Sentimento sincero

“As vezes, namorar é tão melhor sem ter que formalizar: na-mo-ra-dos. Caixinhas, as vezes, só colocam a relação num lugar de cobranças, regrinhas e convenções. Think about it and hakuna matata”.

Lancei esse textinho na timeline do Face e se não foram meninas e mulheres que curtiram, foram gays. Gerou até uma micro-polêmica, quando uma das minhas amigas (que não curtiu) achou que tal situação não funciona e que qualquer relacionamento de qualidade precisa estabelecer um compromisso real.

Compromisso real? E alguém aí consegue ter a audácia de definir com toda certeza do que se trata um “compromisso real”?

Definitivamente, opto pelo sentimento sincero que, mesmo assim, aqueles que não se entendem muito bem, põem em questionamento.

Compromisso real X sentimento sincero. Alguém aí sabe diferenciar?

Voltei de Nova Iorque há duas semanas e, logo no primeiro final de semana, estive com o Rafa novamente. Passamos sexta-feira juntos, sábado e – numa situação mais aflitiva a qual tem passado com seu filho – o gato que estava internado – bateu uma vontade de estar com ele no domingo, em partes pela simples vontade de estar junto e em partes para poder distraí-lo e fazer companhia num momento que, só quem zela por bichos de estimação, sabe como é. Filhos doentes, internados, recém-operados e em processo de recuperação, normalmente mexem com o emocional de bons pais.

Mas quando estive em NYC, ciente de que não havia formalização entre nós, Rafa e eu, não deixei de dar umas voltas na cidade durante a noite, sozinho, para ver a vida gay com os olhos de solteiro. Claro que rolou paqueras e, numa curiosidade natural, resolvi abrir o Hornet – algo que não fazia desde que havia conhecido o Rafa – e pude flertar um pouco e, inclusive, notar que o Rafa tinha acessado o meu perfil e que também estava online.

Mesmo assim, da minha parte, nada além aconteceu (a não ser que o caro leitor entenda o “abrir o aplicativo de pegação” como muita coisa). E se digo que nada aconteceu não é uma justificativa. Apenas um pouco da tradução das minhas vontades, sem “compromissos reais”.

A bem da verdade, os dois americanos que se aproximaram tinham os traços básicos do Rafael: caucasianos, loiros e de olhos azuis. Coincidência? Lei atual de atração? Só sei que fiquei um pouco intimidado por “ver” o Rafa naqueles meninos e a história não foi além de algumas conversas e toques superficiais.

Ele online, eu também, antes de pisar em solo brasileiro buscamos agendar nossa sexta-feira por iniciativa minha. Daí que veio sábado, domingo, visita ao hospital para ver seu gato, preguiça no sofá agarradinhos enquanto ele me apresentava Naruto, tentativa de cinema, jantares, almoços e assim por diante. Delícia, como não me delicio desde meu último namoro.

Nesse último final de semana, em nosso primeiro encontro, tudo pareceu mais intenso: o beijo, o sexo, a intimidade e a vontade de ficar juntos. Realizamos todas essas vontades.

Durante a semana falamos como de costume, oferecemos “boa noite e durma bem” um ao outro e já estamos com o próximo final de semana programado.

As vezes, namorar é melhor quando não se formaliza, sabe? Já conversamos sobre a instituição que pode virar o namoro e, talvez, tanto eu quanto ele estejamos com receio da parte “chata”, as cobranças, as regras, as imposições, as condições e as expectativas. Já nos conhecemos há três meses e, se fosse outro dia, o Flávio já queria enquadrar a relação. Precisa ser alguma coisa diferente do que é hoje?

Hoje = aqui e agora.

“Ai, que droga, o Rafael está online no Hornet. Pois é, eu também”.

E então? E então que passarei meu tempo livre com ele. Delícia.

 

 

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Meu amigo seja bem feliz, que bom que você está gostando de alguém está fazendo uma coisa boa, está amando, que revolução em um mundo com tanto desamor…

    Agora sobre instituições, penso que essa coisa de namoro, “falar namoro”, não dá muito certo pois cria uma pressão entre as partes e rola umas inseguranças, uns medos e por aí vai, esse namoro tradicional talvez não se adapte de primeira à vida gay que tem uns paradigmas muito ligados à pós-modernidade e não tanto a contratos e propriedades,é um território onde as pessoas buscam ter prazer, compartilhar felicidade e não carregar a cruz ou fazer aqueles votos todos do casamento da igreja católica, acho que a pessoa gay meio que simboliza uma busca pela maturidade no ser humano na área das emoções, a aceitação da solidão e do desamparo e uma busca pelo prazer sem culpa e por autonomia de vida, como superação.

  2. Pablo disse:

    Olá, muito legal suas experiências, e mais interessantes ainda seu compartilhamento neste blog, que acaba por tabela nos fazer pensar e saber que não estamos sozinhos em certas situações! Haha um abraço!

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