Tempo aberto

Lucidez costuma vir com o tempo. Hoje passei um período com a minha mãe, em idas e vindas ao médico para que ela pudesse fazer exames em tempo. Travei minha agenda de trabalho e a conduzi para onde fosse necessário.

Ela está com 70 anos e nesse auge, tem uma habilidade física de 50. Recentemente fomos para o Rio conhecer sua neta, minha sobrinha, recém nascida e, em passeio pelo Posto 9 de Ipanema, fiquei de guarda das nossas coisas enquanto ela se banhava no mar que não estava calmo. Tomou uns dois caldos bem dados, levantava, olhava para mim e dava risada enquanto arrumava seu maiô. Eu também me divertia enquanto, de longe, mentalizava a possibilidade de chegar um dia aos 70 com aquela vitalidade.

Hoje, no carro, ela começou a falar sobre um assunto que muito tem rondado meus pensamentos, talvez numa telepatia natural de mãe e filho:

– É, estou há mais de 40 anos casado com seu pai. Naquele tempo, quando eu era jovem, a ideia de que as pessoas eram duas metades que se completavam era o normal. Hoje está diferente, está melhor… as pessoas têm aprendido mais a serem inteiras, buscam por isso e ficam cada vez menos com as outras por questões de dependência emocional ou apego.

– Ah, sim, mãe. Essas referências culturais de “duas metades”, apesar das pessoas entenderem ou idealizarem assim ainda hoje, já não é mais uma exclusividade. Você está com o pai há tanto tempo. É uma conveniência?

– Olha, Flá… a gente se acomodou assim. Acho difícil fazer diferente porque estamos envelhecidos. Mas estamos acomodados.

– Pois é mãe… as pessoas ainda, muitas vezes, acabam se juntando por terem medo da solidão, da velhice ou até mesmo da morte. Ter alguém parece dar um certo conforto para lidar com a solidão, velhice e morte. Mas eu não gostaria de estar com alguém porque, lá no fundo, temo por essas coisas.

– E não tem mesmo. O mundo está tão diferente, as pessoas se mantêm fortes na velhice e com tantas novas possibilidades. Não acho bom estar com alguém por causa dessas coisas ou pelo comodismo.

– Pois é mãe… você tomou essa consciência hoje aos 70 anos. E eu que com 38 já tenho esses pensamentos? Ando numa fase reflexiva, de ver como eu gostaria de me relacionar da próxima vez. Depois que eu terminei com o Beto e antes mesmo de namorar o Japinha, eu já partia para novas tentativas de modelos. Ando meio cansado da coisa meio “certinha”. Para muitos gays, bem ou mal, se sentir incluso no universo hétero, da família, irmãos e parentes do namorado acaba sendo um lance de autoafirmação, coisa que o hétero não passa. Foi assim comigo pelo menos. Além de todos prazeres e dores de um relacionamento longo e afetivo, ter a aprovação da parentada toda dos ex, família, tradição e machismo, filho que se assumia enquanto namorávamos… era um tipo de conquista por eu ser gay.

– É Flá… você parece bem reflexivo mesmo. Mas te conhecendo, sei que você não gosta de ficar muito tempo em padrões.

– Sim, como meu amigo disse esses dias, a maioria das pessoas têm o centro de segurança em rotinas. Eu tenho o centro de segurança na mudança. Veja o pai, tão apegado a modelos, rotinas, condutas, valores… sua caixinha está cada vez menor, está ficando cada vez mais ranzinza e fechado. Já imaginou se ele soubesse um pouco só das minhas aventuras e desventuras? O pai não banca nada que saia dos modelos que ele entende como seguro e certo.

– Ah sim… seu pai surtaria. O mundo na cabeça dele tem que funcionar do jeito que ele acredita. Se sair um pouco, ele rapidamente desqualifica ou surta mesmo, critica, repudia, morre de insegurança e desconforto. Sofre, coitado… sofre à toa justamente porque qualquer coisa que seja diferente do que ele acredita é meio assustador. O mundo que ele acredita é ultrapassado, antigo… não funciona mais hoje em dia.

– Pois é mãe… acontece que, quando a gente diz “não funciona mais hoje em dia”, é para sempre. Porque o mundo, há cada período, sei lá, de cinco anos, dez ou vinte anos está mudando. E eu tenho uma vontade imensa de absorver essas mudanças sem me estagnar. Eu gosto disso. Você acha que é possível criar vínculos com pessoas sem se apegar?

– Ah sim… você pode construir vínculos e respeitar as individualidades. Ninguém hoje aguenta muito uma pessoa em cima de você, te sufocando.

– É mãe… mas você tem aguentado o pai há anos! (rs)

– (Risos) Eu não aguento mais não! Se ele fica muito em cima eu dou um chispa!

– Pois é… é nesse modelinho que eu também não quero mais entrar. Tudo isso e mais um pouco do que você vive com o pai até hoje eu vivi nesses doze anos de relacionamentos “quadradinhos”, esperados pelos outros, “super héteros”. Lembra do marido?

– Ô se lembro… foi emocionalmente intenso, não?

– Nem me fala… cresci muito naqueles quase três anos. E juntando aquelas vivências, com a experiência dos outros namorados, tem muita coisa do “esquema família margarina” que é chata pra burro. A gente começa a comprar os problemas da sogra, da irmã que não gosta da prima, da tia avó que dá problema… mãe, na nossa família a gente nunca teve dessas coisas. Minha educação foi diferente da grande maioria das famílias que conheci. O único que é cheio de “mimimi” e melindroso, que gosta de ficar falando da vida dos terceiros e quartos, que ressuscita questões de 1920 para criar intrigras é o pai (rs). E a gente levou décadas para deixar ele no canto dele pra não ficar nos atazanando com seus caprichos, com suas manhas e manias. Se nem em nossa família a gente lida com essas frescuras, imagine numa família que nem é minha?! Cansa demais…

– Ô se cansa, filho… mas vai levando. Tenho certeza que você vai construir novos rumos aí.

– Ah sim… o importante é não ter expectativas. Veja só: você está aí passando por um momento de tratamentos. A minha empresa está cheia de buchas porque estamos com muito trabalho e, ainda por cima, funcionários faltam. E a Pinna (minha cachorra) chegou aos 11 anos e está o pó da rabiola. Hoje vou levá-la no médico também. Imagine se eu fosse muito apegado a essas partes da minha vida?! Estaria em depressão agora! Eu aprendi a bancar minhas coisas sem ficar com “mimimi” em cima dos outros. Não quero um namorado para ser meu consolo.

– Eu entendo… foi essa educação que eu te dei, ao passo que seu pai queria construir algo de dependência. Você fez suas escolhas.

– Pois é… enquanto isso, é muita camisinha usada (rs).

– (Gargalhadas) Filho, você não tem jeito! Camisinha sempre mesmo! Não vai descuidar!

– Tá bom… não precisa entrar no papel de mãe agora (gargalhadas).

3 comentários Adicione o seu

  1. Flávio!
    A cada post tenho mais vontade de conhecê-lo, tomar um café no Athenas, curtir uma balada.. situações diferentes não?! Indecisão?! Não mesmo! Apenas para introduzir e dizer que de certa forma a minha segurança também está nas mudanças e não nas rotinas, essas me desanimam, me sinto bem nas aventuras e mesmo com certo receio no desconhecido.
    Para sertirmos bem, é preciso atualizarmos a mente, os pensamentos, os valores e a forma de encarar os desafios, acredito que assim conseguimos até certo ponto absorver as mudanças do mundo sem nos estagnarmos.
    Disse que não quer estar com alguém por acomodação ou medo da solidão por exemplo, mas a idéia remete que ainda assim pretende estar com alguém. De forma normativa ou não, também quero alguém, talvéz ainda dentro da caixinha de casar e etc, mas que também não sejam por estes motivos, mas pelo amor ou seja lá o que for que me permita ainda sim ser livre, afinal o nosso mundo muda quando nós mudamos e da vida levamos o que vivemos.

    Obs. Seus posts eu concordando ou não, me fazem sair da caixinha, me aventurar nos pensamentos e a permissão de comentar independente de ser exibido ou não fundamenta a ideia do blog de que nem tudo é totalmente certo em sua plenitude. Como disse espero poder conhecê-lo em breve e um até logo ou até o próximo post (afinal estou meio atrasado na leitura).

    1. minhavidagay disse:

      Oi Jonathan,
      tudo bem?

      Podemos sim marcar um dia. Será legal conhecer mais um possível integrante do MVG. :)

      Me escreva no queroumtoque@gmail.com para combinarmos, ok?

      Um abraço,
      Flávio

  2. Tudo bem sim Flávio!
    E contigo?!

    E-mail enviado e viva o novo, vivam as mudanças.

    Outro abraço,
    Jonathan

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