No men’s land

Aprendendo com a sombra

Alguns amigos vieram me questionar o sentido do meu “chavão” particular parefraseado de Leandro Karnal: “não existem bons representantes para um povo ruim e vice-versa”.

O sentido, que a mim parece ser direto e óbvio, não brilha dessa maneira para todos. Incrivelmente, as pessoas que contribuem nas minhas redes sociais, na maioria das vezes, são bem educadas e trazem reflexões bem substanciosas. Achei válido trazer uma análise por aqui, sobre esse tema.

Que as governanças têm sido desastrosas, independentemente dos motivos partidários de cada um, ninguém duvida. Outros adjetivos podem ser tecidos e oferecidos ao Bolsonaro, como “belzebu”, “Hitler brasileiro”, “Bolsolixo”, outros. Assim como, a época, existiam para a Dilma: “anta”, “jumenta”, etc. Para Lula, “chefe de quadrilha”, “Luladrão” e etc.

Essa banalização de termos, facilmente colhida do caldo da polarização, é de rápida identificação.

Estivemos bem nos últimos anos! Pena que os adjetivos sempre foram meio fracos.

Em simetria, no momento em que o próprio povo deve assumir a parcela de responsabilidade, por sermos todos filhos de um mesmo berço cultural (o que me inclui) a gente esquiva na maioria das vezes. O processo é lento, cármico e, dependendo do caso, insolúvel. Porque é nitidamente mais confortável e cômodo transpormos os defeitos, as maldades, a ignorância e as limitações em terceiros. E, assim, em um efeito de procrastinação, corrigir os próprios em nós passa a ser um fenômeno tardio.

Enquanto eu era o Minha Vida Gay focado em centenas de casos, namoros, casamentos e relações homoafetivas e ouvia os relatos de términos, o “bandido” de toda história era, em 80% dos casos narrados, o outro, aquele que não estava se correspondendo comigo.

A época, eu já trazia de outra maneira a mesma essência da frase do Karnal: “o bem e o mal de um relacionamento é igualmente de responsabilidade dos envolvidos. Não existem bandidos e mocinhos na maioria das histórias, embora sempre a gente queira vitimizar” alguns absorviam mais, outros menos.

Há fatos e manifestos nítidos em pleno furor de “novo mundo” que retratam / refletem / espelham o mal de nossos representantes em nossa sociedade, nem sempre relacionados à corrupção, mas a confusões, inabilidades, falta de vontade, procrastinação, displicência, falta de visão, entre outras características que nos circundam. Compilei alguns para embasar o conteúdo de hoje:

  • a Caixa Econômica Federal em parceria com a SEBRAE abriu uma carteira de crédito para os microempreendedores com juros e prazos bem amistosos. Muitos dos empreendedores já são correntistas da Caixa o que, teoricamente, agiliza o processo. Das milhões de empresas que entraram em contato com os gestores de financiamento, 60% das solicitações não foram aprovadas por algum tipo de incongruência nas documentações;
  • desses milhões, muitos ainda não estão cientes das práticas governamentais de ajuda, como a MP que permite, temporariamente, a redução de salário de funcionários proporcional a carga horária reduzida ou suspensão, igualmente temporária;
  • sobre a “Renda Básica”, hackers criaram aplicativos alternativos para confundir a população. Hackers, ainda, estavam até há uma semana em ataques maciços a determinados sites e no WhatsApp, para furto de dados essenciais;
  • milhões de brasileiros com carteira assinada se inscreveram no programa “Rendá Básica”, destinado exclusivamente a informais, autônomos e determinados MEI’s, retardando consideravelmente o processo de repasses dos 600,00 a quem realmente se destina;
  • pessoas reclamando do valor, a exemplo da colega do meu Facebook, autônoma, que postou a insatisfação como comentário em um post de um amigo em comum e eu não me contive para questionar: “olha, se você não está precisando desse dinheiro, acha pouco, então porque você não doa?”;
  • a própria realidade cultural, nitidamente expressa em solo paulistano, de menos de 50% das pessoas cumprirem o isolamento social (sendo ideal os 70%), mediante a tantos comunicados governamentais, científicos na linha Átila Iamarino, OMS e as próprias pessoas em isolamento;
  • não poderia deixar de apontar também para meus congêneres colegas empresários liberais, em sua maioria, entrando no odiento “fla-flu”, temerosos com as próprias empresas, relutantes a aceitar a lógica e a racionalidade da ciência, largamente disseminada pela OMS, governantes (locais e mundiais) e cientistas;
  • e para equilibrar, a ala radical da esquerda, que se atém a sua maioria à estética, viajando na maionese intergalática da ditadura militar, mesmo o presidente tomando uma coça da própria classe e do Supremo.

O Poupatempo, ao meu ver (nem sei na real agora quem criou; pelo tempo, provavelmente alguém da centro-esquerda do PSDB), é uma ótima iniciativa popular que, se não me falha as contas, tem mais de 20 anos. É um projeto que ajudou a desburocratizar inúmeros processos, principalmente aqueles voltados a viabilizar diversas documentações.

Lembro da última vez que fui, há uns 10 anos e sempre muito curioso, questionei a atendente sobre quais eram os casos mais comuns. Ela foi rápida na resposta: “olha, 90% dos casos aqui são de perda de RG, CPF, carteira de motorista…” – não esqueço essa colocação; no papel de administrador, logo pensei que – apesar do Poupatempo ser um estabelecimento facilitador, bem distribuído nas principais regiões aqui da capital paulistana – era ao mesmo tempo um desperdício de dinheiro para servir de “muleta” para sustentar a displicência de nossa cultura.

Continuei com a questão: “sério? E as pessoas perdem muito desses documentos?”.

Ixi, filho… tem gente aqui que já veio renovar mais de 10 vezes o RG”.

(…)

Ainda, como alguém de ideologia progressista, penso que nem precisava citar aqui a imensa parcela de brasileiros (conservadores) que somente agora, forçadamente pelo poder autoritário de um vírus (esse sim é o ditador da vez!), pagam as contas por bankline, ante o tempo despendido em caixas e lotéricas há um mês, gerando custos a tais instituições.

Enfim, penso que nem precisaria citar também as nossas pequenas “malandragens”, como a senhora que comprou 20 sacos de arroz em tempos de greve dos caminhoneiros, fura-fila, carros estacionados em duas vagas, compra de filmes piratas, cracks de plataformas de videogame, outros.

Para encerrar, mas sem deixar de abandonar o chavão, enquanto a turma da polarização chacota ou se entristece com a possível saída de Moro, o símbolo e a fantasia construída por trás da estética, eu trouxe mais uma análise “fria” que pode arrepiar o leitor em tempos de COVID-19. Mas eu realmente sinto que o momento pede para o “duro” contato com a realidade, para quem estiver disposto (tenho avisado antes):

“Vejam só que interessante: Moro pede demissão após Bolsonaro sinalizar a troca da direção da polícia federal. O atual diretor é “civil”, ou seja, escolhido a dedo pelo ministro por ser um técnico conhecedor da área, a segurança.

Enquanto a maioria da oposição e favoráveis – população – está olhando para o Impeachment do presidente, rito mais “claro possível” a partir das incitações de “AI-5” e “fechamento do Congresso”, elementos para protocolos de impedimento, Bolsonaro há alguns dias silenciou na mídia, depois de tomar um “cala boca” do próprio Supremo e da própria classe militar.

A partir de conselhos de alguns “padrinhos”, ele saiu com pastinhas debaixo do braço para correr atrás de mudanças que deem a ele mais atuação perante ao Congresso, este que atualmente se colocou de muralha.

A estratégia então é começar um troca-troca de alguns poderes para favorecer a tal “governabilidade”, sistematicamente utilizada a época do Lulopetismo, quando coligações PT/PMDB, ideologicamente improváveis, se tornaram possíveis e, sim, sistêmicas.

Sistemas que, inclusive, acredito ter gerado o efeito reverso no contexto de Dilma.

Bolsonaro está agora tentando conversar com o Moro para convencê-lo a não sair.

Por um lado, um dos discursos que ajudou a eleger o Bolsonaro foi de não aparelhar os poderes, como os ministérios, a partir de trocas de favores partidários e políticos. Por isso, optou por um Mandetta que é um técnico da área, “civil” e não político.

Por outro, emparedado como Bolsonaro está, cozinhando a possibilidade de um dos 18 pedidos de Impeachment e emplacar, depois de toda balbúrdia expressa pelo próprio presidente (nada mais além dele), tudo indica que ele vai apelar, de novo, para a velha política da “governabilidade”. De parcerias ideológicas improváveis por troca de favores e flexibilidade, principalmente no Congresso.

Moro em si, talvez, esteja seguindo apenas a linearidade de conduta acordada para — inclusive — ter topado o ministério (vou dizer assim ao invés de ética, para que alguns não pensem que eu sou fã do ex-juiz), preservando o acordo estabelecido de manter a direção na mão de gente que entende, que é isenta da politicagem e que não abriria supostas concessões de investigação para privilegiar (ou coibir, menos provável) algum político pertencente ao Parlamento, como moeda de troca para algum voto no Congresso.

A mim, é por aí que a coisa se desenvolve. Bolsonaro precisa enfraquecer as forças contrárias na Câmara para também dificultar, por exemplo, a aprovação de um suposto rito de Impeachment, MPs e etc.

No mais, cês já sabem: muita emoção e fé no contra-contra dos inocentes”.

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