Resumo do mês

Estar solteiro é para mim – inevitavelmente – retomar contato com certas normatividades gays. Normalmente quando namoro, a normatividade é da relação e, mesmo sendo entre dois caras, a percepção de ser algo gay se mistura nos diversos atos: passeios, dormir junto, cinema, viagens, cozinha, afetividade e sexo. O universo acaba girando em torno dos feitos e desfeitos meus e de meu namorado que somos, basicamente, indivíduos. A sexualidade em si, no caso a homossexualidade, sai de foco. Pensem que já tive sete pessoas na minha vida que pude considerar como namorados – rs. Se o ato de namorar a gente ganha com a experiência? Não tenho dúvidas.

Me sinto realmente solteiro nesse último mês. Até então, a presença e as sensações do Rafa dentro de mim eram predominantes. Sentia a ausência de nossa rotina, mesmo reincorporando assuntos novos na minha vida. E não quer dizer propriamente que tudo isso era por causa do Rafa, mas que possivelmente as coisas sempre aconteceram assim para mim ao fim dos meus relacionamentos e a maior consciência veio agora. Foi providencial termos nos encontrado há umas duas semanas atrás. Primeiramente para matar as saudades e “formalizar” nosso interesse de amizade. Depois, para reafirmar a nós porque (realmente) não deu certo – rs. O primeiro tempo de nosso almoço no velho e bom Espaço Kazu na Liberdade foi ótimo. Cheio de risadas e descontração. Já o segundo, parecíamos namorados repetindo as preguiçosas discussões que tínhamos. Mas dessa vez ele não poderia ameaçar terminar o namoro só porque eu tinha pontos de vista diferentes. Ele também não poderia se levantar e ameaçar de ir embora pelos mesmos motivos.

Na hora de nos despedir, nos abraçamos e Rafinha deu novamente aquele beijo no canto da minha boca, o mesmo que havia me marcado em nosso primeiro encontro. Se mexeu comigo? Claro, absolutamente. Fiquei sentindo minha vulnerabilidade no trajeto inteiro de volta para casa, dentro do meu carro. E o melhor de tudo, sem reprimir e aceitando a tal vulnerabilidade. Sinto honestamente que o fosso entre estarmos separados e juntos dependeria (basicamente) de minha reaproximação com interesse. Mas por mais que tenha parte dele dentro de mim ainda, sei bem qual é o pacote completo – rs. A preguiça, feliz ou infelizmente, é mais forte. Chegar no ponto de autossuficiência (aplicando a nova gramática) que cheguei, saber bancar minhas carências e inseguranças sem depender de um namorado e conquistar tal emancipação emocional por um outro (seja um herói político ou qualquer outra pessoa) tem dessas coisas. É bom e ruim ao mesmo tempo. Mas acima de tudo é bastante claro o que eu quero pra mim hoje. Repetição de certas experiências não cabem mais. Foram sete relacionamentos que me ajudaram (também) a chegar aqui e descobri que meu melhor representante sou eu mesmo.

As investidas nas saunas tem sido boas e bem focadas na diversão sexual. Junto com isso tem vindo os novos contatos, com aqueles caras que vivem outras normatividades de vida, bem diferentes da apostólica-católica-romana convencionadas no padrão heteronormativo que, nós gays, também seguimos ou idealizamos. Meu interesse nem é me tornar íntimo dessas pessoas, a não ser que venha com naturalidade. Mas reafirma a diversidade que muito me alimenta.

Meu ex, o Beto e seu namorado me viram um dia na Chilli Peppers, há umas duas semanas atrás. Safados! Estiveram lá e não me deram um “oi”.

Reencontrei o Beto na sexta do feriado e assim fiquei sabendo. O namorado foi sozinho ao Rio (a contra gosto do Beto) e ele teve que ficar por SP também porque tinha muito trabalho a fazer. Resolveu fazer um churrasco e convidar uns amigos. “Freud explica tudo ou quase tudo” e sei que, no fundo, ele me convidou para fazer uma leve provocação ao namorado. Não somente pelo convite, mas pelas baladas que fez no dia anterior. O Beto ainda vive e talvez sempre prefira a caixinha normativa, apostólica-romana. Até hoje, não conheci intimamente e com frequência de convívio uma família mais coxa que a dele. Agora ele reconhece com mais clareza e seus movimentos de contestação são bem nítidos em seus aniversários (rs).

Engoliu meio seco o comunicado do namorado, de ir para o Rio sozinho para visitar um amigo (rs). Foi muito gostoso rever suas amigas num contexto mais embriagante e com maconha de aperitivo. Amigas de aparência descolada, mas igualmente coxas (rs). Descolado, na literalidade da palavra, sou eu. Foi muito gostoso revê-lo, sentir a afinidade que ficou, a fraternidade e não ter um pingo de desejo por ele. Nosso contato é semanal pois temos uma profissão afim.

Tenho investido um pouco mais de tempo nos apps de relacionamento. Conheci um rapaz recentemente que tem me oferecido um tesão e química intelectual, algo bastante difícil num cardápio de corpos, hehe. Isso tem sido legal e, agora que me dei conta, é o que tenho procurado.

Minha empresa está planando mais alto de novo. Cortei pessoas, sofri com isso como nunca antes e o caixa, se não fica no “elas por elas”, está levemente no azul. O reposicionamento das pessoas aqui dentro, em detrimento à crise, tem funcionado lindamente. No aspecto profissional, depois de uma ano infernal que foi 2015 a mim, aceitei toda essa lapidação, que doeu muito e que me tirou noites de sono, para afirmar no primeiro dia mais friozinho aqui em São Paulo (finalmente), que estou conformado, em paz e certo das atitudes que tomei. Certo porque já trouxe resultados desejados. Pelo menos o comecinho deles.

Parece babaquice e nerdice, mas o Smule, rede social que reúne pessoas que gostam de cantar, tem sido um complemento fundamental na minha rotina. Vocês sabiam que a música é terapêutica? E vocês sabiam que o ato de cantar produz endorfina no organismo? Cantar tem efeito semelhante a correr ou fazer musculação. Curioso, não?

Pasmem, mas meninos e meninas tem me cantado pelo app. Um chinês, um moço do leste europeu e um latino vieram paquerar. Meninas brasileiras aos montes. Mas como na heteronormatividade, quando ainda persiste a educação, se o homem não avança sobre as deixas das mulheres, a coisa esfria. Claro que não tenho interesse nenhum em avançar. Expressões artísticas assim não deixam de ser um verdadeiro tapa no ego, principalmente quando temos o interesse de expor de alguma forma. Confesso: estou acima da média. Canto não é só afinação, que qualquer pessoa aprende com a técnica em mais ou menos tempo. E aprende mesmo. Canto tem a dádiva da natureza, do timbre de voz ser atraente ou não. Em dois meses estou com mais de 700 seguidores. Quem define se a voz é boa ou não é o público. Já disseram que minha voz lembra do Frank Sinatra, do Michael Buble, do Marcelo Camelo e do Renato Teixeira. Acho as comparações válidas perante a exposição mais abrangente que já fiz. Não é uma crítica de um ou outro amigo; outrora eram apenas apresentações em baladas, dividindo a voz principal com o guitarrista que tinha alguma percepção. Agora eu canto para o mundo todo com acesso instantâneo e isso é fantástico. E é simplesmente um hobby saudável que me leva a interagir com gente, sem fronteiras.

Ok, o último parágrafo foi totalmente autoafirmativo, eu sei. Mas foda-se. This is my place too, babies. It’s all about merit.

6 comentários Adicione o seu

  1. Rothuzs disse:

    Namorar pode ser visto como um processo de autoconhecimento. Vemos em um outro que julgamos conhecer tão bem nossas diferenças, semelhanças, etc. Mas não estar em uma relação heteronormativa (namoro, casamento, etc.) requer a utilização de todos os conhecimentos anteriores de uma vida para a sustentação da nossa própria sobrevivência. Nada melhor do que se permitir, mas além de tudo saber os porquês de se estar fazendo determinadas ações.

    1. minhavidagay disse:

      Exato Rothuzs! Consciência é fundamental em nossos processos. :)

  2. Pedro disse:

    Flávio, acredito que vc concorde: “Ohne Musik wäre das Leben ein Irrtum.”

    Abraço!

  3. minhavidagay disse:

    Rs… Ich habe keinen Zweifel, es weniger Leben sein würde :)

  4. Pedro disse:

    Ich wusste, dass es ;)

    Você é divertido rsrs.

    1. minhavidagay disse:

      Die MVG ist nur ein Fragment von Flávio großen Kopf und denken rs

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