Vida em quarentena: duas semanas com emoção

Quarentena, COVID-19 e duas semanas que prometem ser com emoção

Estive um pouco relutante para escrever este texto. A harmonia e equilíbrio alcançados no meu quadrado de quarentena tem sido bastante proveitosos e ricos. Rico em estudos, leituras, percepções positivas sobre meu namoro e um equilíbrio equidistante entre as pessoas que têm algum significado para mim.

Por outro lado, o momento de mundo que se estabeleceu a partir da disseminação do coronavírus é histórico, emblemático e já aponta para mudanças na vida dos seres humanos do planeta inteiro. O Minha Vida Gay, apesar do nome do Blog estar hoje descontextualizado, é um de meus auto-referenciais dos registros importantes (e não tão importantes assim) da minha própria vida.

Desculpem, hoje, não ser diferente disso.

Em paralelo à dinâmica racional, sóbria e lúcida pautada pela ciência e pela OMS, dirigida para a maioria dos continentes e países com o objetivo do combate ao coronavírus, é notável também as nuances sociopolíticas de meu país e, mais uma vez, para não perder-se da cultura, o “o brasileiro gosta de emoção”. Fico realmente impressionado, expressando umas gargalhadas enquanto escrevo essas linhas.

Não bastasse a própria dinâmica racional, sóbria, lúcida e necessária, pautada na ciência e pela OMS, para que todo cidadão busque seguir à risca, influenciando diretamente nossas rotinas, hábitos e comportamentos, há um incêndio novo a vista para aquecer a polarização.

O curioso e irônico, tamanho o prazer pela emoção, é que ao mesmo tempo em que as frentes radicais devem voltar a se estranhar com mais intensidade nessa próxima semana, materializando a nossa realidade sociopolítica de tensão ideológica (de fumaça), no plano da realidade científica e pandêmica, essa semana deve se iniciar a superlotação nas UTI’s dos hospitais de diversos Estados do Brasil, incluindo São Paulo: entraremos na fase crítica da curva do coronavírus, sem saber ao certo quando será o pico, já que o Brasil conta com apenas 296 testes para 1 milhão de pessoas.

Ciência Política

Brinco de Ciências Políticas por hobby, assim como trato a gastronomia ou o cuidado com as plantas. Talvez seja certa profundidade nos estudos, análises e experiências nessas áreas que me façam tratar todos esses prazeres com finalidades: cozinhar pratos variados que agradem, plantas que retribuam meus cuidados com a sua beleza e crescimento e bons palpites e análises sobre contextos sociopolíticos nacionais.

Não tenho formação, mas para que esses meus prazeres tragam resultados que me satisfaçam, é inevitável a busca por estudos, práticas e observação. É necessário um pouco mais de aprofundamento. No caso de plantas, saber sobre iluminação, tipos de solo ou preparação, rega, pragas mais comuns e temperatura. No caso da gastronomia, sobre temperos, ingredientes, tempo de preparo, cortes, combinações de sabores e misturas. No caso da análise sociopolítica, uma noção dos papéis e abrangências das instituições; suas atuações e estratégias.

Meu Facebook, há anos, é palco para meus testes de conhecimento teóricos e práticos a partir das análises que faço sobre política e sociedade e por lá me esparramo assim, principalmente assim. Pouca selfie e muito textão.

O campo sempre tende a ser “minado” já que os olhares estreitos da polarização, de lá e de cá, logo se excedem emocionalmente mediante os primeiros parágrafos de minhas reflexões e “perder amigos dos Facebook” – sempre os mais radicais – é algo que, pela natureza das minhas ideias, acabou virando corriqueiro (lembrando de Zygmunt Bauman de novo). Mas o resultado desses testes é que mais agrego do que separo.

Tal hobby, de “brincar” de análise e ciência política se estabeleceu, possivelmente, desde de 2013 nos manifestos populares e, então, eu não declaro meus hobbies assim quando eu não me sinto confiante para sugerir: “ah, agora tenho uma vivência para achar que sei alguma coisa desse assunto”. Foi assim com os temas centrais do Minha Vida Gay no passado e tem se estabelecido de tal maneira, modestamente, com a ciência política.

Ciência política, como a ciência que está em torno do COVID-19, ou como qualquer outra ciência, requer sobriedade. É muito mais objetiva e exige um pensamento racional e analítico que, naturalmente, nos afasta de crenças e intenções emocionais; ou estéticas. Nos afasta de cultos ou adorações, algo que – particularmente – considero ser uma de minhas características herdadas do meu pai (minha mãe torce por política e meu irmão idem. Eu e meu pai observamos com uma “frieza” que é inerente a, supostamente, as áreas das exatas, o que é um estereótipo na realidade).

Em outras palavras, enquanto a população estava emocionalmente temerosa com o vulto da “ditadura comunista”, “Cuba e Venezuela” (notem o poder imaginativo dos termos) a época do último mandato de Dilma e das últimas eleições presidenciais e hoje a palavra “AI-5” – que eclodiu de algum burburinho pró-Bolsonaro se materializou de novo e enche as pessoas de temores – cabe a ciência verificar fatos e tecer análises a partir delas e nada mais. É nua, crua, sóbria e fria. Uma vibe Spock é uma boa metáfora.

É a ciência, analítica, a mesma que deve resolver em um curto prazo a pandemia. 18 meses mínimos, pasmem, é considerado curto prazo.

O Iluminismo, pasmem de novo, foi alicerçado na sobriedade da razão. Até as pinturas na Capela Sistina eram milimetricamente calculadas. Ao contrário da “Era das Trevas” que era sufocada de crenças e emoções.

Efeito Mandetta

A partir das minhas análises, a saída de Mandetta do ministério da saúde foi um divisor de águas na vida política do presidente Bolsonaro. Fato é que, imediatamente depois, o presidente botou-se a confrontar o Maia (presidente da Câmara dos Deputados) e incitou “meia dúzia” de radicais a seu favor no final de semana para irem as ruas e pronunciarem termos que mexem com as emoções e o imaginário da população: “AI-5” e “fechamento do Congresso”.

Sinto o medo pesando no ombro de alguns leitores…

Sem muitas delongas, esses nomes incendeiam a polarização. Se existe dúvida, a mim não há: Bolsonaro quer exatamente isso.

Os motivos de Bolsonaro

Por quais motivos? O pano de fundo, irrefutavelmente, é o contexto da pandemia. Não há no momento holofote maior e mais largo do que esse no mundo.

A partir desse pano de fundo, a estratégia é tentar desestabilizar os exatos poderes que estão o confrontando: o Supremo Tribunal Federal (STF), importantes componentes da Câmara, como o próprio presidente Rodrigo Maia e a corrente dos governadores da maioria dos 26 Estados. Todos eles estão francamente alinhados ao cronograma da ciência e da OMS.

Sabendo que a demissão de Mandetta seria um marco para movimentações políticas nas próximas semanas, escrevi na sexta-feira, 17 de abril de 2020, a seguinte análise:

“Perdoem-me os 5 (nem meia dúzia), mas os 5 Bolsominions da minha timeline, super neoliberais com todo respeito, mas acho (só acho) que Bolsonaro vai cair durante ou depois do pico do coronavírus.

Se não cair, vai sufocar na mesma corda de pescoço que a Dilma, outra com uma limitada capacidade de articulação, usava. A corda ainda reserva o formato do pescoço dela para certos gracejos da ironia.

Mudaram-se as estéticas, mudaram-se os contextos, mas a limitação sináptica dá na mesma. Que belos símbolos o brasileiro conseguiu eleger na última década, hein?

Vá bem, antes a democracia do que qualquer outra coisa… ainda consigo acreditar nisso.

A progenitora já era uma lástima, esse filho então… com todo perdão da palavra, um pseudo milico bunda-mole que nem flexão de braço faz direito, enquanto a outra estocava o vento.

Estávamos bem. E falo no passado porque esse aí se não tombar, vai lhe sobrar apenas alguma fachada. Poeira.

Já era visível (para quem estava atento a tudo isso que é política e as instituições que a forma, visão possível de adquirir ainda no contexto de gestão da Dilma) que o STF, integrantes importantes da Câmara e – neste caso – a maioria dos governadores dos 26 Estados, estão seguindo o cronograma da ciência e da OMS. Ou seja, todos estão alinhados à sobriedade e racionalidade em detrimento a qualquer outra crença e religião (incluo o Capitalismo como a maior delas, como bem diz o Yuval).

Olhem um pouquinho para a História com alguma lucidez e percebam que “Era das Trevas” e Iluminismo andam de mãos dadas na terra dos homens. Um é refluxo do outro e, vivendo o contexto do COVID-19 que já é um marco histórico, entendo (claramente) a nossa necessária entrega para a luz da razão, da racionalidade da ciência.

Enfim, at last.

Crenças e a nossa específica bolha de realidade (com todo respeito novamente a bolha que seja) não conseguem fundamentar esse vulto mundial como justificativas para as coisas serem como se acredita ser melhor; como eu gostaria que fosse de acordo com o meu entorno. Não rola, viu?

Até a polarização tupiniquim dava para acreditar que sim, há um mês atrás, mas essa se apequenou. Se acovardou. Encolheu. Fica lá, cinco de lá e de cá falando com o vazio e morrendo de medo do corona. Morrendo de medo de continuar com medo.

E é interessante de ver, não necessariamente prazeroso, o ressurgimento da centro-esquerda no Brasil, num tempo anterior de doutrina Lulopetista em que se não fosse o PT tudo era de direita. Cheguei a ouvir a lástima-cultural de que a Marina Silva era da direita.

De chorar esses distúrbios, mas parece que não mais.

E estamos precisando desse travamento geral da religião Capitalista, doendo no bolso até dos comunistas ideológicos, para reposicionar certos valores. Por esse lado, acho lindo. Positivo.

Positivo em muitos aspectos para falar a real. Estamos todos revendo as contas há um mês de quarentena. Aprendendo a conviver com os medos e a resolvê-los sem desculpa.

Só um movimento desse para mudar com força a curva do rio. O homem no reducionista fla-flu não conseguia mais nada.

Dilmanta. Bolsoasno. Mas, seres humanos, como poderia ser melhor do que isso?

Não poderia e assim veio um vírus. Veio a natureza.

Strike.

No conteúdo acima, não deixei de expressar meus valores animistas e niilistas. Mas para a linha de raciocínio no MVG, se atenham a parte política.

***

Em minhas análises, estou considerando o poder imaginativo dos termos “Ditadura Comunista”, “Ditadura Militar”, “AI-5” e “Fechamento do Congresso”, outros escritos, ouvidos e repetidos em épocas de acirramento, como catalisadores da polarização e toda sua estética. Embora a polarização social seja elemento influente no contexto sociopolítico nacional, tem mais um papel dispersivo, hora de tentativa de enfraquecimento de um lado, hora de outro, para desvio de atenção e munição de ataque para algum tipo de oposição nos poderes (STF, Câmara, Ministério, Governos, outros).

É neste lugar que – por esses anos – tenho colocado o papel polarizado da sociedade diante dos contextos e, até hoje, teve apenas uma prática influente: quando bota uma massa de poder público nas ruas, como foi em 2013 (um gigante tonto, carente de dezenas ou centenas de necessidades) ou nos manifestos de tombamento da Dilma. Se o povo não está nas ruas, impulsionado pelos ânimos maniqueístas (ou não), a polarização – em termos práticos – serve apenas para afastamentos pessoais possíveis. Pelo menos, é para isso que tem servido desde que resolvi olhar “the big picture”.

É bem verdade que não precisamos necessariamente de um acirramento social assim para ir as ruas, como aconteceu em tempos de Impeachment de Collor. Todavia, a estética atual é essa hoje.

Caos nos Hospitais e Necrotérios

É bem possível que as próximas duas semanas sejam palco para a quebradeira dos serviços hospitalares públicos, como já vem se manifestando em Manaus e Fortaleza. Entenda-se “quebradeira” como volume de leitos em UTI’s inferiores ao número de brasileiros precisando utilizar.

Entraremos em prováveis situações como visto na Itália: médicos priorizando pela sobrevida de jovens em detrimento de pessoas mais idosas, frigoríficos móveis estacionando ao lado de hospitais para despacho de corpos, covas rasas sendo abertas a todo momento. Falta de equipamentos. Médicos e enfermeiros se contaminando. Outros em volume muito maior.

Uma dureza, tristeza e infelicidade irremediáveis quando, em São Paulo por exemplo, não se atingiu os 70% de isolamento necessário para que as exatas vivências acima não se estabelecessem.

A exatidão “fria” da ciência dita as regras. A capacidade imaginativa do ser humano, atrelada a um sentimento de onipotência, confere as “cores”.

Resumo da sinfonia

O grande lance é que novos contextos se formarão a partir de 3 novas grandes influências nas próximas semanas. Sob a minha análise, do menos influente para o mais, temos:

1 – o acirramento da polarização social nas redes sociais: como comentei, desde que tenho notado as movimentações da polarização, ela tem servido mais para desviar a atenção dos próprios interessados (nós, população) das movimentações (realmente) importantes. Se não é combustível para botar o poder público nas ruas, acaba servindo de festim, para aquela “limpeza na rede social”;

2 – um embate mais acalorado entre os poderes: eu achava que as primeiras movimentações viriam do Congresso. Mas Bolsonaro queimou a linha de largada, atacou Rodrigo Maia na própria sexta, convocou um grupelho para pronunciar “AI-5” e “Fechamento do Congresso” no final de semana e, ainda, deu ideia para um (bizarro) “fora Dória”, seu potencial principal rival nas eleições de 2022.

O fato é, queridos leitores, que por trás da fumaça que vai se estabelecer na polarização social, Supremo e Câmara dos Deputados são instituições fortes e estratégicas para refrear pesadamente o presidente. Os governadores tem tudo para também se empoderar nessa onda, principalmente o João Dória, centro-esquerda do PSDB.

Não menos importante, o poder militar, que muitos acham que dá apoio incondicional ao presidente, talvez esteja mantendo uma aparente lealdade por serem integrantes da mesma classe mas, na prática, tem sinalizado e participado das movimentações para o combate ao COVID-19, cumprindo um papel importante que lhe cabe principalmente no que diz respeito à coordenação e transporte dos cadáveres excedentes.

Muita coisa pode se revelar nas próximas duas semanas.

3 – falência do sistema de saúde: o presidente Bolsonaro está crente (crente, no sentido de crença e não da análise fria dos fatos) que o vulto do coronavírus é uma articulação mundial e política. Ainda relevante para essa terceira influência, a classe ultra-liberal que o apóia tem botado pressão para que o sistema produtivo volte a funcionar.

Em termos realísticos, é bem possível que os poderes, STF, Câmara dos Deputados e Governos, mediante a fatal realidade do Coronavírus, coloquem o presidente na “forca”. Não menos importante, poderá eclodir a força militar “traindo” Bolsonaro e a favor do movimento de enfrentamento da pandemia. Traição na realidade não haverá pois tenho fortes dúvidas sobre um real apoio da classe ao presidente.

Ou quem sabe ele não pegue a tal da “gripezinha”?

A mídia, obviamente, vai desenhar para nós todos esses cenários.

Entenda-se forca como uma metáfora, ok? Neste caso eu prefiro não arriscar um palpite. Pode ser uma poderosíssima mordaça vinda inclusive de “padrinhos” militares ou até mesmo o início do rito do Impeachment por meio de qualquer pedido protocolado, assim como foi com a Dilma.

Preparados para possíveis fortes emoções? É muito difícil acompanhar certos detalhes determinantes na ciência política sem utilizar-se da racionalidade.

***

Embora eu já tenha expressado por aqui as minhas tendências em momentos democráticos, na hora do voto, pouco interessa se sou de esquerda ou direita agora. Está aqui a minha análise.

OBS: Se você não tem certeza quem entra no lugar do Bolsonaro em caso de Impeachment ou vai colar no Google agora só para confirmar, veja bem, boa opinião você não terá sobre essa minha análise.

Voltando para o quadrado da minha quarententa em 3, 2, 1…

2 comentários Adicione o seu

  1. Nick disse:

    Gosto de ler seu ponto de vista, mas penso diferente de vc. Fala de “polarização”, como se tivesse imune a ela, mas está contaminado pela mesma. Ao comparar figuras tão diferentes, como Dilma e Bolsonaro, mas que tem seus momentos de igualdade, faz o mesmo de quem chamou Marina de direita. E também peca na análise de ciência política ao comparar a ameaça de “ditadura comunista” a ameaça de um AI-5, pois a primeira nunca tivemos, mas a segunda sim… Um cientista analisa o q é um delírio, no caso a ditadura comunista, do q pode ocorrer, um AI-5, apesar de eu achar q com Bolsonaro isso não acontece, já com Mourão… Além do mais dá pra ver q a sim uma diferença ao se lidar com manifestações no Brasil; se a manifestação ai na frente do Hospital das Clínicas da USP fosse de professores ou mesmo servidores da saúde o Dória mandaria a PM pra cima, mas como não era…

    1. minhavidagay disse:

      Oi Nick!
      Boa tarde!

      Minhas análises estão no post e, assim, discordo de você em todos os pontos que você ressaltou em seu comentário.

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