Sometimes when you loose you win

Se dependermos exclusivamente dos economistas, da confusão na escolha dos ministros e da responsabilidade que ficou evidente – de que o Brasil terá que apertar as finanças – o ano de 2015 será de empobrecimento. Para alguns, tal cenário vem como uma carga do que chamam de pessimismo. Para outros, trata-se de uma realidade lógica e óbvia, sobre as mais diversas equações macroeconômicas. Para mim, vai além dessa dualidade.

O plano de viagem de férias da virada de ano caiu como uma luva. Idealizei o passeio entre Chicago, Las Vegas e San Francisco desde julho de 2014 com meu namorado. Nada mais apropriado do que viver 12 dias de novas referências, paz e desligamento nas terras do tio Sam, bem distante de minhas rotinas tupiniquins, para se fazer garantir uma excelente viagem, com a incrível companhia do Meu Japinha.

Nesse ano, caso tal cenário negativo realmente se esparrame pelo Brasil, me sinto preparado. Em outras palavras, poderei viver as angústias e os apertos que quase todo cidadão vivenciará se tais projeções administrativas se realizarem.

Minha bateria está merecidamente renovada.

Ainda sobre esse ponto de vista cartesiano, li a notícia na semana passada de que a Nintendo, marca famosa de videogame e detentor do eterno Mario, encerrou suas atividades no Brasil devido a impostos e custos que tornam insustentável a sua existência por aqui. Outras “denúncias” desse clima de encolhimento, são os preços no supermercado, em padarias e restaurantes: bastou virar o ano e tudo aumentou. Sai do Brasil pagando X na bandeja de iogurte e voltei pagando X + Y. Como dono de empresa e “dona de casa”, prestar atenção nessas nuances é quase que involuntário, nuances essas que invariavelmente estão atreladas ao tal mau agouro de economistas e investidores. Na hora que peguei a bandeja de iorgute, o que parecia pessimismo se mostrou mais real…

Mas existe um outro lado nesse contexto que não digo que nem é místico ou fantasioso: a lógica das equações administrativas é apenas uma parte desse todo que faz girar a vida, os empregos e tudo mais que garante um dinheiro para dentro do bolso. Existe algo de fé, coisa que exerci pessoalmente e profissionalmente no ano de 2008, quando a crise mundial avançou sobre a realidade da maioria dos brasileiros.

Boa parte dos leitores eram crianças ou muito jovens há sete anos atrás e quem precisou bancar tal onda foram seus pais. Hoje, parte de vocês estão ingressando na vida profissional e saberão o que é crise, caso venha. E administrar uma instabilidade macroeconômica está diretamente relacionado ao voto que cada um de nós concedeu (pela razão ou pelo coração, definindo o candidato de maneira racional ou o tratando como ídolo de futebol). Agora será a hora da verdade, ato e efeito.

Mas voltando ao ano de 2008, se dependesse apenas das previsões apocalípticas dos economistas, minha empresa teria falido. É certo que naquele ano (quando antes estava num crescimento constante), tive que vender meu carro e ainda pedir emprestado um dinheiro para meu irmão, funcionário público.

Quando você é dono do seu próprio nariz, nesse nível de autonomia e não tem papai (detentor de um dinheiro extra) para tapar os buracos da sua crise existencial, é natural o termo “maturidade” se revelar as duras penas (como, de fato, costuma ser). Naquele contexto entre 2008 e 2009, apesar de estar vivendo um momento altamente fervido, da autoafirmação da própria homossexualidade, da necessidade intensa de conviver com outros gays, de luxúrias, putarias e deslumbramentos, ao adentrar as portas da minha empresa eu, definitivamente, tinha que esquecer da minha sexualidade e dos anseios que dela vinham. Quem sobreviveu ou fracassou naquela fase, amadureceu de qualquer jeito. A diferença é que o efeito traumático, na pele, ressoou particularmente para cada um.

Se for analisar racionalmente, debruçado em planilhas, discursos e documentos, minha empresa não teria sobrevivido. E mais: naquele mesmo contexto, segurava as pontas da minha segunda empreitada, a produtora de áudio, que na época estava apenas começando.

Mais “animador” ainda foi o dia em que dei um pulo na minha faculdade e meus antigos orientadores chegaram assim, direto e reto: “ah, sua empresa está pelo menos pagando as contas? Se está assim, considere-se muito bem. Vi umas 10 empresas de ex-alunos, do tamanho da sua que fecharam nesse período”. Animador, ou melhor, realista.

O que a gente precisa, no começo, é realmente da objetividade, do palpável: capital, pessoas, infraestrutura, produtos ou serviços, parceiros e clientes. Precisamos, simplesmente, trabalhar. Suar a camisa. Mas, na hora que começa a curva , tais elementos não se sustentam, vide o Eike Batista que, se dependesse só desses itens continuaria bilionário.

A gente precisa sim de fé e sorte (para mim ambos são recursos divinos). Não digo dessa fé que coloca Deus trazendo ou fazendo pra gente. Digo sobre a fé de uma força incrível, da resiliência, do poder que Deus nos dá para erguer pedras muito maiores do que nos imaginamos capazes. Ao longo de minha vida descobri que isso existe.

Existe não somente no âmbito profissional. É algo 365 graus. É algo para reverberar na relação homossexualidade VS. contexto familiar VS. sociedade, caso desejemos nos tornar gays resolvidos, ou melhor, pessoas resolvidas e mais felizes. Quando o buraco é fundo e a gente consegue sair, não tem jeito: nos apropriamos da experiência e da maturidade que vem no pacote.

Adultecer não é um processo cheio de pétalas macias, colchão king size e lençóis de mil fios. Mas quando nos propomos a crescer, as vezes, nos privilegiamos com esses confortos.

Não penso que esse ano será fácil, mas não será péssimo. Se a coisa apertar com grana, com a família, com o namorado ou com o trabalho, é a oportunidade que temos para sermos mais do que somos hoje. O sentimento de recuo as vezes é necessário para seguir em frente.

“Sometimes when you loose you win”. Aprenda.

1 comentário Adicione o seu

  1. André disse:

    Perfeito!

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