Momento

Está virando hábito encontrar o Rafa todas as sextas na Liberdade. Sua faculdade é aqui perto e a preferência pelo mesmo restaurante facilita bem as coisas. O interessante é que eu não canso de vir para o mesmo lugar, cumprimentar os garçons e ser tratado pelo nome. Ele também não. Acho um barato esse lance de ser pelo nome, sugerindo que certa fidelidade entre as partes é uma relação diferenciada.

Dessa vez cheguei bem antes, depois de quatro reuniões no dia: uma na zona norte, uma perto do meu bairro – zona sul de São Paulo – e outras duas na Paulista; dessa vez não deixarei o Rafael esperando, pelo tradicional trânsito que eu pego para chegar até aqui. Como ele brincou, pelo fato de fazê-lo esperar umas duas vezes, “eu mereço”. “Mereço” (rs) e de certa maneira, como eu o respondi, “estamos quites”, embora eu tenha me adiantado por livre e espontânea vontade. :P

Já aguardo por volta de uma hora e resolvi escrever trivialidades no Minha Vida Gay, sem inspiração nenhuma para algo mais reflexivo ou filosófico depois de uma semana pauleira. E pensar que estava fazendo entrevista com uma moça às 19h de uma sexta! Vamos ver o que vai sair…

Daqui, eu e ele vamos para casa. Provavelmente assistiremos um pouco de Naruto, algo de seu repertório e que tem representado um momento de “desligar total” da minha normatividade; transaremos e dormiremos juntos. Amanhã ele volta para a Liberdade para uma aula de sábado. Vou deixá-lo no metrô para depois reencontrá-lo na mesma região. Vamos almoçar por aqui de novo, alimentando nossa coincidente vontade de curtir o mesmo lugar. Muitos poderiam achar isso tedioso e talvez até fique daqui a pouco. Mas por enquanto, nenhuma das partes reclamou.

(Pausa para um cigarro e uma contemplação da rua).

Escrever trivialidades ou profundidades tem um incrível poder terapêutico de me levar para outra dimensão. As vezes, nem parece que sou eu escrevendo e, sim, é como se uma energia fora de mim materializasse as palavras por aqui e mexesse com a relatividade do meu tempo, encurtando-o. De repente, mais de 40 minutos se passaram e uma hora de aguardo foi-se sem eu me dar conta. Acho que fica bastante claro que eu gosto de escrever e, relendo meus primeiros textos no MVG e os de agora, percebo o quanto a prática define.

Finalmente começo a sentir que as mudanças que tem ocorrido na minha vida, deixam de ser de autoria de alguma “entidade” mais forte do que eu e passam a ser controladas novamente por mim. Por certas decisões tomadas ontem e hoje, certas rupturas, vou rearranjar a equipe da minha empresa e trazer novamente um antigo integrante. Foi de novo a minha intuição me movendo, força que andou meio oprimida por circunstâncias que me fizeram apelar mais para a razão nos últimos tempos, racionalizar. Quero de novo intuir. Quero de novo ter a minha segurança para me atirar.

E as pessoas ao meu redor tem estranhado, claro, porque não sou do tipo de compartilhar muito as particularidades dos meus problemas por saber que ninguém poderá resolvê-los a não ser eu mesmo. Mas, inevitavelmente, elas sentem que um ariano espontâneo como eu fica mais rígido, menos expressivo ou divertido. Mais apático ou indiferente. É que as vezes, alguém que sempre aparenta tirar de letra tudo de quase tudo, também entra numa certa deprê e esse é meu jeito.

Mas, curiosamente, não com o Rafa. Apesar de todas as circunstâncias, particulares ou coletivas, com ele eu tenho vivido um aconchego.

Será isso a manifestação do amor? Ou seria a paixão? Fodam-se as nomenclaturas. Mas se tiver que nomear ou definir, prefiro assim: momento.

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