Tempos como esses

Um gay bicudo dá sugestões para o cenário político e econômico atual: pense em prevenção

Ultrapassando um pouco as questões gays (algo que tenho feito bastante nas últimas publicações), como dono de empresa é inevitável um interesse sobre economia e política. Em linhas gerais, esses temas abordam fundamentos definitivos para criar estratégias e planos quando se tem um negócio. Eu por exemplo, esse ano iria transferir a minha empresa para outra sede e contrataria um assistente para vendas. Mas como a economia “virou”, tais investimentos ficaram para depois. Algo bastante frustrante para falar a verdade, mas nada muito diferente do que eu já passei em outros momentos.

Como o Blog MVG impacta uma parcela de pessoas que já se sustenta (pessoas que não dependem mais de pais ou, inclusive, ajudam a pagar as contas da casa), resolvi trazer aqui algumas reflexões sobre a economia do Brasil em 2016. Não me aprofundarei demais em questões técnicas, já que estou bem longe de ser um especialista (ou enrolador – rs) mas trago aqui algumas impressões de economistas: um cliente, meu irmão e um amigo que trabalha na área financeira e lida diretamente com assuntos econômicos.

Pela primeira vez na história do Brasil (e acreditem, é isso mesmo), fica muito difícil prever o futuro econômico para 2016. Em outras palavras, é muito mais difícil e incerto definir ações, estratégias e projetos. Enquanto a camada política ficar nesse embate, Impeachment, não Impeachment, tira ou não o Cunha, pega ou não o Lula, etc. a palavra da ordem é INCERTEZA. Tal palavra, em um contexto econômico que faz todas as cadeias definirem seus investimentos (incluindo o próprio governo), gera uma abrangente influência, no sentido das pessoas (de diversas cadeias de produção) não quererem arriscar.

Fazendo uma intersecção entre os pontos de vista dessas três pessoas, meu cliente que é ex-diretor de um dos maiores bancos nacionais do país, do meio irmão que é economista e do meu amigo que trabalha na área financeira, a previsão é de que o ano de 2016 será semelhante ao que o Brasil tem passado em 2015, para um pouco pior. O dólar parece mais estável nas últimas semanas, mas não será improvável que suba. A pressão no Lava Jato está ultrapassando a ostensiva corrupção relacionada exclusivamente a um partido (no caso o PT) e está despindo o próprio modelo político nacional, que envolve empresas privadas como construtoras e empresários, como banqueiros. A chance da operação chegar ao BNDS e, assim, trazer à tona os possíveis desfeitos de Luiz Inácio Lula da Silva (ou amigos muito próximos dele) está se aproximando. E é bem provável que a revelação inegável de determinados corruptos diminuirá ainda mais a credibilidade do país, afastando investidores, tirando nosso crédito, colaborando com o aumento da inflação e culminando na desvalorização de nossa moeda.

O grande ponto em comum dessas três pessoas é que o Brasil não vai retomar seu ritmo o ano que vem. Talvez, lentamente, a partir do segundo semestre. Assim, melhorar não vai, manter-se nesse estado tem uma grande chance e piorar não é impossível.

Por isso, meus amigos, como ação preventiva eu sugeriria duas:

  1. Busquem garantir ao máximo seus empregos. Apesar de “dar mais suor” nesse contexto me pareça oportunista, do tipo “vou garantir o bote salva-vidas antes que o barco afunde”, é interessante valorizar ao máximo seus respectivos trabalhos;
  2. Se ainda não começaram a guardar dinheiro, façam. Se já estão, garantam um pouco mais de reserva. Em um cenário nebuloso e inédito com o que estamos vivendo hoje, talvez o brasileiro esteja aprendendo, também pela primeira vez, a se prevenir. Quem não o fizer, achando que todas essas linhas tem teor (ainda) partidário ou porque se sentem ainda otimistas, muito bem. Nos vemos daqui três meses.

Por fim, não poderia deixar de apresentar as minhas impressões, de microempresário há 15 anos, que passou por algumas crises (algumas econômicas, outras pela minha má conduta mesmo), que nasceu em 1977, conheceu o Brasil da inflação e que tem de cor os últimos presidentes antes da ditadura militar e todos depois que o país restabeleceu a democracia: o papo supera questões partidárias agora. Nunca esse país colocou na jaula um ex-primeiro ministro da Casa Civil, políticos de “baixo escalão”, empreiteiros, banqueiro e senador. Tudo isso é muito bom por um lado pois é a chance (e digo chance e não certeza) de iniciarmos uma reforma profunda, nem que seja de maneira bruta. Por outro, qualquer grande cacique que for preso chegará, cedo ou tarde, a delatar a cúpula maior. A reputação de nosso país tende a rolar um abismo e, invariavelmente, vamos escorregar juntos.

Nunca esqueçam que o mundo hoje é globalizado por mais reacionários, contra ou xiitas que sejamos em relação ao modelo. A Internet e todos os portais “alternativos” que estão aqui para alvejar nossos desafetos não deixam de ser alienantes, nos tornando psicóticos. Se o país descer seu nível, todos nós desceremos. Daí podem dizer: “ah, mas os ricos sempre ficarão bem, mesmo nessa situação”. Daí eu respondo: sorte a deles. Num contexto crítico, essas comparações são inúteis. Aliás, quando essas manifestações são realmente úteis?!

Eu sinto que o primeiro semestre de 2016 será igual ou um pouco pior que agora. A minha impressão, faz alguns meses, é de que o olho do furacão virá no primeiro semestre do ano que vem. Confesso que o tema “Impeachment ou não” está agora fora de propósito e a tendência, caso haja a queda da presidente, é de declinar um pouco mais o país (não porque ela é legal, mas porque a nossa imagem se deteriora mais um pouco)…

Será que nós, como eleitores e sociedade desorganizada não merecemos isso? As vezes penso que sim, pois talvez seja a chance de levantarmos de uma maneira mais unida, abrindo mão de nossas “pequenas” corrupções, de nossas diferenças, culturalmente instituídas. Nossa sociedade está feia e fragmentada. Orgulho é algo que não tenho nada neste momento.

Quem sabe o segundo semestre do ano que vem acenda uma luz? É o que acredito, embora tal impressão me pareça otimista.

De qualquer forma, entre um achismo ou outro, poupem. Existem outros pilares importantes, no momento, para refletir além do ponto de sermos gays.

(As vezes trato o fato de eu ser gay como uma questão menor, não é? Mas quem disse que ser gay é uma questão pra mim?)

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Tempos difíceis….

    Trabalho no olho do furação, mercado financeiro recuperação de crédito… MEDO, RS.
    Prestação de serviço para um grande banco, na última reunião junto ao banco ficamos sabendo que um setor inteiro foi fechado, oitenta pessoas no olho da rua!
    Na minha empresa, fechamento de filias de vinte e quatro para doze!
    Promoções suspensas e cortes em cima de cortes, até diretor e advogados de anos de casa foram desligado!
    Projeção é ficar com um quadro enxuto até metade de dezembro, estamos trabalhando com a possibilidade de recuo de 5% para 2016, ou seja no momento estamos trabalhando triplicado porém se cair até 5% niguem perde o emprego.
    Este plano de reestruturação começou em setembro!
    O empresariado já previu um cenário igual ou por para 2016.
    Vivendo essa situação, não fiz dívidas guardei grana , paguei seguro de carro à vista e já tenho grana para IPVA e manutenção do carro tudo pago a vista.
    Porém presentes de Natal e dois jogos de PS4 não vai rolar.
    Feliz é o meu irmão funcionário público desde os dezoito anos, nunca enfrentou fila de desemprego, comprou apartamento, mobililou, eletrodomésticos novos e aproveitou as ofertas para comprar seu novo carro com senhor abatimento, tudo pago à vista.
    Eu na luta dos concursos.. Rs… Um dia chego lá.

  2. Caetano disse:

    Muito bom esse texto, adoro quando escreve dentro desse eixo. Aquele texto do começo do ano – já fazendo a previsão – foi muito importante pra me alertar.

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