Ser gay e ser oriental

Volto com o tema “gays orientais” de novo devido a uma situação apropriada: o Marcos, que não é um leitor do Blog MVG, entrou em contato por e-mail para solicitar uma ajuda. Ele é estudante da ECA – USP e chegou até a mim para pedir uma participação num trabalho da faculdade. Em linhas gerais, o projeto diz respeito às intersecções e nuances de ser gay e ser oriental. Como já abordei esse assunto algumas vezes por aqui e por se tratar do projeto de tema equivalente, achei interessante prestar meu depoimento, mesmo sabendo de certa exposição. A princípio era para fazer uma filmagem comigo, para apresentação em sala de aula e possivelmente na Internet. Achei um pouco complicado, não pelo fato de eu ser gay, mas pela importante discrição justamente pela existência do Blog. Mas parece que as condições mudaram e pude me apresentar por intermédio de depoimentos e relatos escritos.

Pois bem, com o consentimento do Marcos, cá está a minha entrevista para seu trabalho, abordando temas e referências que podem ser de interesse para quem é oriental e gay num contexto Brasil:

1. Em qual momento da sua vida você decidiu criar o blog? E qual a importância que ele tem para você?

Resolvi criar o Blog em maio de 2011, há quatro anos atrás. Naquele tempo eu estava no segundo ano de um namoro, que duraria quase quatro anos. Tinha já vivido muitas histórias tanto em relacionamentos quanto na vida de solteiro. Naquela época, não tinha grandes pretensões a não ser criar registros das minhas vivências e, de maneira opinativa, abordar conceitos que envolviam o universo gay, sexualidade, tabus, termos como “afeminados” e “masculinizados”, “passivos” e “ativos”, entre outros. Hoje ele se tornou um meio bastante importante a mim. Escrever no Blog é como uma verdadeira terapia. Deposito nele uma energia para organizar minhas ideias, elaborar pensamentos, fazer críticas e tecer opiniões sobre os mais diversos assuntos que circundam a vida gay.

2. Na sua opinião como o blog ajuda homossexuais?

O Blog MVG ajuda os leitores a terem referências. Como costumo dizer, a gente não tem nem em casa (perante a família), nem na escola uma “cartilha” do que é ser gay, diferente da normatividade para quem é heterossexual. Assim, pelo MVG posso descrever diferentes referenciais, nem sempre concordantes ou partes de uma mesma linha de conduta, para que as pessoas que passem aqui, possam buscar por algum “norte”, alguma identificação ou não. A principal ideia do Blog é que o leitor desenvolva seu próprio senso crítico. Apresento diversas referências, por vezes (aparentemente) contraditórias, para que a pessoa reflita se os contextos apresentados tem ou não a ver com ele. Dessa forma, creio que o Blog ajude sim.

Falando em ajuda direta, nos últimos dois ou três anos me aproximei de seis leitores que, a época, estavam totalmente dentro da “concha”. Atuei informalmente e com intersecções de amizade, incentivando-os e motivando-os para que traçassem seus caminhos fora do armário. Tais registros estão claros na Rádio MVG (e espalhados em textos pelo Blog). Cada um, hoje, segue um caminho bastante diferente. Um deles irá casar em Janeiro de 2016, o outro está vivendo um relacionamento mais despojado hoje, um terceiro começou um romance há pouco tempo e, em geral, todos eles estão resolvendo demandas de relacionamento afetivo, desmistificando a ideia de que gay funciona melhor no estado ímpar. Eles estão buscando viver em par.

3. Você poderia falar sobre seu lado oriental da família? (Por exemplo, meus avós vieram do Japão ou minha mãe é japonesa ou até mesmo se for mestiço, enfim, essa pergunta é para saber sobre como a cultura oriental está presente na sua vida).

Meus pais são brasileiros, nascidos aqui. Meus avós de ambas as partes eram japoneses, hoje já falecidos. Assim, eu sou 100% descendente de japoneses, sansei – terceira geração no Brasil. Posso afirmar que, pelas minhas escolhas de vida e minhas próprias referências, não sou daqueles japoneses típicos. Meus pais nunca manifestaram o interesse de conviver exclusivamente entre orientais, me formando assim em meio a uma maioria de amigos ocidentais. Então, quanto ao convívio étnico, tive muitas referências de descendentes de italianos, espanhóis, negros, índios, e enfim… toda a mistura étnica que existe por aí quando não oriental.

Por outro lado, é inegável que exista uma raiz cultural do oriente, principalmente aquelas que meu avô paterno buscava me trazer. Quando jovem, ouvia muitas histórias infantis do tipo “Momotaro”. Valores morais, de conduta e um respeito entre o público e o privado é algo também adquirido e, por fim, mas não menos importante, esse mesmo avô costumava a dizer que era para eu casar com uma japonesa incondicionalmente! (rs) Falava assim: “você coloca no pé um chinelo e no outro um tamanco quando se relaciona com um gaijin. O certo é andar com um par de chinelos” – ou seja, não fazia sentido nenhum a ele, eu me envolver por uma ocidental. Mal imaginava meu avô que na realidade eu era gay, nem “tamanco”, nem “chinelo” (rs).

4. Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser homossexual?

Olha, para ser bem sincero, sofri preconceito apenas uma vez. Lembro que estava descendo a pé a Rua da Consolação, sentido Jardins, com meu ex-marido e um cara que vinha de carro diminuiu a velocidade, abriu a janela e ficou mexendo comigo e com meu ex-marido, do tipo “seus viadinhos fdps”. Minha vontade naquele momento, lembro bem (rs), foi partir para cima. Mas meu ex me segurou e falou para deixar quieto. Fora essa situação não me recordo de algum tipo de agressão. Aconteceu também que eu assumi para todos os amigos e pais de amigos. Alguns deles, heterossexuais, se distanciaram. Mas, de fato, não sei se a distância se deu pelo fato de eu ser gay ou porque, a época, cada um de nós já trilhávamos por caminhos diferentes. Já me reencontrei com eles esporadicamente e sempre fui bem tratado, principalmente pelos pais desses determinados amigos.

5. Você já sofreu ou sofre preconceito de seus familiares pela sua sexualidade?

Minha mãe demorou um ano para elaborar e aceitar a ideia. Hoje somos extremamente amigos, a ponto de eu contar tudo a ela, num modelo bastante fraternal. Ela sabe das minhas investidas “lado A” e das minhas desventuras “lado B” e compartilha comigo impressões com naturalidade. Meu pai demorou 10 anos para se conformar, o que é bastante diferente de aceitar. Ele teve uma cultura (e também uma personalidade) muito mais presa e/ou apegada as normas da tradição (seja da cultura oriental, seja da heteronormatividade). Falou comigo sobre o assunto algumas poucas vezes, no sentido de querer dizer assim: “eu não aceito, mas vou fazer o quê?”. Bate a ele aquele certo sentimento de impotência, justamente por ele ter uma personalidade muito controladora, controle esse que sempre foi muito além das exclusivas questões da minha sexualidade.

Não sinto propriamente um preconceito por parte dele, mas um conflito natural entre o extremo apego aos valores que tem X a realidade da minha homossexualidade. Chegou a conhecer dois dos meus namorados. Sempre os tratou bem, embora quando soube que eram meus namorados, tenha ficado mais reticente.

Meu irmão mais novo e único, e minha cunhada, lidam muito bem. No mesmo contexto cultural oriental, os primogênitos costumam a ser meio que respeitados pelos mais novos. Meu irmão pegou mais o “jeitão” do meu pai quando o assunto é valores e moral. E mesmo assim, existe um forte respeito por mim.

Primos e tios não sabem, não porque eu resolvi esconder, mas porque culturalmente, desde pequeno, quase nunca tivemos contato. Tenho tios e primos que moram próximos, mas as famílias vivem com alta independência. Nunca tivemos o hábito de juntar a família para Natal e Ano Novo. Assim, porque seria necessário expor a minha intimidade, se essa não foi construída?

6. Qual a opinião de sua família sobre sua sexualidade? Elas concordam/aceitam ou não?

Creio que eu tenha respondido na questão anterior: minha mãe e meu irmão estão envolvidos com meu universo sem grandes restrições. Assunto sobre tudo com a minha mãe. Com meu irmão, eu falo quando o encontro, já que ele mora no Rio de Janeiro. Com meu pai praticamente não falo sobre esse assunto, mas assim como quase não desenvolvemos nada sobre intimidade. Meu pai prefere falar sobre amenidades em comum: carros, tecnologia, entre outros de cultura geral. Mas intimidade não é algo que meu pai saiba desenvolver (rs).

7. Você acredita que a cultura oriental ainda hoje é extremamente conservadora e tradicional? Se sim, você observa um desenvolvimento relacionado a esse preconceito?

Eu acho que a cultura oriental no Brasil está se ocidentalizando cada vez mais. Claro que existem núcleos que ainda preservam (no sentido de preservação mesmo) hábitos da tradição. Mas de uma maneira geral, em se tratando de uma capital como São Paulo, vejo que orientais residentes aqui, de quarta geração – por exemplo -, têm adquirido mais independência das tradições orientais e heteronormativas. A tradição oriental é diferente da cultura heteronormativa, embora tenham intersecções. Vou dizer algo que pode ser até um pouco polêmico, mas no meu caso e no caso de amigos orientais que cresceram comigo (ou até aqueles do MVG que conheci presencialmente), o japonês – graças a Deus -, não é tão ligado a associação de gêneros. Por exemplo: meus pais (e creio que possa falar por esses amigos) nunca ficaram associando o “brincar de Barbie” com coisa exclusiva para meninas. Eu poderia brincar de Barbie com a minha amiga, assim como jogar futebol com os amigos. Poderia brincar de bambolê na mesma proporção que eu poderia jogar bolinha de gude. A cultura japonesa é mais livre dos valores de gênero, o que é fortemente presente na educação ocidental. De certa forma, isso é uma prova de que identidade de gênero não tem correlação direta com a sexualidade, ou seja, não é porque um menino aprende desde pequeno que pode brincar de Barbie que, quando adolescente, vai se entender como homossexual. Outros amigos japoneses que puderam brincar de boneca comigo são heterossexuais, a maioria (rs).

8. Você acredita que a cultura oriental é mais preconceituosa que a ocidental?

No sentido do conflito da homossexualidade perante a heteronormatividade é semelhante. Ressalva aos aspectos da educação de gênero, como expliquei acima. Nós, orientais, ou pelo menos aqueles com quem já conversei sobre o assunto, não tivemos opressão por questões voltadas a “coisas de meninas” e “coisas de menino”. Alguns orientais têm preconceito com a mistura, no sentido da preservação da raça. Esse tipo de preconceito foi bastante “martelado” pelo meu avô, por exemplo.

9. Sua família e você seguem a cultura oriental?

Posso dizer que seguimos pouco. Acabo conhecendo alguns ocidentais gays, adoradores de orientais do tipo “Rice Queen”, que muitas vezes sabem mais da cultura do que eu mesmo! Creio que a influência da cultura oriental, em mim, é subjetiva, nas questões da conduta moral perante o outro e no respeito do limite entre o público e privado. Japoneses, por exemplo, não costumam ser invasivos, são mais discretos (que por vezes é lido como timidez). E claro, algo que é bastante influente, é a culinária. Vou para a Liberdade mais de três vezes por mês para me deliciar com os pratos japoneses ou chineses!

10. Em algum momento você acredita que a cultura oriental influenciou a sua orientação sexual?

A ciência ainda não definiu o “por quê” das pessoas serem gays ou não. Eu entendo que parte disso vem de influências culturais, mas o que é definitivo, para que um indivíduo se oriente pela homossexualidade, são aspectos intrínsecos, inerentes a cada indivíduo. Existem “tendências internas” para que um indivíduo seja homossexual ou não. Mas nada disso, ao meu ver, diz respeito a uma influência direta a cultura oriental. Dizem que, em alguns casos recorrentes, o gay costuma ter um distanciamento da figura masculina do pai, e uma proximidade mais intensa com a figura feminina da mãe. A maioria dos meus ex-namorados seguiam esse modelo (assim como eu), não tendo afinidades com o pai e sendo bastante próximos da mãe. Mas isso não está relacionado exclusivamente à cultura oriental. Não acredito que a nossa cultura tenha algum aspecto determinante que faça um filho se orientar à homossexualidade.

11. Uma das características mais marcantes da cultura oriental se baseia no respeito entre todos. Você percebe isso?

Bastante. Quando citei o respeito dos limites entre o público e o privado, tem muito disso. Aprendemos diretamente ou subjetivamente sobre o respeito dos limites para com o outro. Isso é algo evidente e cultural, quase que normativo entre os orientais (e falo dos japoneses pois não conheço muito as outras culturas orientais). As vezes o ocidental confunde a nossa discrição com timidez. Outros exemplos: nunca fui educado a me envolver com pessoas que tenham o mesmo nível social que o meu exclusivamente. O foco da educação sempre foi no indivíduo (o ser) e não propriamente no ter. Sempre fui educado a buscar prosperidade por intermédio do esforço e das aptidões, de estudar, trabalhar e alcançar desejos por meio dos desafios e conquistas. Meus pais, de certa forma, me ensinaram a conviver com pessoas que tenham esse perfil de conduta com a própria vida, independentemente do nível que seja o ponto de partida.

Adendo importante: todos do grupo do Marcos são heterossexuais.

3 comentários Adicione o seu

  1. Ro Fers disse:

    Acho bacana saber um pouco mais afundo da vida de um blogueiro…
    Abraços!

  2. Junior Japinha disse:

    Seria bacana montar um grupo de admiradores de orientais. Não encontrei na rede. Fica a dica.

    1. minhavidagay disse:

      Junior Japinha, existe uma comunidade grande no Facebook chamada Rice Queen. Procure encontrar alguém que faça parte para te convidar! ;)

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