidade e essa tal coisa de “ser gay”. Imaginem a geração anterior a minha…

Afinal, nessa liquidez toda, o que é melhor ou pior para o indivíduo?

A mim, a resposta é depende. Na modernidade líquida há a transitoriedade das relações mas também há grupos que mantém a conservação e certa fixação a valores. Tudo isso se estabelece na liquidez sugerida por Bauman. A sociedade não se liquifez por completo e, talvez, nunca o fará.

No final, diante tantas possibilidades, interesses, textos e subtextos, tudo depende mais de onde o indivíduo deseja se estabelecer. Outrora, talvez fosse mais fácil definir em qual grupo pertencer pois os valores eram centrados em instituições bem definidas, mas ao mesmo tempo, gays – por exemplo – tinham poucas oportunidades de viverem o pertencimento pois o preconceito era muito mais contido nestes grupos. Se grupos resguardam e conservam valores, tudo que é tido fora do que se considera aceito, se absorve com mais dificuldade.

Não tínhamos a velocidade e o acesso a diferentes meios para descobrir ou experimentar o interesse por outro do mesmo sexo ou nos identificar ou não com algum semelhante. Tudo era contido, oculto, reprimido e, consequentemente, de desejos acumulados.

Hoje talvez seja mais difícil definir e trilhar um caminho, observar, filtrar e estabelecer uma relação ou um percurso diante tantas formas e possibilidades, tanta transitoriedade. Mas acima da modernidade líquida, algo que não dá para negar, é que o ser humano é dotado da adaptabilidade. Alguns talvez sofram mais, outros menos, alguns talvez se apeguem mais a determinados valores que, ao mesmo tempo que garantam certas comodidades, os autocensuram, outros lidarão com mais desenvoltura em suas buscas. Tudo vai depender do indivíduo e de sua definição da trajetória e de onde e com quem se deseja estar.

Não menos possível, a própria modernidade líquida é transitória.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.