Sozinho

Um leitor antigo do MVG, que virou amigo do Facebook e do WhatsApp por morar em Fortaleza, veio hoje com uma pergunta interessante e que já pairou sobre meus pensamentos e emoções anteriormente. Talvez tal tema nem faça parte apenas da realidade de um gay, mas do heterossexual também, pois trata-se de um assunto que reside na camada cultural e/ou humana.

É estranho fazer algumas coisas sozinho. Almoçar, ir ao cinema, entrar numa balada. Já parou para pensar que uma maioria tem certa resistência ou insegurança para esse tipo de coisa?

Eu tinha muito disso quando era mais jovem. Mas posso afirmar que as mudanças começaram a partir do meu trabalho: dono de empresa aos 23 anos, cuidando da área comercial e não era raro os momentos de almoço, entre uma reunião e outra em lugares diferentes de São Paulo que eu precisava fazer uma parada para o almoço, sozinho, e continuar a jornada. No começo era bem esquisito. Aquela velha e boa sensação de que, na solidão, todo mundo iria reparar com aquela precipitação de julgamento: “olha só que esquisito, o japonês está almoçando sozinho”. Engraçado que a insegurança/medo de fazer coisas sozinho normalmente está relacionado à possibilidade de julgamento do outro!

Será que pessoas sozinhas são mal vistas? Como se fossem isoladas ou estranhas? Olha, vou afirmar que em nossa cultura de apego, numa necessidade viciosa de somar seguidores e curtidas nas redes sociais (principalmente nessa moda que bate agora no Instagram), estar sozinho em lugares públicos se opõe a exatamente essa hiper-necessidade de estar-coletivo.

Quando estamos “de galera” parece que podemos ser descontraídos. A interação com um ou mais é a liga para chamar atenção, falar, dar risadas, gesticular. E sozinho, como faz?

Sozinho é “eu comigo mesmo”. Será que a gente banca? Quando se é jovem é difícil.

Depois que aprendi a almoçar sozinho, tal hábito é tão corriqueiro e, sim, prazeroso que não deixo de fazer algumas vezes durante minhas semanas. É um momento de estar comigo mesmo, mesmo que eu esteja com o celular ligado. Me possibilita aquele tempo de pensar em mim, nas situações e casos que se passaram ou simplesmente não pensar em nada. É aquele tempo para trocar uma ideia com o chapeiro da padoca, ou com a dona do restaurante, ou com o garçom. A gente acaba criando certa proximidade com pessoas que, quando a gente está de galera, a gente afugenta ou se blinda. Porque é isso mesmo: quando somos jovens e curtimos sair de galera, aquela turminha é blindada. É seletiva, crítica e só garante a extroversão se for no coletivo que, as vezes, abre para um desconhecido.

Pode até ser uma dupla de amigos, já funciona. E não tem juízo de valor aqui não.

Depois eu aprendi a ir ao cinema sozinho. Para mim foi a fase dois de dificuldade.

E por fim, e talvez mais “desafiador”, foi entrar numa balada gay sozinho. O CR, leitor do Blog, perguntou exatamente sobre balada/night: o que você faz quando vai numa balada sozinho?

– Ué, fico circulando como se estivesse em galera, paro num canto, pego uma bebida, vou até a área de fumantes para dar um trago, volto, entro na pista, paquero e quando rola eu troco uma ideia. As vezes ir para balada sozinho vai muito bem para quem quer caçar.

– Ah, mas eu não curto ir para balada para caçar.

– Ué, mas nem sempre você vai na balada sozinho para caçar. É só não caçar.

– :/

Depois disso a gente se emancipa nessa coisa de ir a lugares públicos sozinho. Tipo na sauna, algumas pessoas vão com a gaylera, mas a grande maioria entra sozinho.

Estar sozinho em todas essas circunstâncias, em nosso imaginário, normalmente tem uma conotação de pobreza, tristeza, solidão. É que, de fato, culturalmente falando, a gente aprende que “solidão é algo negativo”.

Mas até essa ideia, para falar a verdade, a gente rompe quando se permite tornar adulto, emocionalmente emancipado.

Podem crer. A gente aprende a se bancar em muitos níveis.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

14 comentários Adicione o seu

  1. Ro Fers disse:

    Uma cia faz toda diferença, amizades realmente não tem preço, mas já passei meus momentos solitários, em que tive que ir para uma balada sozinho, aliás fui duas vezes sozinho, que de fato fiz boas amizades lá dentro, inclusive a segunda vez foi com uma turminha alto astral em que mantemos contato até hoje.
    Ás vezes, ir sózinho em tais locais, pode ser a chance de novas amizades.

  2. sa0n disse:

    Se pra ele que mora em São Paulo já é chato imagina pra quem mora no interior. Eu por exemplo não tenho muitas condições de ir em lugares e ambientes onde me sinta tranquilo com minha sexualidade. Nas cidades grandes ninguém se preocupa com isso, ou seja, vc consegue até desabafar com qualquer pessoa que vc encontre, já nas cidades pequenas a tensão sempre nos domina, quer seja por medo de que a pessoa possa ser um preconceituoso disfarçado nos ouvindo e dando atenção apenas para usar isso contra nós posteriormente ou talvez pq a pessoa realmente gostou do nosso papo e vai manter aquilo entre nós. Segredos são sempre complicados de serem revelados quando se trata de uma cidade pequena, se ao menos ouvissem baladas talvez poderia ser mais tranquilo, bastaria ir em na balada gay que a cidade toda já saberia que vc é gay.

    Eu moro no interior do Paraná. Pra me libertar mesmo só indo pra Curitiba, lá eu fico tranquilo quanto ao comportamento das pessoas. Ando sozinho tranquilamente por lá, as pessoas me tratam normal, consigo conversar normalmente até sobre sexualidade sem medo de ser julgado ou sofrer algum tipo de violência. A única coisa que me pega é o fato de estar longe dessa realidade no meu cotidiano. Minha expectativa é um dia morar em Curitiba pra poder ser “livre” dos pensamentos preconceituosos das cidades interioranas.

    Tenho a sorte de poder de vez em quando viajar e conhecer pessoas diferentes. Mas sempre viajo sozinho, claro que adoraria uma companhia, mas acho difícil encontrar alguém com perfil que eu busco. Acabo por aceitar a solidão como uma companhia agradável e tentar deixar amigos por onde passo. Viajar é uma terapia com a qual não posso mais viver sem, a sensação de felicidade, prazer e liberdade que encontramos nas viagens fazem com que a nossa vida fique mais colorida.

    Aos que tb estão no armário não deixem de viajar, mesmo que sozinhos. A experiência sempre será positiva. Precisamos sair da rotina pra ver que existe vida fora do armário. Come on and enjoy it ;)

    1. Anonimo disse:

      Sa0n, qual perfil você busca?

      1. sa0n disse:

        Procuro alguém que me aceite como sou. Sou tímido, não sou baladeiro, sou tranquilo, não me acho lindo (mas tb não me acho feio), não sou totalmente assumido (mas já contei pra minha mãe e ela me aceita). O que a maioria busca hj em dia é alguém para mostrar de troféu, que seja lindo, “bem resolvido”, que goste de sair pra beber sempre (eu tb gosto de uma cervejinha de vez em quando, mas nada comparado ao que eu vejo por aí), que seja viciado em sexo. Não é meu perfil. Outras qualidades acabam ficando em segundo plano, eu já acabo buscando alguém que seja parecido comigo, a chance de dar errado seria muito menor.

      2. Anonimo disse:

        Quero seu contato verdadeiro!

      3. Anonimo disse:

        Concordo contigo, quando escreve sobre os “troféus” e o excesso na busca de sexo e bebida alcoólica.
        Fico feliz em saber da receptividade da sua mãe ao revelar sua sexualidade, principalmente em locais, infelizmente, ainda marcado pelo machismo. Moro em Curitiba, e tive a oportunidade de conhecer outras realidades. Sim, ela é uma capital aberta às questões LGBT, mas necessita de avanços como qualquer cidade.

        Quanto ao parceiro, namorado, amigo colorido e outras denominações, eu procuro alguém que apresente afeto e empatia. Não me considero bonito nem feio, ou seja, possuo qualidades e defeitos.

      4. sa0n disse:

        Mande-me um e-mail para bdmm@r7.com … Assim podemos conversar melhor em particular :)

      5. sa0n disse:

        Mande me um e-mail para bdmm@r7.com para conversamos melhor

      6. ANONIMO disse:

        SA0N,
        Como você está?

  3. Rafael F. disse:

    Acho normal sair hoje atualmente, antes achava estranho e ficava me martirizando pelo fato de ser só, sem amigos para que juntos pudéssemos compartilhar tais experiências juntos. Eu vou ao cinema toda vez só raro a vez que vou acompanho e cara eu estou tão acostumado a ir só que quando vou acompanhado sinto uma estranheza. Já tive a oportunidade de ir a um boate só é foi uma experiência muito agradável lá pode conhecer pessoas bacanas, bater um papo e até ficar com um cara bastante gente boa. Numa próxima penso em ir só novamente para um boate. Eu costumo dizer para mim que a solidão já é algo que adotei para a vida e que a presença de alguém não irá implicar na minha felicidade que o encontro de alguém para viver a dois poderá ou não , mas mesmo assim eu serei feliz de todo modo sem a dependência de alguém para ser feliz.

  4. Roberto disse:

    Olha Rafael F. me identifiquei com suas palavras. Parece que estou falando de mim mesmo. Abc.

  5. Andre Luiz disse:

    Depois de um tepo sem entrar aqui e quando volto, vejo ess seu texto. Simplesmente adorei…falou bonito e falou tudo…foi uma aula de terapia..obrigado mais uma vez Flavio! >)

  6. André Jayme disse:

    Temos que a aprender a ser feliz com a nossa solidao, gostar de estar em nossa propria cia, antes de querer estar com alguem. eu amo minha cia…e osto de estar com pessoas agradaveis e mais bem resolvidas, pessoas q pegm em seu pé, sao pessoas inseguras que esto atras de amoletos….ja conheci alguem assim..e confesso q foi uma experienci horrivel!

  7. Sandro Bonassa disse:

    Sempre fui de fazer meus passeios sozinhos, quando jovem fazia com maior facilidade.
    Adolescente passeios de bike.
    Começo da vida adulta minhas primeiras baladas, na época ainda HT.
    Quando tinha motocicleta, total liberdade, viagens solitárias em cima da minha 800 cc estradeira.
    Depois minha fase surf, na maioria das vezes sozinhos.
    Na verdade não tenho grande problemas em fazer meus passeios sozinhos, cimena sempre gostei de ir só, escolher o melhor horário, dia e filme, sem precisar pedir opinião para niguem.
    Shopping sozinho é o máximo, olhar as lojas e fazer comprar sem pressa.
    Praia ficar despreocupado, balada é show muitas vezes foi sozinho, as vezes para caçar outras apenas para ouvir música.
    Almoçar sozinho faço isso todos os dias, apesar de trabalhar em equipe, prefiro almoçar só, assim fico livre de fofocas corporativas.
    Parques de diversão, sozinho é a melhor coisa do mundo, vou no brinquedo que eu quiser e quando eu achar que já deu, simplesmente pego o carro e tchau.
    Meu ápice da independência, rs, foi depois de marcar várias vezes um boliche e os amigos desmarcarem, fiu sozinho fechei uma pista por uma hora e joguei até o braço ficar sem forças.
    Adoroooo dormir sozinho, rolar na cama a vontade, quando namorava todos os finais de semana dormia junto, no primeiro dia uma delícia no segunda um saco, rs…. Queria meu espaço.
    Foi namorando que comecei a ficar um tiozão bobo, afinal depois de anos fazendo praticamente tudo sozinho, aos 35 comecei meu mais longe caso de namoro, frequência de encontro, tudo planejado para fazer juntos e assim foi por mais de dois anos.
    Quando acabou puta barra voltar a fazer tudo sozinho, tinha perdido um pouco o jeito, felizmente um lobo solitário mesmo domesticado não perder seus instintos de independência, rapidamente voltei um pouco ao meu ritmo, no entanto agora me permito a fazer passeios com a minha família , algo que era um completo estranho para eles.
    Do meu namoro aprendi que é possível fazer algumas coisas em companhia de pessoas, hoje eu encontro meu ex pelo menos uma vez por mês, ele foi morar fora do Brasil, volta uma vez por mês por três dias, fazemos um repeteco, vontade de continuar temos só não estamos compatíveis no momento e sabendo que não cabe um namoro nessas condições porém amizade colorida rola super bem , vamos mantendo assim, desta forma se um dia ficar juntos novamente beleza , caso contrário acredito que boa amizade teremos por toda vida.

    Ou seja para mim a grande dificuldade e aprender a dividir meu tempos com alguém, esperar a pessoa se arrumar, escolher filme juntos para assitir…. Sozinho é tudo tal mais fácil que seja ser viciante.

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