Vida em quarentena e equilíbrio emocional

Técnicas para passar o tempo em quarentena

Começo esse post “Equilíbrio emocional em quarentena“ com uma ressalva: as referências e sugestões para se manter o equilíbrio e a tranquilidade neste momento de isolamento social, não atinge ou atinge muito pouco os mais de 13 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza que subexistem em meio a precariedade de moradia, infraestrutura e saneamento. Homens, mulheres e crianças que nascem, vivem e morrem numa bolha de sobrevivência, geração após geração, através dos séculos ou milênios.

Tais problemas sistêmicos das grandes sociedades organizadas e civilizações populosas – que a mim estão intimamente conectados à ideia de agrupamento dos homens em sociedade, desde os tempos mais remotos (papo para outro post) – dão contornos as realidades nacionais e formam também a realidade da disparidade entre países durante os 43 anos da minha existência e muito mais. É história de noites sem comida e sono direto na terra batida que meu avô, que hoje teria mais de 100 anos, contava quando eu estava perdendo meus últimos dentes de leite.

Esse texto começa com outras grandezas de realidade, ciente da penúria, pobreza extrema, dos quase 2 bilhões de seres humanos na Terra, sem nunca na sociedade moderna (ou em qualquer outro império ou civilização grandiosos) essa condição tivesse sido diferente.

Never, nunca, niente. A História e o passado não mentem.

A mim, agora, pelo menos não cabe me aprofundar demasiadamente neste contraste, parte da realidade, ciente que equilíbrio emocional, talvez, essas pessoas nunca tiveram, talvez nem saibam o que seja isso e considero uma lástima ter que erguer algum tipo de solfejo político, típico da polarização remanescente, como se esse meu “grito contra alguém” fosse realmente mudar a condição dessas pessoas, no Brasil e no mundo, tal qual um ímpeto heróico / egóico / egoísta / reducionista da minha parte, em um momento tão peculiar de coronavírus / COVID-19 / quarentena.

Meu verbo nunca terá esse poder e meu manifesto anti-polarização sempre me valeu a pena. Feito.

:)

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Dito isso, me sinto minimamente em paz com a minha consciência para trazer referências e ideias aos leitores – munidos com o básico de teto e infraestrutura – para poder contornar as dificuldades, ansiedades, dúvidas e tristezas na vida em quarentena.

Para os leitores que se mantém e se sustentam materialmente e emocionalmente a partir dos progenitores, namorados e maridos, criados ou serviçais, o artigo de hoje serve como referência lúdica, se quiserem.

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Eis um texto adequado para quem se banca, banca terceiros e já assumiu um estilo de vida que tem algum custo para se manter, o padrão que seja.

Chego a minha quinta semana em quarentena com um sentimento de tranquilidade e equilíbrio na maior parte do meu tempo. Como comentei anteriormente, tive uns 3 picos de ansiedade – muito longe de ser crise de ansiedade, algo que nunca tive – e coloquei em prática algumas técnicas, sim, técnicas, para a rotina atual fluir com leveza, daquela que a gente não vê o tempo passar, mas (1) sem desligar totalmente meu radar sobre a realidade de contextos novos a frente ou (2) entrar em um universo de alienação e escapismo total.

Conciliar esses dois aspectos pode ser árduo – e é – mas é o que garantiu meu crescimento intelectual, material e espiritual até agora. Quem quiser seguir mais ou menos assim, deixo aqui algumas referências que eu entendo como pertinentes para o momento.

É possível viver em quarentena e ao mesmo tempo “não sentir o tempo passar”? Pois bem, tenho notado que desde sexta-feira, 10 de abril, venho mantendo esse ritmo. É prazeroso compartilhar, lembrando que aqui no Minha Vida Gay não existem razões absolutas, já que para mim as verdades dos Sapiens são mutáveis. Estamos, inclusive, passando por essa acelerada tranformação de razões agora…

Dicas para viver em equilíbrio em quarentena, em tempos de coronavírus

1 – Reestruture uma rotina: a primeira regra me parece fundamental: criar uma rotina, ordenada e diária. E essa dica não vem somente de mim, mas de intelectuais como Leandro Karnal e Washington Olivetto. Estipule um horário para acordar e dormir todos os dias e mantenha essa regularidade. Saber a hora que começa o seu dia e a hora de ir dormir ajuda a organizar os afazeres, começo e fim, que você vai encaixar em todo período em que estiver acordado.

Preferencialmente, faça as refeições em horários fixos também. Vai ajudar a dar compasso para as frações do seu dia. Você pode flexibilizar mais nos finais de semana, ou seja, forçar para que as atividades, mesmo que restritas ao seu espaço, não sofram tanta influência do contexto externo de coronavírus / COVID-19.

Psicologicamente pode fazer toda diferença. Seu mundo dentro de casa não precisa bagunçar por causa das “reviravoltas” lá de fora. Parece óbvio, não?

2 – Não trabalhe feito um idiota: muitos amigos e até mesmo meu sócio e a equipe da minha empresa, cada qual em seu home office, passaram a trabalhar “loucamente” ou com um desejo enorme por trabalho, com uma voracidade nunca antes vista. Notei amigos que entravam às 10h em seus respectivos serviços presenciais e saíam até mesmo antes das 18h passando a trabalhar 12 ou 14 horas em casa! Precisa desenhar a exaustão que essa inversão radical deve provocar? Que insensatez é essa? Eu estava acostumado a não ter hora para sair, como empresário há 19 anos, mas aprendi a virar a chave há muitos anos antes. Não faz sentido nenhum entrar nessa sistemática neoliberal-fucked no “novo mundo” que está se formando. Se o medo é de perder o emprego, não acho que trabalhar como um “jumento” será determinante no novo cenário que está se formando, para garantir empregos ou o que seja;

3 – Dinamize seu dia, com pequenas atividades e metas diárias: acompanhando a sugestão 2, determine um período de começo, meio e fim para o tempo de trabalho. Que seja das 10h às 18h, com pausas regulares para descanso e refeições. Feito isso, existem dezenas de atividades dentro de casa que você pode realizar, incorporar ou resgatar:

  • determine horas de um dia específico para a leitura de um livro, mas não entre na compulsão de querer terminá-lo para ocupar todo tempo livre. Fracione com outra atividade prazerosa para criar expectativas para voltar a leitura a partir do trecho em que parou (se dê essas boas expectativas palpáveis);
  • jogue videogame ou inicie um seriado, mas sem querer zerar de uma vez. Fracione o tempo para realizar outra atividade prazerosa, para ter – inclusive – o prazer de voltar na parte salva do jogo ou retomar do episódio em que parou;
  • cozinhe ou aprenda a cozinhar: lidar com gastronomia tem um efeito terapêutico incontestável. Nem é necessário me prolongar demais a respeito desse tema. Penso que, até aqueles que não cozinham, conseguem imaginar os benefícios (ou não);
  • numa linha “personal organizer”, pense no amor e afeto que é possível construir ao limpar sua pia, sua privada, seu fogão, a mesa da sua sala. A beleza da limpeza e organização que vai emanar foi promovida por você e, como um bom descendente de orientais que sou, a minha casa tem vida. Um ambiente sujo e bagunçado é reflexo de meu interior;
  • desenhe, pinte, escreva. Bote para fora por meio dessas expressões seus sentimentos atuais. Essas práticas faziam bem A.C. e farão bem D.C. e para todo sempre. Se preferir, crie engenhocas mesmo que não tenham nenhuma função prática;
  • quem tem um animal de estimação sabe o prazer que é. Trato, cuidado, troca e interação;
  • sobre plantas tenho sido suspeito para falar. A diferença delas em relação aos pets, em um contexto cravado de quarententa e COVID-19, é que a relação processual com as plantas nos ensina muito sobre paciência e resiliência, um dia após o outro. Curiosamente, são os sentimentos que estão (e estarão) sendo mais exigidos dos seres humanos de hoje em diante. A gente esquece que plantas são seres tão vivos como nós, Sapiens, mas que se desenvolvem em uma dimensão de tempo bem diferente dos seres humanos;
  • exercite-se. Agora, não só por estética, mas para aumentar a resistência e a imunidade. Existem milhares de dicas no YouTube e em outras redes sociais para práticas simples feitas em casa. Mas eu sei que, se você não treinava com regularidade A.C., vai ficar mais difícil D.C.; sejamos realistas;
  • dê espaço para sua/seu companheira(o) e não projete suas tensões, frustrações e medos nela/nele. Muitos casais brasileiros constróem relacionamentos com base em valores competitivos, certas disputas de “razões e emoções” (ah, que clássico!) e uma necessidade compulsiva para desabafos. Estamos em um momento intenso, talvez determinante, no qual aprender a delimitar espaços e respeito a indivialidade no mesmo metro quadrado podem garantir casamentos ou determinar separações;

Para reforçar, todas as atividades citadas e outras funcionam melhor se fracionadas durante o dia ou durante a semana. Um pouco para não enjoar, para dinamizar e para que fluam com mais leveza.

4 – praticar os “olhos de camaleão”: o camaleão é aquele bicho peculiar: cada olho aponta para um sentido diferente conseguindo processar, internalizar e conviver com os dois planos observados.

Os grandes motivos de nossa ansiedade (esse “mal do século”), aflição e melancolia em tempos de quarentena / coronavírus / crise global é a incerteza do amanhã: será que vou perder o emprego?; será que os preços vão aumentar?; será que mais pessoas vão passar fome?; será que vai aumentar a insegurança geral com assaltos, arrombamentos ou sequestros?; será que alguém próximo a mim vai adoecer?; será que eu vou morrer?; e assim por diante.

Minha educação e cultura, minha escolha em ser empresário há 19 anos, me ensinaram a não temer a realidade e, irremediavelmente, o mundo de hoje – real – vai tomando contornos potencialmente depressivos, de recessão e, enfim, de um palpável retrocesso em diversos aspectos que circundam e circundarão as nossas vidas, da maioria. Olhar para essa realidade, nua e crua, exige da gente uma (certa) sobriedade, calma e lucidez que – arrisco a dizer – a cultura latina-cordial-brasileira tem grandes dificuldades em exprimir devido ao próprio “DNA passional”. Tenho descoberto que as pessoas funcionam com os nervos, nem com o cérebro, nem com o coração. Com os nervos. Ninguém vai lidar bem com o “novo mundo” assim. Nervos não trazem sobriedade e calma.

Embora eu seja descendente de japoneses e desde o berço meus avós e meus pais me ensinaram a olhar a realidade sem temer, sem escapismos ou fugas fantasiosas (mimos, a bem da verdade), também sou brasileiro. Também tenho cromossomos nacionais impregnados em meu DNA; parte da minha dupla-hélice é verde e amarela embora não fique trazendo isso por aqui a todo momento.

Assim, nesse mix, entendo como fundamental em qualquer momento da vida, seja agora, ontem ou amanhã, a prática do “olho do camaleão”: um deles mais atento as reais tendências do amanhã, aprendendo – inclusive – a livrar-se das impurezas, desvios de atenção e politicagens baratas, como a da polarização social que turvam a realidade com egoísmos; as impurezas de nossos medos que aumentam o tamanho dos monstros; a cegueira de nossos achismos emocionais-dependentes-da-necessidade-do-pertencimento que não nos bota a buscar os assuntos e temas com uma mínima profundidade reflexiva imparcial, autocrítica descolada e sóbria. Independente.

Esse olho bem ajustado no amanhã nos garantirá uma segurança maior para os próximos passos necessários, reais, ao invés de sermos apenas bóias na correnteza fazendo cópias do que um amontoado esteja fazendo, normalmente reclamando das circunstâncias. Vítimas do “inimigo meu”.

Esse olho bem afinado no amanhã pode nos ensinar um pouco mais da cultura preventiva, saber antecipar.

Esse olho bem apontado para o amanhã nos confere um sentimento de autoconfiança e independência.

Mas se desafinado nos gera o terror, a fobia. O nosso cérebro se reservar a apenas o que esse olho avista pode ser enlouquecedor, principalmente em uma realidade de catástrofe global. A mente do Sapiens é dotada de uma grande dádiva que é o poder de fantasiar, algo que – inclusive bem diz Yuval Noah Harari – nos diferencia dos outros seres. Mas essa mesma dávida pode se tornar nosso pior inimigo quando não estamos emocionalmente equilibrados. “Bem e mal no mesmo lugar”. É você, basicamente, enlouquecendo a partir das fantasias que passam a virar realidade em sua mente.

Pare já. Quem pode por freios é você.

Por isso, o outro olho do camaleão – este sim – deve manter o foco fixo no aqui e agora, no dia após o outro. Então, um dos olhos vai dar uns rolês nas notícias e tendências, em projeções concretas, estatísticas, ciência.

Vai lá fantasiar um pouco sobre o amanhã sim, mas volta. Volta para o presente momento, esse exato instante, onde o outro olho se mantém fixo. No caso, agora, no texto do MVG.

Essa quarta dica é “louca”, parece difícil e talvez seja necessário reler mais de uma vez. São metáforas para ser mais didático. Todavia, é com o desenvolvimento dela que conseguiremos compreender a quinta referência logo abaixo.

Se você internalizar até aqui e conseguir colocar em prática pelo menos até a terceira ideia, já é um bom começo.

5 – ativar o “terceiro olho”: esta quinta referência é filosófica e não necessariamente prática. Se você queria dicas mais objetivas, é melhor parar por aqui porque a partir daqui, vai ficar mais abstrato (embora eu pratique).

A psicologia mais atual traduz um estado importante para alcançar nossa autonomia intelectual, emocional (e incluo espiritual) em uma frase: “aprender a conviver consigo e bastar-se”. Essa talvez seja a real resolução do famigerado “amor próprio” que anda em falta, o que eu chamo aqui de abertura do “terceiro olho”.

A grande maioria das tretas em nossas quarentenas, seja entre casais ou de você com você mesmo, eclode dessa gigantesca dificuldade que é estar bem com a própria companhia. Não dá para amar bem o outro se você não aprender a amar a si.

Na polarização nacional e mundial, por exemplo, não assumimos os nossos medos pessoais, se é que os identificamos (!), mas apontamos com facilidade e contundência o comportamento do outro que, hipoteticamente, raspa em nossa vulnerabilidade ou ideia de vulnerabilidade. Projetar um bandido e querer jogar tomates é um costume que vem da Antiquidade, antes dela até.

O mundo que existia A.C. nos possibilitava milhares de situações para escaparmos desse exercício do bastar-se consigo. Qualquer distração, um rolê no supermercado, ir até a pizzaria para trazer para casa, dar uma volta de bike, passear no parque, conviver com colegas no trabalho, gerenciar equipes, se reunir com os parentes no domingo, realizar a festa de aniversário, cair na balada, beber no boteco, fazer um curso livre, encontrar um desconhecido a partir de um contato por um aplicativo, dar uma volta no shopping, viajar com amigos, passar em uma loja para fazer umas comprinhas, aguardar o anoitecer de sábado para um jantar em um restaurante, esperar o calor diminuir para passear com o cachorro, ir a shows ou peças de teatro… todas as nossas ações, até então, nos direcionavam para uma mínima interação humana: expressões de nossa existência a partir do referencial de terceiros e vice-versa.

O sentido de viver, condicional a partir da formação das sociedades, se fez assim: eu sou ou existo se sou uma manifestação para o outro.

As redes sociais são os meios mais fáceis, embora impessoais (portanto incompletos, falhos), para o acúmulo dessas manifestações autoafirmativas, de aceitação e pertencimento.

Parece que a gente só pode ser feliz quando o outro afirme / valide / declare de alguma maneira a nossa existência, das pequenas sutilezas (para os tímidos e discretos) à declarações exuberantes (para os expansivos e extrovertidos). Das manifestações positivas e também negativas. Xingar Lula ou Bolsonaro é (igualmente) a manifestação da existência deles.

Essas são as nossas overdoses e vícios tão arraigados no cotidiano que, literamente, parecia o próprio viver, o sentido de existir.

Apresentar para o outro nossas verdades, nossas ideologias, ver e ser visto (nos mais diversos graus e estéticas) mesmo que a nossa personalidade fosse introspectiva, mesmo que preferíssemos o intimismo; autoafirmar nosso gosto por um sabor, um lanche, um tipo de roupa, uma música, uma cor, um corte de cabelo, uma ideia, uma aparência, um jeito de andar, uma maneira de gesticular, um lugar, uma foto, um cheiro, uma língua, um comportamento, uma gíria, um surto, tudo. Para ser feliz, algo pequeno ou grandioso, ativo ou reativo, positivo ou negativo, deve ser expressado para um terceiro para eu confirmar a minha existência.

Assim somos (fomos?) até agora. Se ainda não fomos, no mínimo, penso que estamos em teste real neste momento.

A estética dessa pandemia é bastante peculiar, curiosa, simbólica e irônica pois é a metáfora, a piada pronta, para a nossa possível reabilitação / revisão / transformação. Estamos privados de boa parte de nosso sentido de existir. Se já não podemos nos revelar para o outro ao vivo e a cores, do mais singelo ao mais exuberante gesto, se não podemos mais expressar o viver e o sentido de existir, morremos?

A impessoalidade da tela complementará a falta? Ou a falta, enfim, será preenchida por esse aspecto poderoso da psicologia, quiçá espiritualidade, do bastar-se consigo? O fato é que não há por onde escapar agora.

A solidão não existe no momento em que é um sentido criado pelo homem para justificar, inclusive, tudo isso que somos. Na melhor das hipóteses, você terá a companhia de si por um período relativamente longo ou em um período que você nunca teve que aguardar tanto para o retorno de algo que, talvez, não volte mais.

Agora, imediatamente agora, estão se escasseando as boas e as más desculpas para ser o outro. Qualquer coisa que você queira do outro.

E se for possível amar um terceiro de uma maneira diferente, quando alcançarmos esse outro patamar? Ora, não é esse amor – enfim – que muitos estão esperando emanar do próprio ser humano?

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