Minha melhor amiga é evangélica

O que mais além do óbvio?

Assisti recentemente um seriado da(o) Netflix – muito provavelmente fora do contexto de gênero, número e grau da maioria (e por isso mais ainda fora do lugar comum) – que reúne no mesmo receptáculo (tipo BBB) hetéros, um gay, um trans, threesome e – todos – se normatizam entre si sem você notar bandeiras.

“Outra Vida” (Other Life), para quem dá o “play” de imediato, está muito mais para Star Trek [esse sim, outro que reuniu no mesmo metro cúbico, americanos, russos, negros, vulcanos e etc., nos anos 60 e 70] do que para qualquer filme emblemático da comunidade LGBTQIA+ que é óbvio desde a imagem de divulgação.

O seriado começa com atuações ruins, mas – por incrível que pareça – a perfomance vai melhorando no decorrer dos episódios e vai se notando que, além da pegada inspirada claramente em Jornada nas Estrelas, é um seriado que coloca com (extrema) naturalidade o convívio em um espaço (relativamente) apertado de uma tripulação sui generis.

Essas pequenas surpresas, relacionadas à temática LGBTQIA+, tem sido mais prazerosas para mim nos últimos anos, por me apresentarem algo fora do senso comum, da obviedade e de toda dramaticidade (gourmetizada), tera-explorada e banalizada, quando o assunto envolve parte de nossa realidade.

Inicio esse post com essa recomendação, com um leve tom de desabafo, mediante um universo de Netflix que, convenhamos, é uma agulha no palheiro. Mediante também a uma produção mundial que, quando a temática é LGBTQIA+, sempre precisa ter um sofrimento, um amor não correspondido, um coito interrompido por uma dos pares ser heterossexual, ou aquele humor queer trivial.

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Fora da minha zona de conforto, fora do meu lugar comum

Os iniciantes de MVG ou até mesmo os passantes mais antigos afeitos a esquerda, devem estar um pouco horrorizados (ou minimamente inconformados) mediante meus últimos textos. É bom deixar claro que nenhum dos últimos posts oferece elogios ao atual presidente, tampouco coloca os “gays de direita” como entidades superioras. Aqui, no Minha Vida Gay, essencialmente, todo mundo é igual para, enfim, tentarmos absorver as diferenças.

A partir dessa essência, o exercício (se é que hoje existe um) é mostrar que “não é porque eu sou gay” que eu não posso ser cristalizado em um box de padrões, preconceitos e julgamentos. Pelo contrário, como igualmente citei nos últimos, o esforço (se é que existe isso também) é fazer a gente pensar um pouco mais fora das nossas próprias caixinhas.

Relações sociais

Nessa toada, eu posso dizer que minhas relações sociais hoje são mínimas. Convivo com meu namorado, com meus pais, irmão (bem as vezes), um amigo (hétero) que vejo de 15 em 15 dias, a família do meu namorado (de passar algum tempo no papo pelo menos uma vez por mês) e só. Porém, nessa mesma frequência, tenho contato com uma amiga, heterossexual, da minha idade, mãe de um filho e cujo marido é líder (não sei exatamente qual cargo) de uma rede de livrarias no Nordeste, focada em livros evangélicos.

Isso mesmo: livros evangélicos. Ele e minha amiga são crentes.

O marido não conheço, mas foi por aquela rede social de karaokê – o Smule – que eu conheci essa amiga. Pela distância, é claro, não há como ter o tête-a-tête que tanto aprecio, se é para me relacionar. Mas na média de duas vezes por ano que ela vem para São Paulo, faço questão de estar presente, para almoçarmos juntos ou ficar de conversa no hall do hotel que ela costuma se hospedar.

O que eu quero dizer com isso é que, com uma boa indepedência dos esteriótipos – uma independência intelectual dessa maneira de encaixotar pessoas – seja para eu (gay) ou para ela (evangélica), é notório o amor (afeto, carinho, cumplicidade, maneira de entender política e as relações humanas) que existe entre nós. Declarado e expresso por outros amigos do mesmo grupo.

Gays ou evangélicos podem ser limitados e, eu, como alguém (bem) educado, me coloco como um dos principais críticos – por aqui – das limitações e enquadros que – nós – gays, nos autoconcedemos. O “sujo” do outro lado, como já citei por aí, não cabe a minha consciência de educação julgar. Tenho que levar alguma coisa (se é que tenho) a minha “família”.

E é talvez por isso – e pensando do lado dela também – que a gente se conectou assim, diferente. A química só viria se, de certo, a gente não exaltasse o comportamento óbvio. Taxá-la de crente (daquela maneira pejorativa que tantos já pronunciaram: “tinha que ser crente”) ou eu de “viado”, seria o básico dessa polarização aculturada.

O fato é que nosso contato (há uns 2 anos e meio) se estabeleceu a partir de outras correntezas e marés. De novo, talvez, por termos transcendido – cada um de seus caixotes repletos de máximas, julgamentos e impressões absolutas – conseguimos atingir a cumplicidade que se manifesta no abraço, na troca de olhar e sorrisos, nas mensagens e nas linguagens que nos sacramentam afins. Todo mundo vê e sabe. É declarado e, quiçá, invejado [incenso aceso todos os dias].

Minha melhor amiga é evangélica

“Minha melhor amiga é evangélica”. Quase isso, se eu fosse o gay do “tipo” que teria uma melhor-amiga-hétero. Outro clássico.

[E calma lá que isso não é uma crítica nem as amigas dos melhores amigos gays, nem vice-versa. É apenas a contastação de um tipo de lugar comum. Se “comum” te ofende, eu sinto muito!]

Foi sem querer, orgânico e espontâneo e nem por isso não serve de exemplo de fuga do senso comum. Uma grande amiga e só não é a melhor porque eu, definitivamente, não tenho disso.

Padrões e mesmice residem no mesmo bojo. Zona de conforto é isso: as alegrias e os mesmos problemas de sempre. Bom se fosse somente de alegrias, não é mesmo? O desejo da felicidade sem fim é igual para todo mundo.

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Oi, MVG

    Vida louca, vida, essa nossa nos debatendo entre natureza e cultura; originalidade e rótulos; tentando viver num tempo cada vez mais acelerado pela quantidade de tarefas, de responsabilidades, informações e desinformações.

    Acho que administrar todos esses fatores é o que fazemos na vida, dosar cada realidade e seguir em frente, uma coisa que tem ajudado a organizar as emoções tem sido um curso de teatro que comecei esse ano apesar de minha timidez crônica pois ajuda a administrar melhor esse sentimento, não elimina como eu pensava antes mas auxilia a lidar com esse sentimento opressivo.

    Acredito também que devemos alimentar a amizade, o companheirismo, coleguismo com as pessoas, tentar construir relacionamentos positivos. Por esses dias meu colega de apartamento está partindo depois de quase cinco anos de convivência e isso tem me feito refletir sobre a amizade, a partida, a solidão. Penso que não devemos nos afastar de alguém pelo fato de ser de tal ou qual time, partido ou igreja, a empatia deve ser o valor para amizades.

    Abraços

  2. minhavidagay disse:

    Oi LeBeadle! Desculpe a demora para comentar. A vida está muito corrida. A lealdade deve ser o valor para amizades, na minha opinião. Se faz sentido mantê-la.

    Abraço!

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