São quase três anos

Em setembro de 2015, se não me falha a memória, completarão três anos que conheci os amigos Fernando, Matheus e Sammy. Dois anos depois conheceria o Beto, o Japinha e o Kota e, assim, formaria os “amigos do MVG”. Deu-se início a uma certa saga intimista, sem grandes alardes, com um propósito de ajudar essas pessoas a sairem de uma condição de “dentro do armário”, gays ainda vivendo uma atmosfera conflituosa de aceitação. Mesclamos a amizade, a minha experiência de vida e uma certa “função MVG” que se estabeleceu por aqui.

Infringi certas regras com o Japinha, de uma promessa racional que tinha feito a mim, de não criar nenhum vínculo amoroso pelos contatos reais que viessem do Blog MVG. Foram aproximadamente cinco meses de uma construção de uma amizade, depois dois meses intensos de namoro e mais oito meses de uma tentativa de um relacionamento à distância que, em qualquer instância, quem não conseguiu bancar fui eu. Sem culpas, nem ressentimentos. Apenas uma constatação.

Como namorado e amigo do Japinha, assim como parte dos meus ex-namorados, o ajudei a assumir para seus pais e para sua irmã e dei um apoio importante, logo no começo da amizade, quando o Japa vinha de casos frustrantes de tentativas com outros gays. O intuito dele era de um relacionamento sério e, na vibe que naturalmente entramos, o mais sério até então viria comigo, sem que pudéssemos prever.

Com exceção dessa parte íntima e do Beto – que se aproximou de mim para construir uma amizade, de alguém que estava deixando sua cidade em Mato Grosso do Sul e tinha predileção por orientais -, o fato é que Fernando, Matheus, Sammy e Kota eram gays cada qual com suas questões existenciais mediante a própria homossexualidade. Um deles vinha de um namoro com uma menina há anos, tendo que lidar com bloqueios posturais e psicológicos e contenções na forma de se expressar, por puro exercício do autopreconceito. Outro amigo se apegou durante mais de 40 anos na religião católica e vivia conflitos entre a autoaceitação e os dogmas do Cristianismo. O terceiro convivia com um autopreconceito por ser gay e oriental, e sofria de casos mal resolvidos com um “fantasminha” que não conseguia exorcizar e, por fim, mas não menos importante, havia o nosso “caçula”, tímido e retraído, sem experiência nenhuma!

Acontece que o caçula, o Kota, depois de ter instalado o Tinder em seu celular e ter conhecido a balada Yacht comigo e com o Beto, faz três semanas que está saindo com um rapaz que conheceu pelo app. Teve seu primeiro beijo e deu início a sua vida gay, enfim, em vias de fato. Digo vias de fato porque, apesar de sermos gays, damos a vazão a nossa sexualidade quando, obviamente, temos relações sexuais. Beijo na boca, para quem nunca parou para pensar (rs), é um ato sexual.

Resumi o começo das histórias desses meninos e resumirei o final, digo, a vida atualmente: Matheus vive hoje um namoro (ou seria uma paquera? Não sei se há algo formalizado ainda) com um rapaz. Deve ter passado dos fatídicos três meses que, de certa forma, o perseguiam tanto! Meu amigo está solto, leve e reluzente (para não dizer lindão) e continua a mesma pessoa obstinada com o trabalho. Fernando, finalmente, “arrancou o anzol” o qual estava preso, por um menino bonitão, 20 e trá lá lá anos mais jovem mas que de certa forma só oferecia uma relação parasitária. Está começando algo com outro menino de 20 e poucos anos e assumindo aos poucos seu perfil “Daddy Boy Do Bem”, termo que eu mesmo criei a ele (rs). Sammy vai casar com o Michel, menino que conheceu por um dos aplicativos. Na realidade, perante o cartório já formalizaram e todos nós aguardamos por uma bela festa no começo de 2016. Estou ansioso para o evento!

Todos estão assumidos para pais e para aqueles que consideram importantes na vida. Se os pais estão reagindo de uma maneira cor-de-rosa? Em termos. Como eu digo, depois que assumimos que somos gays para eles, precisamos respeitá-los, no sentido de que cada um tem seu tempo, ritmo, altos e baixos, para lidar com uma realidade que foge (ainda) da normatividade social e cultural brasileira. Mas tais situações não são impeditivas para que eles continuem seus percursos, anseios, fantasias ou realidades da vida gay nos dias de hoje.

Esse texto é fruto de algo intuitivo. Depois dos ocorridos que formaram o desfecho da minha história com o Japinha e, como cereja do sorvete, quando soube do Kota que ele finalmente havia iniciado suas primeiras experiências de interesses sexuais e afetivos, senti certa melancolia misturada com felicidade: parte fundamental da existência do Blog MVG foi concluída. Ando com a sensação de que encerrei um ciclo e que os “filhos” agora, todos, já tem as asas fortes suficientes para continuar. Deixei certo legado e uma provação a mim de que sou capaz – pela lucidez e segurança – de conduzir jovens gays (e não tão jovens assim – rs) ao encontro da própria aceitação.

Não posso negar que existiu um papel de mentoria misturada com a amizade. Pessoas tão diferentes entre si construíram elos diferentes comigo e entre eles próprios. A sensação que fica é que, junto da emancipação que os meninos adquiriram, eu também encerrei uma fase importante da minha vida na qual tive como propósito (embora inconsciente a princípio) de levar as minhas conquistas de vida a outras pessoas como eu. Soube compatilhar, por vezes com muita paciência e, em outros momentos, como eles bem sabem, com belas porradas! (rs).

Claro que o Blog MVG não acaba e, como questionou o Gabriel, leitor carioca que tem 20 anos hoje e que se orintou por aqui, “você se vê escrevendo o blog com 87 anos?”.

– E por que não? É o meu legado (rs).

Tenho que considerar que nessa etapa do MVG que se finda, não poderia deixar de mencionar o amigo carioca “bissexual” que me abriu um mundo referencial sobre as patoladas e dilemas de sua própria vida. O mesmo para nosso outro amigo cantor, “ex-casado” com uma mulher, dois rebentos, e que hoje está feliz com seu namorado. Embora em encontros passageiros, aprendi muito com eles sobre a humanidade que nos legitima.

E por fim, deixo a menção honrosa para o CR, que na realidade é AR e vive lá no Ceará. Nunca nos vimos pessoalmente, mas pude acompanhar fases de sua vida, momentos muito emocionantes diga-se de passagem, e que, bem ou mal, o torna uma pessoa muito melhor hoje do que foi ontem. Espero que ele saiba disso.

A mesma intuição e vontade que me fizeram chegar até aqui, quatro anos de Blog MVG nesse exato mês de maio de 2015, me orientarão para novos desdobramentos. Não sei responder “o que está pegando”, mas alguma coisa mudou. Fico com uma forte sensação de que cumpri algo que era importante eu realizar e que um mundo novo está por vir.

A história toda de MVG, então, continua. Mas diferente…

8 comentários Adicione o seu

  1. Neto disse:

    Oi Flávio (pelo que lembro é esse o seu nome). Acho uma pena eu ter conhecido esse blog apenas recentemente. Acho que leio há uns 2 ou 3 meses…por aí. Posso dizer que o MVG está sendo fundamental na minha vida. Sou gay e assumido pra quem quiser saber. faz tempo que não escondo mais minha homossexualidade. E que na verdade nunca foi um problema em si. O problema mesmo foram as humilhações na escola e inclusive agora no trabalho (sou professor – de português- da rede pública). Mas não é sobre isso que quero falar por enquanto. O que quero comentar é que seus posts me trouxeram dignidade. Eu sempre circulei por diferentes tribos. Sempre tive restrições a muitas tribos gays. Talvez não tenha encontrado gays bacanas. O bem da verdade é que conheci muuuuuita bixa má. Cheguei a pensar que para sobreviver nesse mundo eu teria que ser uma também. Confesso que ja fui taxado por essa alcunha. Mas eu não me reconhecia como bixa má. Era como se estivessem falando de alguém que eu não era. Que eu não sou e nem quero ser. Quase me convenceram disso…quase!!! E esse blog me mostrou tudo isso. Me conheci melhor por aqui. Entendi que eu tenho uma baita tendência para a heteronormatividade e para partidos políticos de direita (é serio, rsrsr) e tô tentando encontrar o valor da virtude nisso. Enfim, o MVG me ampliou o olhar para o que é ser gay e como transitar pelo mundo sendo gay. Me ensinou que boates e aplicativos não são coisas de submundo, mas há outros espaços de participação para quem quer ter relacionamento sério ou pra quem quer apenas pegação. Podemos encontrar dignidade em uma sauna. Por que não? Enfim…ainda tenho muitas questões e espero compartilhar muitas delas por aqui. No mais, que esse blog vá para além dos 87 anos. É isso.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Neto, bom dia!
      Que bom que o MVG tem lhe ajudado a buscar novos referenciais da vida gay. Num contexto de tantos estereótipos e “tribos”, sem querer, acabamos nos prendendo a determinados rótulos, esquecendo que acima das “personagens” que existem por aí, das “bixas más”, das “barbies drogadas”, dos “ursos emocionais” e etc., somos humanos com anseios e desejos.

      O fato é que nascemos sem referencial. Não aprendemos sobre homossexualidade em casa, nem na escola e, mediante a normatividade cultural, ser gay é um assunto ainda cheio de medos. É o medo da mãe, de que o filho seja maltratado, é o medo do pai sobre “o que os outros vão pensar” e assim por diante.

      Temos que buscar nossas próprias referências na vida e, aí, encontramos um monte de gente em suas buscas particulares, tentando conceber uma realidade do que é ser gay. Um caos porque não tivemos instruções sobre o assunto.

      E de fato, embora não haja uma cartilha programada como para quem é heterossexual, a realidade é que não existe um único formato. Nem mesmo heterossexuais hoje estão levando tão mais a sério seus próprios padrões herdados. Basta se atentar aos diversos modelos de relações que estão formando por aí.

      Podemos encontrar dignidade em qualquer lugar, seja por meios virtuais ou presenciais. A diferença é e sempre será você e o indivíduo que está a sua frente, numa telinha ou, por exemplo, dentro de uma sauna. Utilizar esse ou aquele meio não nos descaracteriza pois a soma de tudo que cada indivíduo é, vem primeiramente do berço e pelos meios apresentamos apenas fragmentos de nós mesmos e algumas vontades.

      Conhecer uma outra pessoa, construir intimidade, continua sob a mesma fórmula que persevera há milênios e que nos confere a humanidade. Daqui há um tempo, com advento da tecnologia ou de outros adventos, a juventude (e os tiozões como eu) terão acesso a outros meios de relacionamento e vão aderir. Mas por trás dessas invenções, continuaremos no formato de seres humanos, vendendo as mesmas imagens de sempre, embora diversas.

      Assim, concluo meu comentário dizendo que não, graças a Deus não somos um caldo azedo das bichas más que vivem “zumbizando” por aí. Má ou boa índole independem de nossa sexualidade, profissão, classe social e etc. Má e boa índole tem a ver com educação e, a mim, espiritualidade.

      Um abraço,
      Flávio

  2. Sandro Bonassa disse:

    Só deixar a vida seguir seu fluxo, manter a mente e o corpo em equilíbrio que todas as dúvidas, problemas e medos aos poucos vão deixando de ser bicho de sete cabeças.

    Muito bom o seu blog, fantásticos textos e comentários.

    Flávio, muitas pessoas relatam algo tipo de problema ou sofrimento causado pelo apego.
    Mandei um texto para você analisar e verificar se fica interessante publicar.

    Encaminhei hoje no canal contato, chama manifesto das almas livres.

    Abraços.

    1. minhavidagay disse:

      Legal Sandro!
      Vou olhar!

      Abraço!

  3. Dani Boy disse:

    Risos …
    “dignidade em sauna” LOL

  4. profprdal32 disse:

    lleio todos os comentarios; e acada um deles estou aprendendo cada vez mais , e´muito importante nós como usuarios fazermos comentarios pelos nossos benificios e entre outros .

  5. Acredito que há um tempo atrás, na época em que você era o Príncipe em cima do cavalo (antes de eu te stalkear e descobrir que eras totalmente diferente do que eu imaginava), teria um infarto em ver que fui citado pelo MVG. Repito: Pelo MVG! (e você era tudo isso, e mais um pouco, naquela época).
    Não nego que o pensamento: “Nossa, ele sabe que eu estou aqui”, existe e foi presente quando soube, através de você, que tinhas me citado em um texto teu, mas minha reação em relação a isso está mais presa ao chão do que nas nuvens, diferentemente do que seria se eu não soubesse como realmente és. Quero dizer: Hoje, estás sendo um pouco mais Flávio do que MVG a mim, e ter essa noção, de que não és o Príncipe no cavalo, mudou minha percepção sobre e a forma como respondo a você.

    Em minha declaração, longe de ser formal (Rs!), saibas que em nenhum momento estava lhe vendo como o Príncipe no cavalo, nem como MVG, era apenas uma questão de respeito: Você, Flávio, me ajudou! “Te acho foda!”, “Amo você!”, “Meu sonho é um dia conhecê-lo pessoalmente e virar todas as bebidas contigo em uma festa”, etc, são frases que, mesmo ditas pelo AR bêbado, mostram que és uma inspiração para o AR, claro que sempre reconhecendo o seu lado humano.

    Já disse, mas repito: Sou eternamente grato por toda atenção que me destes nos momentos em que eu necessitava de um apoio (até mesmo no mais complicado que tive), e fico feliz em saber que você, de certa forma, sabe de minha gratidão.

    Espero realmente que um dia, por destino ou acaso, tenhamos a oportunidade de conhecer mais o Artur/Flávio, e menos CR/MVG.
    Minha única exigência é que tenhas um litro de São Braz nas mãos :v!

    Abraços do CR, Artur, ou com quem você acredita que esteja mais próximo.

    1. minhavidagay disse:

      Com o Artur, com certeza… o CR tinha 17 anos (rs).

      O que seria São Braz? Cachaça? :P

      Destino, acaso ou combinado! Nada impede de eu dar um rolê em Fortaleza e te conhecer!

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