Tudo em menos de um ano

De setembro de 2014 a abril de 2015

Foi nesse período em que eu e o Japinha nos propusemos a viver um relacionamento à distância. Depois de dois meses de formalização do namoro, ele partia para os EUA para iniciar seus estudos. Aprendi que em dois meses iniciais intensos, presentes, com viagens, dele revelar para os pais que era gay e de eu apresentá-lo para a minha mãe, não se criaria laços e vínculos suficientes para bancar o distanciamento. Pelo menos não da minha parte e esse foi um dos grandes aprendizados dessa minha experiência. Inúmeras elocubrações poderiam vir, tal qual “se a gente tivesse namorado mais tempo, presentes fisicamente um ao outro, a distância talvez não seria problema”. “Talvez”, palavra tão incerta e imprecisa como a própria humanidade.

O fato é que a minha relação com o Japinha se estabeleceu exatamente como foi e nenhuma das partes teve um propósito de começar para acabar. Foi em algum nível uma aposta? Possivelmente.

Posso dizer que meu outro ganho com essa experiência, em um patamar psicológico e quiçá espiritual, foi me sentir envolvido por outro japa. Até então, fora um único caso de algumas horas com um mestiço, eu como descendente de orientais me permiti – depois de anos – me relacionar com outro oriental. Existia um certo bloqueio, fruto de autopreconceito, tratado inclusive na terapia. Há poucos anos atrás já vinha elaborando melhor a ideia: “gostaria de superar essa barreira étnica. Por que não me envolver por um outro oriental? Será que essa falta de atração é algo real ou algum bloqueio internalizado?”. E foi assim, entre reflexões conscientes e a naturalidade do acaso que se estabeleceu o meu envolvimento pelo Japinha.

De abril de 2015 ao presente momento

Quem me conhece por aqui ou pessoalmente, sabe que logo que termino uma relação não costumo medir certa autonomia que a vida solteira me confere. Não demorei muito para reinstalar os aplicativos de pegação, conhecer pessoas novas e, ausente de hipocrisia, fazer da minha casa um certo motel. Soma-se o fato de que passei praticamente oito meses de “castidade” devido a relação à distância. Sem beijo, sem abraço, sem sexo. Não tenho problema nenhum em dizer que eu estava “subindo pelas paredes” nos últimos dois meses antes do término. Isso era um fato.

Meu sentimento desde o começo do ano era de que eu estava namorando por um acordo entre cavalheiros e, ao mesmo, parcialmente solteiro pelas circunstâncias. Um estado morno difícil. Antes eu pudesse mudar essas sensações, como se fosse possível virar uma chave e ter o controle. Como se a opinião alheia ou normas regulamentadas pudessem validar algo.

Apesar de um tempo relativamente curto de namoro, a se comparar com os quase 4 anos da relação anterior com o Beto, passei pela mesma natureza do “luto”. Creio que pude me sentir “zerado”, sem lembranças, sem impeditivos para seguir em frente, livre de possíveis traumas, culpas ou ressentimentos, “limpinho”, a partir de junho.

Tenho que confessar que as mudanças repentinas da minha empresa – das saída e entrada de pessoas – situações que me colocaram numa condição de focar uma alta energia a ela, foram definitivas para que o meu senso de responsabilidade viesse com predominância, não sobrando mais tempo para uma farra, uma loucura, sexo, drogas e música eletrônica. Sosseguei.

A vida, seja gay ou não, nos prega dessas peças as vezes. Uma força maior, fora do nosso cômodo controle intervém e nos coloca em situações desafiadoras. Minha própria vida, quem sabe Deus, me tirou de uma zona de conforto planejada por mim e disse assim: “se prepara porque teu desafio será outro, diferente e – possivelmente – ainda maior”.

Cá estou, vivo, superando e me esparramando de maneira diferente na minha própria empresa, na minha própria vida.

Nesse contexto, aquele ser “potente, viril e puto”, com alguns encontros passageiros e furtivos, tomou um escorregão. E ao contrário daqueles que pensam que todos os putos tomam esse tombo porque merecem, pensamento justo de carolas e pudicos (rs), digo que das vezes que resolvi explorar algumas loucuras, talvez essa tenha sido a primeira vez (apenas) que a Vida/Deus resolveu me contrariar, sugerindo que o caminho para esse momento teria que ser obrigatoriamente outro.

Me aquietei pela natureza das circunstâncias. Quieto, resolvi conhecer alguns meninos mais velhos, digo, próximos da minha idade para ver se – assim como o autopreconceito oriental – eu sempre me atrai por pessoas mais novas por algum tipo de bloqueio.

Conheci um rapaz bacana, de 36 anos, que viveu um tempo no Japão com o ex-namorado mas que, infelizmente, carregava ainda muitos “pontinhos” dessa relação. Algo sobre isso me desestimulou. Nos encontramos uma, duas, três vezes, mas não teve uma “liga”.

Conheci outro rapaz, por volta dessa mesma idade, mas logo nos primeiros encontros notei que ele era tão “juvenil” como um adolescente. Se um adolescente já dá trabalho, imagine estar numa relação com um adolescente de quase 40 anos? Bateu sim uma autêntica preguiça.

Conheci um terceiro, com 34 anos e, assim como o primeiro de 36, tinha alguns espinhos (ou farpas) de histórias passadas.

Conheci o Tché antes de todos esses e até mesmo o Vitor. Esses eram novinhos, com vinte e bem poucos anos. Os conheci em um período curto de bastante carência e, entre meus altos e baixos emocionais naqueles instantes, nossas vidas não criaram ligas românticas.

Assim, não tinha que ser ou não foi dessa vez.

Passei esses tempos sozinho, por vezes curtindo a solitude, outras, encarando a solidão. Para completar o pacote, minha cachorra-velhota que durante 11 anos acompanhou as minhas diferentes fases, se foi também, o que foi um choque e muito duro pois eu tive que escolher pelo sacrifício, diferente dos meus dogs que foram antes.

Minha vida nos últimos meses passou por um turbilhão e confesso que ainda não encontrei direito um “norte” nesse novo patamar que me colocaram. Mas encontrei o Tango, meu novo dog que amanhã completa sete meses e que nesse exato momento, depois de insistir em chamar a minha atenção, dorme e ronca no canto do sofá da sala. E encontrei também o Rafa (ou será que ele me encontrou?), menino de 25 anos que tem me proporcionado encontros, conversas, contato de pele, de boca e de intelecto muitos suaves. Rafa me transmite paz e só isso me parece tanto.

Durante muitos anos da minha vida, seja no aspecto afetivo, seja no aspecto profissional, segui por padrões e modelos. Alguns herdados, outros adquiridos e terceiros planejados. Como tenho levado à minha terapia, muitos deles se exauriram, estrada conhecida e batida. Com 38 anos, pasmem, parto por novos trajetos que não deixam claros seus limites, curvas e contornos. Mas me digam se isso não é a própria vida no sentido íntegro, legítimo e consistente dela mesma?

Bom e ruim, feio e bonito, bem e mal, triste e feliz. Tudo em menos de um ano e não me arrependo de nada.

2 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Beleza Flávio.

    Tudo bem com você?

    Saudade dos papos cabeça, rs.

    Brincadeira….. Saudades apenas de você.

  2. lebeadle disse:

    Oi, MVG

    Também ando fazendo uma reflexão dos últimos meses, do último ano. Como se diz, “O homem põe e Deus dispõe”,

    abs

    Le Beadle

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