Terrace House

Quando sexualidade e gênero são assuntos distintos

Foi na festa no apartamento de minha amiga que a mesma pergunta veio a mim algumas vezes, do namorado de um de meus amigos: “mas na cultura japonesa não tem nenhum indício que mostre intersecções entre cultura de gênero e um comportamento machista?”.

Eu, descendente de japoneses e gay, só tinha uma resposta: “pelo menos, meu pai não me educou com essa cultura de gênero, do ‘homem que joga bola e veste azul’ e se fizer diferente está errado”.

E aquela pergunta ficou ressoando em minha mente, principalmente porque eu não estava satisfeito com a minha própria resposta.

Será que sexualidade e gênero são assuntos separados na cultura japonesa?

Terrace House

Foi aí que logo nos primeiros capítulos do reality show Terrace House, programa japonês topo de audiência – agora – no Brasil pelo Netflix, ficou evidenciado que gênero e sexualidade são assuntos muito mais divididos e separados na cultura japonesa do que na cultura latina-ocidental. Talvez, totalmente separados…

Entendo que o namorado do meu amigo fazia a mesma pergunta algumas vezes pela curiosidade de compreender um contexto da relação “gêneroXsexualidadeXmachismo” que talvez fosse fora do referencial demarcado pela maioria em terra-brasilis.

E cá estou com alguns exemplos práticos:

  • logo no primeiro e segundo episódios de Terrace House Tokyo 2019-2020, tanto da parte dos comentaristas (homens) quanto dos participantes da casa (também homens), eles percebem um rapaz bonito e expressam: “nossa, você é bonito, não é?”, tal qual um comentário corriqueiro qualquer. Isso ocorre na frente de outras pessoas, homens e mulheres, sem nenhum tipo de conotação machista ou sexual. E tal normatividade vai rolando durante todo seriado, a partir da entrada de outros homens bonitos;
  • em um dos episódios de Terrace House Boys & Girls In The City, um dos moradores da casa pergunta para uma recém ingressante qual era o perfil de homem que a atraía. Ela respondeu algo como “não tenho um perfil. Todos meus ex-namorados são diferentes. Já me relacionei com homens mais femininos e homens mais masculinos, altos e baixos, etc.”. De cara, essa abertura, traduz a normatização de homens com expressões mais femininas ou mais masculinas perante o grupo (perante os japoneses no geral?), na mesa de jantar, sem a manifestação de uma conotação sexual ou machista. Sem comentários maldosos, ou, a expressão do machismo.

Machismo do japonês

Eu não tenho dúvida que, em algum lugar, resida o machismo na cultura japonesa (pelo menos, eu preciso acreditar que sim até que eu entenda o contrário). Mas confesso que sou um tanto principiante quanto a minha própria cultura de origem por ter negado, durante todos esses anos, um olhar mais atento aos detalhes da mesma.

A explicação de ser assim já dei em outros posts e, para resumir, fui um daqueles jovens, descendente de japoneses no Brasil e gay, que preferiu criar um muro de inúmeros julgamentos contra a cultura japonesa, para autoafirmar (com todas as forças) a minha identidade brasileira. Rejeição, fruto, sim, das velhas e tradicionais piadas de japoneses, principalmente durante a infância e a adolescência. O tal do bullying de hoje em dia. Eu queria fazer parte da maioria. Ponto.

Hoje, com 42 anos, mesmo ainda engatinhando para uma parte de mim que neguei (meu baú fechado) e que, vigorosamente, estou entrando em contato agora – talvez – pela primeira vez, eu posso assumir o respiro de alívio mediante a falta de argumentos quando fui questionado.

Por longos anos, muitas das características, atitudes e posturas perante familiares, amigos e trabalho, que aparentemente configuravam um jeito particular de eu ser (ego), está se reconfigurando – pelo menos uma parte – e estou entendendo melhor que a minha raiz cultural japonesa pode ser muito mais influente em mim do que eu imaginava.

Identificação, DNA e espiritualidade

Como já sugeri em posts recentes, vem certo sentimento de perplexidade sobre esse conhecimento inédito. Não é nem “re-conhecer”, nem resgate pois é a primeira vez que estou “indo”.

Imaginem que meus pais são brasileiros e eu também sou brasileiro. Nascidos aqui, nesse solo original. Ao mesmo tempo, pelos motivos acima, evitei ao máximo vivenciar os detalhes da cultura japonesa, criando um paredão de julgamentos para me autoafirmar brasileiro.

De repente, com a guarda baixa e os nós de julgamentos desatados, olho para japoneses de 20 a 35 anos, do Japão atual, Tokyo, de um país “que nem sei” e encontro identificações absurdas que vão muito além da culinária, animes ou música, atributos populares muito mais facilmente disseminados pelo mundo.

Como é possível?

Comentando essa forte indentificação com a cultura atual japonesa, com pessoas de 20 a 35 anos, meu pai que sempre foi racional e alheio (bem alheio) a temas mais “esotéricos”, falou para mim que isso era algo de espiritualidade.

Espiritualidade?! Confesso ter perguntado “como assim?”, como se eu não estivesse entendendo ele pronunciar a palavra: es-pi-ri-tu-a-li-da-de.

Acho que foi a primeira vez que o ouvi soltar essa palavra com algum tom positivo, agregador.

Outra perplexidade.

Eu, japonês

Independentemente das respostas, que podem vir ou não em algum momento (crente no valor da máxima de “quem procura, acha” e estou sempre procurando), o contato real com a cultura atual no Japão, tem trazido alguns insights e mais identificação:

  • enquanto no Brasil, a manifestação de atrito entre dois integrantes em um realty show como o BBB, sequenciado de “times” formados de lá e de cá (lembra a polarização política ou é mera impressão?) e, por recorrência, o aumento da audiência já que o povo gosta da pimenta no caldeirão, em Terrace House, quando um dos integrantes manifesta picuinhas, fofocas ou intento de criar intrigas ou times, ele é naturalmente excluído pelos demais integrantes;
  • assumir um namoro não exige um contato diário, trocas de mensagens periódicas e declarações constantes. O pilar que conduz a vida da maioria dos japoneses (pelo menos da maioria das pessoas participantes da casa – e até agora eu vi dezenas!) não é um relacionamento afetivo e todo emaranhado de dramas, traumas e êxtases e alegrias contidos em relações, mas sim, o trabalho. Em muitos casos por aqui (e é algo que tenho que ter muita paciência por ser dono de uma empresa) é que quando um brasileiro não está bem com o namoro ou com os pais, por exemplo, o rendimento no trabalho cai expressivamente. A pessoa fica avoada, se perde nos afazeres básicos. Ao passo que, no momento em que o trabalho é o pilar com mais holofote, é o contrário: o indivíduo depende de um bem-estar e estabilidade profissionais para estar melhor consigo. E, sim, diretamente falando, relações afetivas ficam como uma segunda importância;
  • japoneses apresentam argumentos francos e diretos, na maioria das situações e diálogos. É raro notar em Terrace House subtextos ou subentendidos. Até mesmo depois que as pessoas brigam (e brigam, como qualquer ser humano) as partes visam chegar em acordos de limites e harmonia entre si e em respeito aos demais participantes da casa, como acontece em Terrace House. Assim, é mais difícil de acumular sentimentos de remorso, vingança, orgulho, culpa ou arrependimento; ou da relação se manter naquele estado de jogo, competição ou provocações;
  • a cultura do “ganbatte”, do esforço para atingir objetivos dos mais diversos aspectos da vida, desde a mudança na qualidade de um relacionamento, até o alcance de objetivos profissionais, é uma característica que comentei em posts anteriores, algo que conduz a vida do japonês no cotidiano e é um atributo cultural que, assumo, é bastante acentuado em mim. Se é para eu cozinhar, é para cozinhar bem. Se é para eu manter a minha empresa, é para me esforçar para essa manutenção. Se é para eu ter um Blog como o Minha Vida Gay é para fazer jus ao conceito. Se é para eu lidar com plantas, é para eu me aprofundar e saber cuidar com esmero. Se é para eu mudar minha alimentação e manter exercícios físicos, farei. E assim por diante. Fazer as coisas pela metade, a mim, dá sempre uma sensação de morrer na praia. Logo, eu acho que muita gente adora morrer na praia no Brasil (RISOS);
  • embora seja muito complexo e difícil fazer diferente no país, tento levar a noção dos limites de respeito entre o que é público e privado. No geral, quando um brasilero liga suas caixas bluetooth na praia em alto volume, ou quando atravessa a estrada fora da passarela, ou quando fura fila, joga sujeira na rua, ou depreda um Museu em pleno manifesto “black bloc”, o brasileiro mistura o sentido de propriedade do que é público e do que é privado. Em certo episódio em Terrace House, uma das meninas deixa o material de estudos na mesa da sala. Um casal está lá e sente-se incomodado vendo aqueles materiais jogados. Rapidamente, a menina chega, retira os materiais e pede desculpas pois, aquele espaço coletivo não é propriedade de ninguém, mas de todos. Como disse… muito difícil no Brasil.

Um post como esse para quê?

Penso que a polarização política e social declarada nos últimos anos alcançou um ápice de desgaste do brasileiro com o próprio brasileiro. Todo mundo, ou a grande maioria, tem alguém que está azedo e vice-versa por causa da polarização. Se encerrar na bolha não deixa de ser uma exclusão limitante.

Em outras palavras, as pessoas por aqui cansaram-se de si e da pessoa ao lado. E isso não é ficção científica.

A raiz do problema, talvez, esteja no desgaste de nossa própria cultura. Por que não?

Assim, essas colocações por aqui não vem com intenções (pelo menos no caso de hoje) de querer manifestar algum inconformismo ou uma reação negativa ao que a cultura brasileira entrega, no geral e nos tempos atuais. Mas sim, trazer referenciais de outras caixinhas ou gavetas, para – quem sabe – brilhar uma luz com ideias para aqueles que visem mudar alguma coisa em si e em seu entorno.

O melhor de nós, certamente, está por vir. Seja para um brasileiro ou para um japonês.

Mas a diferença é que é um descendente de japonês que está falando e pensa assim. Diferença, pelo menos hoje…

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