Restrospectiva 2019

Minha vida (gay) em 2019 – Retrospectiva

A retrospectiva da minha vida (gay) em 2019 começa com a certeza, com um pouco do chão da realidade, de que as mudanças nas sociedades, tendenciando fortemente para a direita, não é algo inédito e – possivelmente – não será a última vez.

O ser humano (e isso implica em todos nós, de esquerda, centro ou direita) já clamou por representantes e movimentos mais radicais em outros tempos.

A bola da vez é exatamente essa: Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, crises diversas em toda América do Sul, Brexit, povo basco sugerindo uma separação da Espanha, terraplanistas em evidência, crenças nos reptilianos, movimentos mundiais anti-vacina e, tudo isso e mais um pouco, sugerem para alguns historiadores que estamos vivendo as “Eras das Trevas” do século XXI.

Eu discordo. Nosso momento “apocalíptico” não chega a meio fedor de ocorrências do passado.

2019

O viés, agora, é inteiramente pessoal: 2019 foi um ano que me exigiu – a mais – de um esforço mental e físico. Tive que ser bastante criativo, articulado, assertivo, paciente e preventivo (papéis nítidos para quem assume posições profissionais de planejamento estratégico) pois muita coisa aconteceu no campo profissional.

Chega essa época do ano – a partir de outubro – e bate em mim aquela sensação de “eu não vejo a hora de aproveitar todo o esforço aplicado durante o ano”. E, talvez, esse desejo tenha vindo com mais intensidade do que outros.

Parece que tem sido assim progressivamente (rs).

O fato do cenário de 2019 ser pintado pela mídia e pelas redes sociais em tons escuros e pálidos, fez invariavelmente meu sentido de alerta ficar ligado. Estar alerta é diferente de se alarmar e essa nuance, para quem lê, pode ser sutil.

No final de todas as contas de 2019, ter ficado alerta foi melhor do que pior. Não foi necessariamente um gasto de energia à toa, mas a prevenção de agir de maneira mais assertiva, criativa e no timing, dando forte vazão para a intuição.

Posso dizer assim que 2019 foi ano para desenvolver ainda mais a intuição e este ano, a mim, deu certo.

Nada perdido

A consequência de tudo é que em 2019 eu conheci muitos outros seres humanos, no âmbito do trabalho e vida pessoal. Mas confesso que vivo um período, anterior a 2019, que tenho evitado ao máximo construir relações mais íntimas com as pessoas, a não ser meu namorado. O motivo eu já citei por aí e resumo aqui: veio forte à minha consciência de que a grande maioria das pessoas se relaciona para fofocar ou desabafar.

Confesso a preguiça. Mas antes da preguiça, apropriadamente, é bom dizer que eu, descendente de japoneses (e acho que isso traz alguma influência) tenho buscado há anos outras formas de resolver as questões que povoam a minha mente e o meu coração.

Terapia, sim.

Música, sim.

Escrita, sim.

Plantas, sim.

Leitura, sim.

Bichos, sim.

Academia, sim.

Com esses processos, realizando terapia, praticando a música, escrevendo, cultivando plantas como hobby, criando situações com meus pets, me exercitando e lendo, tenho encontrado formas sustentáveis de lidar com minhas dores, questões e tristezas sem pesar em cima de um terceiro.

Sustentável é quando o ser humano encontra seus próprios meios para se bastar. Insustentável é quando mantemos essa mania de usar a orelha do outro para falar mal de terceiros ou desabafar.

Precisamos, sim, de válvulas de escape. A necessidade de extravasar, de formas diversas, é humana. Mas quando temos um ombro amigo ao lado e essa mania ancestral, pouco tempo reservamos para descobrir nossas próprias, pessoais e intransferíveis formas de se equilibrar… talvez para a cultura oriental isso seja mais acessível? Talvez. Mas no momento em que me parece humanamente possível…

Primatas

Outro ponto que se incluiu no universo do meu saber é que o ser humano, seja gay, hétero, azul, rosa ou verde, está ainda muito mais próximo do ancestral que o originou do que a qualquer outra ideia ou fantasia de um ser evoluído.

Nesse primitivismo com estéticas de século XXI, cabe papéis e lugares para todos, o que não exclui este que escreve essas linhas.

O ego humano, apesar de importante para muitos dos aspectos que nos fazem viventes no planeta até o momento, criou os pilares do que se chama antropocentrismo.

Em diversos aspectos a gente se acha “a última bolacha do pacote”. E o pacote, nesse caso, é o nosso minúsculo planeta. É o nosso ego em confronto ao ego alheio e, só essa equação, dá todo pano para a manga para a história do homem.

Gabriel

Não bastasse o nome de anjo, por vezes ele me inspira boa parte do papel imaginário dessa personagem, principalmente porque me aguenta.

Mas mais do que me tolerar, que é algo suficientemente grandioso nessa coisa de relacionamento afetivo entre dois homens, Gabriel respeita nossos espaços.

Desde o começo do namoro, ele sacou que a presença física é importante. Mas um relacionamento afetivo não precisa ter infinitas compatibilidades. Por exemplo: ele gosta de filme de época, daquela época em que as pessoas se matavam dentro de camadas de roupas apertadas, perucas brancas, maquiagem e perfumes excessivos pois não tomavam banho todos os dias, sapatos desconfortáveis e viviam dentro de castelos frios, mofados e úmidos, perfeitos para proliferação de bactérias, fungos e vírus. Adoravam viver intrigas românticas e dramáticas (ou pelo menos é assim que os filmes retratam).

Eu costumo dormir nesses filmes.

Eu, quando o assunto é cinema (e não cinema em casa) gosto de Senhor dos Anéis, Star Wars, Marvel e derivados repletos de efeitos especiais e com a mesma história boba de final feliz (ou quase sempre feliz).

Ele costuma dormir nesses filmes.

O fato de inexistir algum tipo de colocação mediante nossos respectivos cochilos faz toda diferença! Não existe um olhar, o silêncio ou a crítica.

Nada.

Multiplique essa separação das coisas em outros aspectos da nossa relação: não tem porque eu não namorar com o Gabriel.

É utópico, romântico e infantil achar que duas pessoas foram programadas uma a outra e, assim, possuem 90% de gostos afins. Pode até acontecer, mas melhor do que essa estatística, é estar com alguém com – que seja – 50% de gostos afins, mas que a vida a dois continue sem imposições, conflitos ou frustrações porque somos diferentes.

Há dias que ele passa 4 horas organizando materiais de trabalho e corrigindo provas. E eu, nessas 4 horas, estou cuidando das plantas (sim, são muitas e cada vez mais!).

Sintomas dos 42 anos?

Daqui a pouco escreverei um texto dos meus 43 anos, marca que está próxima. Mas vou fingir que ainda sigo com os 42 porque na verdade é.

O que posso dizer até o presente momento, nessa minha retrospectiva de 2019 é que não adianta acumularmos inteligência, escrevermos bem, nos sentirmos intelectuais, bonitos, elegantes, charmosos, ricos ou feios, gordos e fodidos se a gente não partir para a ação.

2019 foi um ano em que muita gente falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou,falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou… mas será que a vida saiu do lugar? Ou será que a vida está reduzida a olhar para o “inimigo”, apontar o dedo e dizer: “minha vida é melhor que a sua. Sou mais que você”.

Se o seu referencial (reducionista) é esse, parabéns! Você tem mais 365 dias pela frente para mudar! :)

Me tornei adulto há um tempo e cada vez mais. O “caminho do meio” que venho construindo, me distanciou de arroubos de alegrias ou tristezas, de arroubos de raiva ou entusiasmo. Fui deixando esses estados a partir dos meus 33 anos e noto – hoje – que embora as intensidades residam no passado, a autonomia que adquiro do meu próprio “eu” me mantém distante de muitas roubadas. Intensidades e necessidades do ego são irmãs.

Roubadas: acho que não vivi nenhuma em 2019. O que não quer dizer que não me expus e não agi intensamente. Agir intensamente é diferente de ter emoções intensas.

Um lindo novo ciclo em 2020, são os meus sinceros desejos a quem se prestou a ler até o final.

“O mundo é aquilo que a gente acredita”. <3

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