Vida Gay aos 39 anos

Nuances da vida gay na meia idade

Dizem que ao chegar aos 40 anos atingimos a meia idade. Não tenho problema nenhum com tal termo, fruto talvez de uma mentalidade que – em alguma medida – aceita bem cada etapa da vida. Estou até antecipando os 40 tendo ainda 39 (rs). Tenho escrito com uma certa frequência sobre o assunto, trazendo novos elementos a cada post. Talvez, um pouco numa necessidade autoafirmativa para elaborar meus próprios pensamentos e consciência. Talvez, para servir de referência para outros caras, já que não se encontra muito conteúdo sobre gays na meia idade. Eu, pelo menos, nunca me prestei a procurar e confesso que sou um blogueiro gay egocêntrico: não me referencio por outros Blogs e acho que por aqui consigo detalhar bem o que colho lá fora e de dentro de mim.

Fico pensando quando tiver 50, depois 60 e o MVG ainda estiver por aqui. Acho que há uma energia interessante de legado. Bem, vamos ao que interessa:

O aspecto físico externo e interno

A se comparar com meus amigos heterossexuais, da faculdade, do colegial e até mesmo os conhecidos gays, posso dizer que fisicamente (pelo menos no exterior da embalagem) estou muito bem! Nos últimos três meses andei exagerando na alimentação (quem me conhece, sabe que sou uma draga) e estou com 4 quilos acima do meu peso ideal. Estou “fortinho” como dizem, malho frequentemente há mais de 4 anos mas surgiu uma “barriguinha” nesse tempo. Dá para ver 2 packs (rs) e o Beto me disse que na época das fotos do aplicativo, dava para ver o “six pack” (quem lê o Blog, talvez não imagine que o blogueiro “cabeção” que aqui se manifesta, colocava foto seminu e com rosto nos aplicativos, não é mesmo?). Pois bem… =P

Resolvi incluir a academia (que conta a musculação e exercícios aeróbicos) na minha vida de vez. Antes era um vai e volta, de acordo com a estação (como de fato uma maioria faz, próximo ao verão). Incluí assim porque há uns 4 anos o médico disse que eu estava com o triglicérides alto e teria que tomar remédio “para sempre”. Ócios que começam a pipocar depois dos 30! O “para sempre” me encheu de bode e fui consultar uma nutricionista. Reeduquei a minha alimentação e de lá pra cá consegui conciliar, definitivamente, estética com saúde, sem remedinhos por hora. Claro que no outono e inverno eu sofro mais com a dieta e não é à toa que engordei 4 quilos do meu ideal. Exige um esforço e depois dos 30 – fatalmente – a velocidade do metabolismo diminui e, antes, se só academia já servia para emagrecer, hoje, preciso comer melhor.

Sou afortunado por não gostar de doce, o que é uma certa vantagem.

Depois dos 30 a gente tende a se descolar melhor das exigências estéticas e midiáticas. Os que continuam, creio eu, fazem por incorporar o hábito de exercícios à vida. Amigos héteros casam e, no geral, desencanam por um tempo para encanar depois dos 40, quando mais “probleminhas” começam. Amigos gays costumam a desandar enquanto namoram e, quando estão solteiros, voltam a ajeitar o shape. Mas tenho alguns deles que já se desprenderam faz tempo, solteiros mesmo (rs). A gente vai aceitando que gordinhos também tem público! E claro que o aspecto da saúde começa a pegar. Uns estão hipertensos, outros tomam remédio para colesterol alto e assim é que vai funcionando a coisa toda, no geral. Principalmente aos homens depois dos 30 anos, o que inclui quem se aproxima dos 40.

O grande problema é que eu fumo. Adoro o sabor e o prazer que me dá. O fod* é que não existe ex-fumante, igual ex-alcoólatra. Já parei duas vezes por seis meses. A primeira foi por esforço e a segunda foi com medicamento. Tentei contrariar a máxima de que “não existe ex-fumante” e me dei mal!

Ainda não tenho marcas de expressão no rosto. Mas quando dou risada, percebo que alguns vincos são mais profundos hoje. Vaidoso como sou, passo diversos cremes ao acordar e antes de dormir. Ano passado fiz um tratamento a laser. Foi legal a experiência! Mas não sei de fato qual foi a diferença (rs). Tem amigo meu fazendo botox.

Tenho ganhado muitos fios brancos, cabelo, barba, sobrancelha e, porque não assumir, no saco! (RISOS). Ok que na região pubiana a gente dá aquela aparada e não é, assim, aquele exagero! Um ou outro fio… =P

No começo os primeiros brancos me incomodavam. Agora, tenho até gostado do visual natural que tais fios tem me propiciado. Dizem que confere charme. Estou acreditando (rs). As pessoas costumam a me dar 30, apesar de estar com 39 e assim, feliz (rs), termino este tópico.

Grana e hábitos

Entendo que uma maioria que batalha por estudo e trabalho, chega aos 39 anos com uma certa autonomia financeira. Sei que numa época de crise, falar assim parece um pouco insensível, mas em condições normais de mercado, a tendência de uma certa estabilidade é a real. Para quem batalhou por estudo e trabalho. A vida de subcelebridade, sonho de muitos jovens gays, a mim, é passageira. Não me convence.

Confesso que até meus 33 anos eu tinha um perfil bastante perdulário. Em alguma medida, curtia certa ostentação e, muito disso, era fruto de processos inconscientes e autoafirmativos para meu próprio amadurecimento. Tinha muitos quereres potencializados e, agora aos 39, penso bastante tempo antes de gastar. O que não abro mão é de comer fora. Costumo dizer que troquei as baladas e bares por restaurantes e, gastronomia a mim, principalmente aquela que sei que se alinha a minha reeducação alimentar, é um hobby perfeito. Os restaurantes japoneses que o digam.

Troquei cachaça, vodka e cerveja por vinho. Raramente bebo as três primeiras.

Viajar também é muito bom. Para a alma, para a mente e para o bolso! Explico esse último: a gente acha que fazer uma viagem dos sonhos é impossível, até o dia que se começa a guardar dinheiro para tal. Depois que o “bichinho das viagens me picou” (como diria uma ex-sogra), eu descobri que o ato de poupar faz bem para a autoestima. A grana em si, pode se transformar numa viagem, ou em outras coisas também. Troquei a mania de comprar parcelado e aprendi a pagar à vista. É muito mais uma questão de administrar o dinheiro do que qualquer outra coisa. Eu fui um daqueles que achava impossível comprar algo à vista e, de repente, de um ano para o outro, essa maneira mudou.

Em épocas gordas, já viajei para mais de um ponto do planeta em um único ano. Em épocas magras, se eu conseguir voltar para NYC, nem que seja por uma semana, para viver meu “retiro-urbano”, ficarei satisfeito. Dar um “pulinho” no Chile não é nada mal também…

Como falei, os tempos não são os mais prazerosos para falar de dinheiro e consumo. Mas como microempresário praticamente a vida toda, é como costumo dizer: a gente faz dinheiro por intermédio de trabalho (e da cabeça também). Nem guardar demais, nem gastar além do que se pode é o que aprendi nos últimos anos. Os extremos, até neste tópico, são um problema!

Solidão e coração

Curioso que alguns amigos gays que passaram dos 30 anos – que sempre preferiram caras mais velhos ao cruzar tal linha da vida – começaram a reparar nos meninos mais novos. Interessante tal processo que não denuncia uma maioria, mas não deixa de ser uma estatística. Eu sempre gostei de pessoas mais novas do que eu. Seja 3 anos ou 10 e continuo com a mesma preferência. Então, a mim, tudo igual.

Há pouco mais de um ano atrás me aproximei de umas três pessoas da minha idade que – ao final – denunciaram um interesse de envolvimento. Mas o que eu realmente sentia de tais pretendentes era uma exteriorização muito evidente dos calos. Um certo ar sombrio, uma névoa. Além disso, um ar meio descrente das relações, um desânimo. Não sei se é algo bastante pessoal, mas eu sempre busquei me definir claramente sobre os fechamentos das minhas relações e, além disso, buscar limpar traumas e sentimentos mal resolvidos por acontecimentos e pessoas do passado, antes de me prestar a estar de novo com alguém. Mas o que noto é que, se a gente não cuidar, fica rodeado de “sombras”. Eu (definitivamente) não curto essa atmosfera.

Me tornei muito mais flexível em diversos aspectos no lidar com outra pessoa, mas especialmente sobre valores de “fidelidade VS. traição”, por exemplo. Prefiro muito mais, hoje, a lealdade.

Aprendi nos últimos anos – finalmente – a me bastar sozinho. Foi uma meta, um propósito e ter entendido melhor o sentido de solitude somou pontos a pessoa que sou. Morar sozinho há uma década, diferente de estar sozinho morando com os pais, ajuda – e muito – a construir um sentido de solitude, do se bastar.

Incorporei outros pontos também no que diz respeito à idealização de relações. Talvez, pelo fato de ter vivido tantos namoros e ter convivido com pais e familiares dos respectivos, ter casado e ter terminado um punhado de vezes, não exijo muito do meu companheiro. Entendo com muito mais clareza a importância da individualidade de cada um e, se a gente não cuidar, para 1 + 1 = 0 não precisa de muito esforço.

Por outro lado, me tornei naturalmente mais seletivo. Apenas rostinhos bonitos e virilidade juvenil me apetecem dentro de uma balada ou, precisamente, de uma Chilli Peppers. Mas a coisa do coração, de abrir o peito a uma pessoa, construir virtudes do companheirismo e amizade e ao mesmo tempo curtir muito o sexo, embora aconteça por intermédio de conexões subjetivas, a minha escolha tem sido muito mais a dedo. A dedo, ou devido a “mágica” que é a arte de encontro que, fatalmente, sofrerá influência da seletividade.

Ainda sobre este tema, coisas do coração, tenho notado na minha timeline que alguns dos “solteirões gays, baladeiros e inveterados” alcançaram uma idade como a minha e estão preferindo o namoro. Muitos deles estão assumindo relacionamentos, com direito de status no Facebook! Impressionante… passei a me questionar se os gays sossegam entre os 30 e 40 anos e estou chegando a conclusão que sim. Não todos, claro, que se acharão “pitboys das baladas” por todo um prolongamento de vida! Mas nada contra a esse perfil, desde que estejam felizes assim.

Para fechar o tema, tenho um amigo de 30 anos que, há meses atrás, antes de conhecer o Beto, se mostrou interessado em se envolver comigo. Mantive contato com certo distanciamento quando ele começou a jogar pois, mesmo me sentindo atraído fisicamente, não sentia outra conexão que não fosse a própria amizade. Hoje ele está vivendo um começo de relação e me questionou o por quê deu não ter dado bola a época. Pediu sinceridade e, na circunstância, não vi ruindade em dizer:

– Por causa disso…

– Disso o que?

– Então… você tem 30 anos e parece um menininho! rs

– Ah Flávio… mas todos nós somos eternamente jovens! Mas onde você está vendo isso?

– Sim, tirando o clichê, a ideia de sermos jovens é ótima. Mas uma coisa é manter o espírito jovem. Outra coisa é se comportar de maneira infantil. Veja só você: nesses 10 minutos que estamos conversando, você disse que está conhecendo um rapaz faz um mês, que está apaixonado mas não se aguenta! Está com medo que ele tenha outro, está desconfiado de gesto X, já quase teve uma crise de ciúme por um assunto Y que vai acontecer só daqui há 6 meses, mandou selfies dele pra mim de rosto e de corpo, contou todas as suas posições preferidas na cama com ele… você quer se relacionar com o menino ou você quer engolir o menino? Ahahaha!

– Ahahahaha! Estou te entendendo agora…

– Pois é… se você está gostando, você se preserva e você o preserva. Ficar conversando sobre essas coisas que te geram insegurança só vai alimentar mais a sua insegurança. Se eu disser alguma “coisinha” que você não queira ouvir… BOOM! Amanhã serei “culpado” pelo mal estar na sua relação. Entende? Infantil e conveniente. Você sabe que não vou dizer nada para alimentar sua fantasia, pelo contrário, vou abrir seus olhos se achar que você está viajando. E na boa? Está! Muitas expectativas para apenas um mês! Uma coisa é intensidade, outra coisa é afobação…

– Eu sou muito carente, na verdade…

– É sim… mas por que essa carência toda?

(…), MVG mode on. Continuo achando que idade e maturidade são assuntos distintos.

Nossos pais

Sobre eles serei precisamente breve: vão tornando-se nossos filhos. Natural darmos certas atenções especiais a eles nessa fase de inversão quando nós, filhos, chegamos aos 40 e eles ultrapassam os 60. Se muito ou pouco apego, depende da medida de cada um e de uma outra medida importante: que eles não partam antes de nos desprendermos de todas as possíveis mágoas.

Boa semana!

3 comentários Adicione o seu

  1. Rothuzs disse:

    Pensando aqui que algumas coisas acontecem em tempos bem diferentes para diversos indivíduos.
    Tenho cabelo branco já, aos 29 anos, cabelo mesmo, não apenas alguns fios, e os tenho desde os 12, herança genética da família do meu pai.
    Me bate muita curiosidade em saber como é morar sozinho, depois de quase 27 anos acreditando que nunca ia querer isto(era noivo até ano passado e estav prestes a me casar, etc…). Se der certo ainda saio da casa dos meus pais pra dividir um lugar com amigos, quem sabe more só algum dia.
    E sobre meus pais que estão beirando os 60, é nítido o cuidado e atenção que eles requerem hoje em dia…
    Abraços.

  2. minhavidagay disse:

    É meu amigo Rothuzs… viver sozinho dá outro sentido de emancipação… saí da casa dos meus pais para casar. Foram quase 3 anos. Depois que acabou, não pensei mais em voltar e tem sido assim desde então. Meus pais moram perto, mas não existe aquele colo para todas as horas mais. Isso muda bastante coisa, eheheh.

    Abraço!

  3. Bruno disse:

    Muito bacana esse artigo sobre como alguns gays se vêem aos 40 …Dizem que é uma fase de ouro! Dizem que só se começa a viver depois dos 30! Achava isso inverdade, hoje eu só tenho a certeza!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.