Suka

Você que é gay, saberia dizer o tipo de relacionamento que procura? Se é que procura?

Ciente de que um amigo heterossexual está terminando um relacionamento de oito anos e com essa minha natureza de ouvinte, “conselheiro” e Coaching que antecede há anos a função, ele chegou com um discurso:

– Hoje vou em uma festinha de aniversário do filho de uns amigos – logo pensei: “Ele quase não sai e nesta fase de término, na qual as coisas estão meio incertas, me parece alguma provocação a namorada-esposa”.

– Ah, legal. Bom distrair a cabeça neste momento.

No dia seguinte, veio sua primeira manifestação instantes depois ao nosso encontro, no impulso:

– Eu estava lá na festa e a “dita” mandou mensagem perguntando onde eu estava.

– Sei. E aí?

– E aí que ficou toda chiliquenta por eu estar na festa. Já fui falando, “ó, fica na sua aí”.

Imediatamente me veio uma sensação de preguiça, embora ele esperasse um “é isso aí! Você tá certo!”. Tenho esse camarada como amigo há mais de 10 anos. Ele, igualmente, fará 40 anos no final do ano.

Com luvas de pelica, ou não, mas com a liberdade que a intimidade de décadas nos confere, lancei:

– Querido, você percebe como essa situação é infantilizada? Você, depois que começou a namorar, cortou bastante seus vínculos sociais. “De repente”, neste contexto de final de relação – com as turbulências conhecidas – você sai, provoca direta ou indiretamente uma situação com ela, em um momento em que ambos vivem a natural insegurança do fim e ainda faz a linha “fica na sua porque é só uma festa de aniversário”. Percebe? Você tem 40 anos e nesse jogo, que sempre foi de vocês dois, não tem alguém com mais razão.

Acontece que estes pequenos joguetes amorosos, com certo teor de medir se ainda resta algo, talvez, permeiem (consciente ou inconscientemente) o cotidiano de muitas pessoas, sejam gays ou heterossexuais. Talvez, somente o tempo e um punhado de experiência farão as dificuldades de um relacionamento amoroso transcender tais hábitos que, na prática e na frequência, costumam apontar para o desgaste.

Finais são sempre difíceis, por mais superficial que tenha sido a relação. As vezes leva-se um ano (ou mais) para se criar intersecções e intimidade com a pessoa que se está. E, “de repente”, (na verdade, raramente é de repente assim) precisamos resolver um término da maneira mais equilibrada. É difícil. Alguns gays, ainda, assumem a ideia/crença de que o sentido de rejeição e negativa está mais presente em nossas vidas pelo contexto de refração social à homossexualidade. O que já é difícil, talvez, fique um pouco mais. Para quem bota fé nesta ideia.

Mas aí, “de repente”, passada a fase de luto que acontece de formas diferentes de pessoa para pessoa e dura tempos distintos, surge novamente uma fagulha que nos põe aberto para um relacionamento. Como seres sociais, temos uma natureza de querer estabelecer a afetividade que não seja somente com familiares e amigos. A cultura imbuída na sociedade também nos pressiona ou estimula.

Daí que para alguns, essa “fagulha” fluirá com mais naturalidade. Para outros, alguns pontos de autossabotagem ou autodefesa se estabelecerão numa ideia do tipo “estou bem sozinho. Será que quero entrar num problema?”.

As ações e reações do início dos relacionamentos determinam a qualidade da relação?

Talvez. Partindo do pressuposto que um indivíduo é um “mundo inteiro” e cada relação se estabelece de maneira íntima, específica e particular e, ainda, ter com mais clareza o que se quer em um relacionamento, o princípio pode justificar os meios e, adiante, o pontecial fim (que pode ser junto ou separado). Enxergar o outro como é e não como se idealiza ou idealizou é interessante, principalmente quando os sentidos do que se espera de um relacionamento estão mais estabelecidos. Ninguém deve ser culpado daquilo que você quis mas não sabia direito o que era.

A vida – diga-se experiência – vai nos ensinando a conduzir as relações para um sentido sereno e tranquilo. E não se trata de racionalidade mas de equilíbrio emocional. Meu bom amigo referenciado neste post, algumas vezes colocado sob o aspecto da negação/rejeição, seja pessoal ou profissional, “pipoca”, excedendo um pouco com suas emoções. Com determinados sentimentos aflorados, se torna mais influenciável, tem a necessidade de autoafirmar mais seus sentidos para o exterior, dá mais poder para “as coisas de fora” em relação as intenções particulares, passa a acreditar em algumas fantasias, sente-se acuado e manifesta (igualmente) a humanidade que nos faz. Humanos que, por vezes, saímos do eixo.

As vezes, o clamor pela empatia e amor do outro é a falta de amor próprio. E as redes sociais, hoje em dia, são pratos vazios para se encher dessa necessidade.

Assim, a pergunta que fica é: “quais os sentidos de um relacionamento em sua vida?” E note, é do relacionamento e não da outra pessoa.

Talvez, obtendo as respostas para essa questão, o mar não seja de rosas mas a travessia seja mais confiante, seja onde – no final – aportar.


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Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

3 comentários Adicione o seu

  1. Fred disse:

    Esse post me lembrou meus dois términos.. por mais q saia do tema, às vezes eu ainda me pego pensando: “Como podemos ficar com alguém, por um bom tempo, amar, ser confidente, e depois simplesmente acabar.” Eu procuro entender o sentido de tudo.. me perco as vezes! Mas estou aprendendo.
    Realmente, cada pessoa lida com o fim de diferentes formas… adoro suas postagens!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Fred! As vezes é bom buscar sentidos, as vezes é melhor só sentir… aos poucos vamos aprendendo!

      Obrigado pela gentileza!

      Um abraço,
      Flávio

  2. Lucas disse:

    Super interessante! Amando o blog

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