Segredos do meu diário

Pensamentos, devaneios e ideias de um gay

Até o ano passado eu expunha com muito mais frequência minha intimidade, trazendo no Minha Vida Gay temas e vivências pessoais, tal qual um “diário aberto”. A responsabilidade como mentor e coach e, mais do que isso, certa mudança de valores com a chegada dos meus 40 anos, fizeram rever essa ideia de exposição. O lado profissional carece de discrição de opiniões pessoais por um fato muito simples: se eu exponho muito como sou, meus hábitos, meus acertos e erros, pontos de vista e minha conduta perante a própria vida para além das entrelinhas, um aprendiz ou coachee tende a julgar alguma orientação, podendo alegar que “como o Flávio pensa assim, ele está me dizendo assim ou assado”. Em outras palavras, pode dar a impressão que o serviço perde uma fundamental imparcialidade, pode parecer tendencioso ou uma projeção de meus problemas em quem me recorre.

Mas confesso que minha atuação como empresário – por quase duas décadas – me ensinou a duras e não tão duras penas a dividir pessoal e profissional. A natureza da minha personalidade – entre erros e acertos – faz com que eu me sinta bastante seguro a, de vez em quando, trazer ainda alguns relatos pessoas por aqui. Assim, assumo o risco de ser julgado, sem achar que – por essa abertura – algo possa desqualificar minhas sessões de mentoria e coaching que se estabeleceram nos últimos meses. Mentoria e Coaching é também uma troca nivelada.

Quando a gente muda, o mundo muda

Talvez este título seja clichê para uma grande maioria de pessoas que atua em áreas congêneres a consultoria pessoal, neurolinguística, psicologia, coaching ou mentoria. Mas é por meio de um relato pessoal, pautado em um dos temas mais buscados no MVG – relacionamento entre gays – que vou preencher o post de hoje.

Há quatro anos atrás terminava um namoro que, igualmente, durava 4 anos. Foi um relacionamento de muitos crescimentos, aprendizados, compreensão sobre as diferenças, entre outros elementos – incluindo familiares de ambos os lados – que, como diria meu ex, era “perfeitinho”. E embora, por mais paradoxal que seja em relação a “perfeição”, terminamos. Tremenda contradição a época e, hoje, entendo com muito mais consciência os motivos de termos seguido por caminhos distintos, embora tenha permanecido a amizade e uma parceria de trabalho. Assim, são sete anos que mantemos um razoável contato, o que confere um orgulho, no sentido da quebra do modelo social de que “ex bom é ex morto”.

Como o “mais perfeito” poderia acabar? Esta resposta veio relativamente rápido, pois embora nos completássemos bem em termos afetivos e sociais, era notável que as rotinas, o meu papel na relação e o papel do meu ex precisavam ser mexidos, mas estavámos acomodados ou talvez descrentes de que mudanças surtiriam efeito. Havia um cansaço, cobranças para se preencher aqui e ali e uma sensação indelével de que havia acabado.

De 2013 para cá, consigo afirmar que as relações que tive, até então, foram importantes para redescobrir minha maneira íntima e exclusiva de me relacionar afetivamente, no que chamam de relacionamento homoafetivo, gay, whatever. Redescobrir. Estava cansado da maneira que eu me relacionava com meus ex-namorados. Existia – sim – um ciúme constante que eu poderia chamar de velado. Existia uma doação natural do “faça assim, faça assado, cozido e temperado para o namoro”, comportamento fruto (também) de um desejo fantasioso de controle. Quando meu ex “classificou” o meu jeito de ser na relação como “perfeitinho”, adjetivo percebido depois que ele viveu alguns romances posteriores, uma ficha caiu – no sentido da pura (ou dura) consciência – e busquei ressignificar alguns hábitos compassados. Resolvi sair da caixinha para depois voltar e colher aquilo que quero levar comigo para os próximos anos.

Ainda está acontecendo.

Depois deste namoro, me permiti relacionar com orientais, ciente que é muito comum em terreno nacional, oriental com oriental (gay e gay) não quererem se relacionar. Era tudo consequência de uma trava psicológica bastante comum entre homossexuais orientais. Me permiti viver a experiência de um relacionamento a distância. Não deu muito certo – ao meu ver – mais pelo contexto, da ocasião, do que da distância em si. Me permiti estar com alguém sem namorar, ou seja, me orientei a apenas uma pessoa sem definir que aquela relação era namoro. Estava tudo ótimo, até ele “cobrar” a classificação, delimitar sem compartilhar o que entrava ou não e o que podia ou não entrar na sua caixinha-imaginada-de-namoro e, por fim, a relação se tornar algo quase que ditatorial (RISOS). E, para minha surpresa, com 39 anos, pude viver a emoção de uma paixão arrebatadora a primeira vista, do assumir o namoro em uma ou duas semanas e de toda aquela energia acabar na mesma medida do que veio.

Mas o mais importante dessas experiências vividas, foi poder me afastar um pouco ou muito – durante estes três anos – de um padrão de atitudes, comportamentos e hábitos que haviam me conduzido por longos anos. Me livrei por um razoável período do “modelo ciumento” e pude revisitar o que era alguém ser, por mim, mais disso do que eu. Me despi daquele jeito de doação (que em boa parte significava a ideia fantasiosa de controle) e fiquei sentado num “banquinho imaginário”, deixando que a pessoa viesse até a mim e sentasse ao meu lado ao invés do contrário. Larguei mão do tal “perfeitinho” para viver novas inseguranças e, quiçá, tranformá-las em segurança.

Eu não gostava mais de mim daquele jeito que eu me relacionava.

Ressignificação e Autocoaching

Sem querer-querendo, coloquei tudo no liquidificador: o cara que tinha um jeito de se relacionar com o cara que se permitiu sair da zona de conforto, romper com alguns paradigmas, ser diferente e fazer diferente perante aqueles que eu estivesse com uma vontade de algo mais. Bati tudo aquilo e coei. Aliás, ainda estou coando e vendo o que desce e o que fica na peneira.

Em 2009, quando conheci o Beto, não sabia que faríamos uma relação de quatro anos e que perduraria até 2013. Mas além da atração, havia batido um “clique”, uma intuição de que aquela história iria para além do prefácio. Esta intuição não mudou e há dois meses o “clique” bateu novamente pelo Rafa. Eu estava sentado no banquinho fazia uns sete meses já e ao invés dele sentar ao meu lado, ele me puxou. A sua maneira, sem expor diretamente suas intenções, sem agressões nem excessos de objetividade. Levei um susto e, de repente, percebi que era hora de prestar anteção no caldo e jogar fora o bagaço que havia ficado na peneira.

Não é fácil, não está sendo fácil. Mas os desafios vem por dentro, não é ele, nem é o relacionamento. É uma busca interior. E com ele, ultrapassamos os 9 meses.

Quem sou eu hoje para um relacionamento? O que eu posso oferecer, ou melhor, o que eu consigo oferecer? Será que o que eu consigo oferecer é consistente o suficiente para assegurar a relação? Como agir (diferente) diante minhas inseguranças e dúvidas? Agora que eu sei que é com ele que existe a possibilidade de algo maior, como lidar com o “eu ciumento” e com o “eu controlador”? Como, de que forma, por onde?

Não é fácil. Mas está muito longe de ser ruim.


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Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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