Sexta-feira

Devaneios de um gay para o final de semana

Se aproxima o final de semana, clássico e querido momento para descanso e entretenimento. Desde que terminei com o Rafa – e apesar de parecer que eu vou na sauna o final de semana inteiro (rs) – tenho passado a maior parte do tempo dentro de casa. Longe da função em aplicativos, longe da necessidade de criar as diversas situações para me socializar, ou pelo menos numa quantidade que a mim parece ser bastante pequena. Confesso que vira e mexe me pego questionando “se eu estou bem”, “se não estou depressivo”. Não era normativo isso em minha vida até antes de conhecer o Rafa, embora eu já estive num ritmo mais tranquilo. Tenho levado isso a minha terapeuta e questionado por ela sobre os fatos do meu cotidiano, chegamos juntos a uma conclusão: vai tudo bem. Não estou recusando encontros, não estou deixando de fazer sexo (rs), nem de deixar entrar e sair pessoas na minha vida num ritmo natural de uma vida gay (e não tão gay assim).

As coisas (simplesmente) mudaram para o cara que aqui vos fala. Me sinto aberto para conhecer pessoas, mas ao mesmo tempo consciente daqueles aspectos, manias e modelos que – no meu ponto de vista – vão decair com a qualidade da própria relação e (fatalmente) me darão uma preguiça sem fim. Enquanto isso, pequenas diversões aqui e ali vão preenchendo minhas horas livres. É possível acordar às 8h da manhã de um sábado e ser feliz em levar o cão para o banho na veterinária? Achava isso impossível e cuspi para o alto (rs).

Afirmo que os exercícios físicos constantes e a interação mais intensa com a música (de novo) me deixa muito firme no eixo. A tal da carência, bem expressa no post “Olhando para outras direções” está sob meu domínio, eheh. Como já é bem passado na terapia, me socializo tanto durante a semana, entre equipe, clientes e parceiros sempre com problemas para resolver e questões para elucidar, que me sinto bastado de… gente? Mais ou menos isso, mas tipo isso…

O Gabriel, que deve acompanhar o MVG faz uns 3 anos e é carioca, vem pra São Paulo hoje. Vive ainda a fase da ferveção e dos hormônios gritando e deve curtir “muitas e boas por aqui” nesse final de semana. Vai reunir um grupo de amigos num lugar bacana na Augusta, lugar que frequento bastante, e vou me encontrar com eles. E assim começa a minha sexta pós trabalho, considerando uma academia antes de tudo. Se vou para a Chilli depois? Bem provável, já que fica por perto. Esse verão de outono tem sido apropriado para isso. Para conversas ao vento com amigos em lugares divertidos e diversão em receptáculos escuros (rs).

Na sexta passada encontrei uma amiga lésbica, da faculdade, que não via a mais de um ano. Foi ela, sua namorada e um amigo HT que – a bem da verdade e tirando um sarro dele – parecia muito mais gay do que eu! (rs). A paquera anda simples nas noites paulistanas. Com ou sem crise, as gays não deixam de invadir os lugares conhecidos para a prática do ver e ser visto. Das trocas de olhares, dos flertes. Gestos simples que alimentam nosso ego. Eu e eles estamos para fazer uma baladinha. Quem sabe na Lyons no sábado porque a ideia de varar a noite durante a semana não cabe mais na minha agenda. Nem da minha amiga, rs. E essa foi fervida, viu! =O

Será que eu tenho buscado alguma coisa? Good question. Olha, estou tão envolto de canções românticas, letras da velha MPB que são imbatíveis e alguns “rocks sensuais” que posso estar sob influência das mesmas. A serenidade que predomina por dentro, diferente do frenesi emocional, tende a me impulsionar para encontros com mais laços. Mas quem serão eles, quando no momento do encontro o acumulado da vida pincelo somente aquilo que me enriquece? Estaria eu, um japa, gay, com 39 anos arrogante ou prepotente? Seria arrogância ou prepotência se tais posturas enrustissem fraquezas e inseguranças. Sei que não tem sido o caso, nessa fase em que busco ser o mais medíocre possível, aquele que tem preferido certo anonimato, longe dos holofotes e da atenção tão evidentes quando estamos na rua.

Tenho, curiosamente, preferido estar com as amigas sapas que naturalmente tiram de frente jogos de ego, desejo subentendido ou imposição de valores. Coisas assim. E comentava a duas delas ontem, num jantarzinho, que diferente das lésbicas, o homem gay (assim como o homem hétero) tem uma tremenda dificuldade de expor intimidade e sentimentalidades. Das poucas vezes que fazemos durante a vida (e depois que levamos bota) parece que nos estilhaçamos e – muitas vezes – levamos anos para juntar os cacos, superar os traumas. Aceitar a rejeição daquele que nos foi garantia de porto seguro; que foi idealizado. Responsabilidade do ego do homem, esse maldito e bendito, que tem uma natureza competitiva, que compra a cultura heteronormativa mesmo descendo até o chão na hora da pista, que aceita com grande dificuldade a elaboração das próprias emoções.

Falava a elas que, mulheres gays, no exercício frequente de DR’s, estão basicamente e em doses homeopáticas buscando entender umas as outras no que tange emoções, percepções de mundo e etc. Já o homem, atrelado ao físico, prioriza a matéria para que somente depois, exponha de maneira verídica suas intimidades. E quando o fazem, parecem precisar de uma certeza absoluta de que o outro não fará pouco jus daquela entrega. Caixote do jeito de ser homem. Transponível? Claro… para quem quiser.

Consciente, tenho superado disso dentro de mim. Quantas vezes não pedi ao Rafa para que não entrássemos em certas competitividades para não ter que definir o “macho alpha” da relação? O princípio básico e que a maioria reluta ou tenta desviar é que são dois homens se relacionando. O que fazer com isso? Tem muita coisa a se fazer com isso…

Bem, queridos leitores, desejo a vocês um final de semana do tamanho do desejo. Façam, definitivamente, o que tem vontade. :)

5 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Eu tenho acompanhado este blog há algum tempo, nem sempre regularmente, porque tem um época que fica chato rsrs.

    Tenho comentado bastante nos últimos tempos, e achei interessante a maneira como fala sobre você mesmo “Devaneios de um gay…”, não sei se estou certo ou errado, mas tenho a impressão de que vc sempre se refere a vc mesmo como “um gay”, isso eu notei algumas vezes, parece que só falta dizer “um gay qualquer”.

    Pode até ser uma bicho-grilice da minha parte manifestar isso, ou uma porra-loquice mesmo rsrs, mas ao ler esses textos eu sei que estou diante de um ser humano como qualquer outro, acima de tudo cheio de particularidades e idiossincrasias, como qualquer outro também, mas que de uma maneira além do que se poderia imaginar torna-se único, ironicamente como todos nós, ou seja, como qualquer outro.

    Não acompanho este blog por se tratar de um blog gay qualquer, mas porque gosto da maneira como a maioria das coisas são abordadas por aqui (exceto sobre política rsrs), mas enfim. Acompanho este blog, por estar em sintonia ou até mesmo por descobrir e aprender coisas que não sabia, e que talvez soubesse e/ou não entendesse muito bem.

    Eu acompanho este blog, porque aprecio as ideias do Flávio (que é o autor afinal), por perceber que uma boa parcela das coisas aqui escritas refletem um certo nível de realidade, ou seja é verossímil.

    Embora, não conheça pessoalmente quem escreve as coisas por aqui, conheço as suas ideias, os seus ideais através do que escreve, e vejo algo diferente, realmente especial, ainda mais nestes tempos onde o que impera é a fluidez e a frivolidade. Agradeço por dividir conosco a sua humanidade, Flávio, agradeço mesmo.

    Acho o nome do blog interessante, Minha Vida Gay, porque já faz tempo que deixou de ser só isso, ou seja, já faz tempo que atravessou a ideia do rótulo, do constructo sócio-cultural, e adentrou na esfera particular, pessoal, está mais para “Minha Vida” (sua e não minha rs), do que Gay de fato.

    Poderia dizer que se tornou o diário virtual de alguém, alguém que como vc mesmo diz, ou melhor, faz questão de frisar, além de gay é um ser humano, e como ser humano é único, sempre Flávio.

    Sexta-feira é o título do texto, hoje é domingo, dia decisivo para um país latino subdesenvolvido como qualquer outro (embora se negue isso o tempo inteiro por aqui), estamos começando mais uma vez. A sorte todos os dias está sendo lançada, que seja boa conosco.

  2. André disse:

    Comentário (acima) bacana do Pedro. De fato, o MVG ultrapassou sua própria definição há um bom tempo.
    Mas mudando de assunto, com meus trinta aninhos recentes (rs, olá skincare routine) e apesar das poucas experiências amorosas (gente eu era muito ruim nisso, mas acreditem, não há mal que dure pra sempre kk); uma coisa que ainda não consigo entender é porque os caras com quem me relacionei (na verdade, os homens de um modo geral), tem tanta dificuldade em expor seus sentimentos…
    E pra mim, isso é um martírio, já que eu sendo uma exceção (rs), não sei exatamente o que o cara pensa, ou pretende. Gente, não se trata de ter DR’s, mas expor minimamente, com franqueza, o que se sente em determinadas ocasiões, não faz mal a ninguém. Flávio, você bem que poderia escrever mais sobre isso. :)

    1. minhavidagay disse:

      Sobre gays que tem dificuldade de expor sentimentos?

  3. André disse:

    Sim. Isso mesmo Flávio! Você no final desse post até deu uma pincelada, mas se em outra oportunidade fosse possível você discutir mais sobre esse assunto, seria muito bom. Porque, percebo um padrão desse tipo de comportamento nos homens gays com quem me relacionei. Tá, nem foram tantos assim rs. Também posso estar enganado, mas seria muita ‘sorte’ haha.

    1. minhavidagay disse:

      Beleza… Faz total sentido. Escreverei sobre isso! ;)

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.