Setembro Amarelo

Antes do Setembro Amarelo

Antes de entrar em reflexões sobre o Setembro Amarelo, sigo apenas com um adendo ao post “Gay, brasileiro e descendente de japoneses”: costumo frequentar o Pão de Açúcar, mercado bastante conhecido em São Paulo. Faz alguns anos que o supermercado faz uma promoção de coleção de selos para troca de produtos (já tiveram conjuntos de panelas, facas, refratários, copos, etc.) e confesso ser um tiozão que adora colecionar esses itens, já que tenho o hobbie de cozinhar com alguma frequência.

Agora, bem recentemente, o cliente do mercado precisa confirmar na máquina do caixa com o “botão verde” como usuário interessado e participante da promoção. Há pouco tempo, não precisava.

Comentei hoje para a menina do caixa que me atendeu, que achava que aquilo era chato, ficar confirmando toda hora e me parecia uma etapa a mais desnecessária. Bastava me perguntar, como antes.

Foi aí que ela me respondeu com bastante ênfase: “não! Você não imagina como é importante pra gente. Muitos clientes voltavam com a nota de compra alegando que tinham esquecido de pegar os selos e acabavam pegando o dobro! Estava complicado controlar…”

De imediato, me assustei e disse alto: “mentira! Não acredito que tem gente que fazia essa sacanagem! Como a pessoa tem coragem de roubar selos assim?!” – notei até pessoas de outras filas me reparando, tamanha a altura da minha perplexidade. Fiquei bem emputecido na real.

Aqui, mais um exemplo de nosso dia-a-dia, de nossas trivialidades e sutilezas da cultura latino-brasileira. Meu assombro (literalmente) é imaginar como um indivíduo brasileiro pode mirabolar esse tipo de roubo para tirar vantagem?!

Mais um “pontinho” que – a mim – soma a uma ideia definitiva: um povo ruim não merece um governante bom. E, de fato, jamais terá enquanto ruim desse jeito. Fraco demais, para falar a boa verdade.

Mãe e namorado: educadores

Minha mãe foi professora do Estado e tive a satisfação de ter sido seu aluno no 3º colegial. Ela atuou por longos anos como professora de Português e Inglês até seus 50 e poucos, quando depois se aposentou.

Meu namorado ingressou esse ano na mesma carreira, como professor de Química. Entre ela e ele estou me referindo a 3 ou 4 gerações diferentes e parece que as problemáticas da educação pública pairam nos mesmos pontos de sempre, com a diferença de que meus ouvidos críticos estão sempre atentos as minúcias e detalhes que meu namorado me traz.

Confesso, com um gosto incomensurável, que a janelinha que meu namorado abre sobre as realidades das pessoas que hoje têm de 15 a 17 anos, é de um prazer intelectual sem tamanho. Talvez, herdado da minha mãe, venha essa profunda vontade de saber como funciona os “mundos” mais jovens, gerações-luz da minha. E, mais do que uma verdade de grupos abastados, a vida como ela é – dos indivíduos que vivem em situações mais limítrofes – me mantém com o pé firme ao chão, me fazendo (intelectualmente) um cara de esquerda legítimo, que não se deixou tragar, reduzir e sucumbir à minha própria sala de jantar; essa bolha confortável e medíocre anti-Bolsonaro de classe média.

São diversos os pontos sobre o ambiente escolar público, que voltarei em outro post, buscando reforçar por hoje a questão do suicídio entre os jovens.

Suicídio entre jovens

O Setembro Amarelo é um mês do combate, prevenção, orientação e consciência sobre o suicídio. E o assunto tem sido muito pautado nas três escolas nas quais meu namorado têm lecionado já que, em apenas uma delas, só este mês, houveram sete tentativas.

Sete alunos de uma mesma escola tentaram o suicício somente esse mês e essa realidade me enche de questionamentos os quais, na verdade, eu estou longe de querer responder (pois estou longe de ser um conhecedor do assunto) mas, humanamente, vou registrar para que mais pessoas se mobilizem, minimamente, para o pensar.

Quando estive no colegial durante os três anos (em torno de 1993), não houve um incidente com esse tema. Em outras palavras, o suicídio entre jovens foi 0% de estatística durante meus anos finais antes da faculdade.

Meu namorado, prestes a fazer 24 anos, disse que – em sua época de colegial público – falava-se de dois suicídios por ano.

E, agora, a realidade aponta para uma quantidade muito maior: só este mês foram sete tentativas em apenas uma das três escolas em que ele leciona.

O que é que há?

Da minha geração para cá, essa mudança a qual considero drástica, como disse, me enche de questionamentos e estou longe de me sentir qualificado para trazer as respostas. Todavia, com esse agravamento, abro as questões para que os leitores que se prestarem a ler, façam também suas reflexões:

– Na minha geração, a grande maioria dos pais era presente, para compartilhar bons momentos, maus momentos, para broncas e quem sabe uns bons tapas quando, nós, filhos, passávamos dos limites. Independentemente da questão política-correta do “bater ou não”, será que a ausência dos pais hoje em dia, ou uma liberdade “sem limites” como hoje é colocado na relação de pais e filhos, pode culminar (direta ou indiretamente) em tendências suicidas?;

– Na minha geração, o mercado não era aberto como hoje e a voracidade/incentivo pelo consumo, como nos dias atuais, faria qualquer jovem achar o meu tempo de juventude algo como a pré-história. Presentes, brinquedos, marcas de roupas, doces no supermecados e outros bens de consumo que faziam parte do imaginário de desejos de um jovem, entre 15 e 17 anos, podiam ser contados nos dedos. Será que a banalização do ter (hoje é muito fácil ter qualquer coisa, pelas mais diversas vitrines online e offline, inclusive vitrine de pessoas) pode culminar (direta ou indiretamente) em tendências suicidas?;

– Na minha geração, dos 15 ao 17 anos, os jovens eram impulsionados – naturalmente – a se relacionar no “olho-no-olho”. O barato, nas horas vagas, era reunir amigos para encontros, cinema, um lanche em algum canto ou algum papo furado na casa de um dos colegas, sempre em conjunto com o mínimo de duas pessoas. Hoje, por intermédio do celular, jovens se entretêm com centenas de pessoas, milhões de músicas e milhares de outros produtos audiovisuais (games, filmes, seriados, programas de Youtubers, outros) mas apenas, e somente apenas, a patir de uma pequena tela de celular. Será que o excesso de impessoalidade pode culminar (direta ou indiretamente) em tendências suicidas?;

– Na minha geração, os jovens não tinham a facilidade de acesso as milhares de informações diárias do país e do mundo. Nem meus pais tinham acesso a mim, se eu e meu grupo de amigos resolvêssemos passar o dia inteiro no shopping. Todo tipo de conhecimento ou informação chegava mais lentamente. Será que essa aceleração pode culminar (direta ou indiretamente) em tendências suicidas?;

– Na minha geração, um ídolo que surgia se perpetuava por décadas como símbolo de identificação e envolvimento afetivo. Havia um sentido para se ter ídolos.

Um pouco antes da minha, houve Charles Chaplin, Janis Joplin e John Lennon, por exemplo. E eu tive a oportunidade de me conectar com essas representações materializadas na figura de Michael Jackson, Madonna e Steven Spielberg. Ou quem sabe, nacionalmente, Ayrton Senna e até mesmo a Xuxa. O último ícone – e me corrijam se eu estiver errado – que comoveu o mundo com o caráter da idolatria global, não veio do mundo artístico: era o work-a-holic e revolucionário Steve Jobs. Depois dele, não vi mais o planeta parar mediante a representação afetiva e emocional criada por um homem.

Será que a perda deste sentido, do ídolo, pode culminar (direta ou indiretamente) em tendências suicidas?;

– Na minha geração, dos 15 aos 17 anos, o mundo concentrava 5,5 bilhões de habitantes. Hoje está na faixa dos 7,7 bilhões. Será que esse volume de gente pode culminar (direta ou indiretamente) em tendências suicidas?

Não sou especialista

Não sou especialista, mas para o mês oportuno do Setembro Amarelo, do combate ao suicídio, acho importante deixar esse registro aqui, no blog Minha Vida (Gay) que vem trazendo reflexões, pontos de vista e referências cada vez menos circunscritas na temática gay e, de acordo com as trilhas de meus pensamentos, cada vez mais nas relações e situações mais abrangentes que a mim, hoje, assumem maior importância.

Para mais informações sobre a prevenção ao suicídio, clique aqui.

1 comentário Adicione o seu

  1. Acho relevante debater este tema. Acredito que a nova fase do MVG em debater questões sérias e muitas delas sobre comportamento humano e até mesmo sobre política é de fundamental importância. Sabemos que os temas aqui tratados muitas vezes não fazem parte só das questões LGBTQIA+ mas são abordados e posicionados por um gay, e que nós, gays, podemos também ler, comentar e interagir através de uma comunidade que aqui se forma. Parabéns pela escrita, Flávio! Passo horas degustando seu blog em um completo orgasmo intelectual!

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