Vida heteronormativa

Para o gay que é além de gay

Anda povoando na Internet essa polêmica dos gays cujo “estilo” é o heteronormativo. Normalmente, o tema vem repleto de críticas negativas como se o gay “homonormativo” tivesse um merecimento por dar a cara a tapa. Por outro lado, entendo que são os “homonormativos” e afeminados que – historicamente – contribuíram de maneira evidente para o sentido inclusivo dos gays perante a sociedade. Ou, pelo menos, são os que aparecem. São também os que fazem mais corpo presente nas paradas, estão nas ruas, frequentam os principais pontos inclusivos em capitais como São Paulo e assim por diante.

Tal duelo na web, cheio de generalização, é a mim uma forma de expressão política. É algo que está bastante em pauta, alinhado com o comportamento polarizado atual. Mas, ao mesmo tempo, está longe de se conceber como uma postura madura e, certamente, longe de ser a maneira mais inteligente de lidar com a mesma, política.

A mim, me parece que essa rivalidade é repleta de preconceito de ambas as partes. Quando não somente o preconceito, posturas um tanto condenáveis, tal qual Bolsonaro chamar Wyllys de “baitola” e “viadinho”, cheio de conotação depreciativa ou o Wyllys lançar um belo cuspe contra seu adversário (justamente) no dia de maior holofote na Câmara dos Deputados. A crítica debochada e agressiva expressa nestes atos e que reverberam entre os cidadãos, “homonormativos” ou “heteronormativos”, acaba reduzindo a qualidade do debate. Pelo menos, o nível que eu entendo como digno de atenção. É por essas e outras que desde a pré-eleição de 2014 eu deixei de seguir o Jean.

Considero uma prática reducionista querer definir tais conceitos “heteronormativo” e “homonormativo”, enquadrar pessoas nesses dois “lotes” e logo levanto a questão: quem realmente sabe definir o “gay heteronormativo” e o “gay homonormativo” com uma convicção, digno de um estudioso sobre gênero e sexualidade? Duvido que exista uma transparência na resposta, algo que seja de domínio público. O que existe, no final, é uma cambada de gente bicuda e metida querendo justificar seu próprio estado.

Tenho dois funcionários gays. Na realidade, um deles não faz mais parte da equipe, mas continua no meu radar para um possível retorno quando a situação econômica melhorar.

Um deles é assumido há mais tempo. Quando você conversa com ele, percebe leves trejeitos. Tem uma voz suave, do falar baixo. Vira e mexe muda seu estilo de cabelo, as vezes descolorindo, as vezes raspando e as vezes deixando natural. É mestiço, mas tem fortes traços orientais. Já vi com rosto “pelado”, com barba mal feita e, as vezes, bem barbado. Na maneira de se vestir, é largado. Trabalha de sua casa e, quando vem para a empresa para fazer algum acerto comigo ou com a equipe, normalmente vem de chinelo. Havaianas.

É focado e quieto.

É assumido para mãe e para a irmã há algum tempo. Pelo seu Instagram, já vi foto dele montado, tipo drag/gueisha. Em seus posts no Face, tira poucas selfies mas vira e mexe lança breves textos que definem bem a sua sexualidade para quem lê.

Costuma ir mais na Rua Augusta quando sai. Não curte baladas gays e guetos muito segregados ao público.

O outro deles é assumido para mãe e para a irmã. Quando você conversa com ele, não percebe trejeitos. Tem uma voz rouca e fala alto. As vezes desembesta a contar histórias e, quando começa, mesmo sem trejeitos, adora falar de homens, da pegação e das loucuras do final de semana. Preserva seu estilo há bastante tempo: cabelo espichado, desfiado e com cera, barba e bigode numa tentativa de fazer volume. É loiro, de olhos claros. Na maneira de se vestir é vaidoso. Quando pode, compra roupas e adereços (tipo óculos e relógio) para ornar de formas diferentes.

É um falastrão e um sarrista.

Pelo seu Face e Instagram, lança sempre várias fotos de selfie sem camiseta, quando não sensuais de – as vezes – dar para notar o “volume” em baixo da calça. Recebe centenas de curtidas e os comentários clássicos. Na parte de seus textos no Facebook, nunca expressou claramente sobre sua sexualidade. Escreve muita piada.

Costuma ir na The Week, Gambiarra e Bubu. Na medida do possível, não perde uma festa.

Ambos tem a mesma faixa de idade e a minha dúvida é: quais dessas descrições os definem como heteronormativos ou homonormativos?

Daí eles tem um chefe chamado Flávio. Ele é assumido para seus pais, irmãos e cunhada há tempos. Trata de sua intimidade com naturalidade com a mãe e o irmão. Poupa seu pai pois, o velho, não gosta de falar nenhum tipo de intimidade com ninguém. Flávio não tem trejeito, não sai falando de homens, não expõe abertamente sua sexualidade para seus funcionários, mas tem um Blog chamado MVG há 5 anos, que tem ajudado muito dos leitores, que encontram referências para embasar seus contextos de vida.

Mantém o cabelo do “tipo moicano” desde os 23 anos. Agora, com um topete um pouco mais baixo e alguns (muitos) fios brancos! É descendente de japonês por parte de pai e mãe e mantém uma (tentativa) de barba mal feita há décadas (agora também com alguns fios brancos). É bastante vaidoso. Tem muitas calças, muitas blusas, muitas camisetas, tênis, óculos escuros e perfumes. Muitas cuecas e meias também. Passa hidratantes específicos no rosto ao acordar e antes de dormir.

Pelo seu Face e Instagram nunca lançou nada dirigido sobre a própria sexualidade, mas já deixou registro em fotos – evidentes – com ex-namorados que deixam esse assunto bem claro. Quando escreve no Face, hoje, lança suas reflexões mais resumidas em relação ao que escreve no MVG, e normalmente é sobre política. Prefere receber mais curtidas em suas reflexões do que nas fotos que publica. Hoje, para falar a verdade, quase não aparece em fotos. A não ser quando está com sua sobrinha ou amigos.

Já frequentou ostensivamente as baladas, já foi VIP daquelas que mais ia. Hoje prefere restaurantes.

Tem 39 anos e a dúvida é: quais dessas descrições o define como um gay heteronormativo ou homonormativo?

Quer saber? Essas caixotes são uma ba-ba-qui-ce. Tais expressões rumam contra o valor da diversidade.

Pelo MVG não se aprovarão. ;)

11 comentários Adicione o seu

  1. Rothuzs disse:

    Fiquei com uma dúvida, ou duas, ou várias? Por que dividir os gays em ‘homo e hetero-normativos’?
    Isto também não fez sentido pra mim por muito tempo e talvez nunca faça, mas se as pessoas o querem se rotular, intitular, categorizar, marcar, que assim o façam consigo próprias não?
    O que não dá é para não reconhecer as diferenças e não respeitá-las, certo?

    1. minhavidagay disse:

      Correto! O que há atualmente é muitos falta de respeito!

  2. pai gay disse:

    Texto muito bem pensado! somos muitos em vários “formatos”! parabens!

  3. André disse:

    Li a matéria da BBC Brasil que fala a respeito dos gays que apoiam Bolsonaro e rechaçam Jean Wyllys, por sinal muito bem escrita. O fato é que como mencionado pelo professor de Direito da USP na matéria, José Reinaldo Lopes- “a orientação sexual não determina ideologia política”. Nesse sentido, vejo um lado bom, pois do contrário seríamos muito limitados rs. Por outro lado, percebo que essa é uma rixa desnecessária, de argumentos mesquinhos, reflexos de um ‘momento conservador’. Mas um trecho da matéria que mais me chamou a atenção, e que relaciona a pauta conservadora ao distanciamento de estigmas, foi o atribuído a uma pesquisadora da Fiocruz:

    “O desejo de parecer ‘bom cidadão’ e se dissociar dos que sofrem preconceito gera uma despolitização desses sujeitos, os quais preferem uma pauta moral a uma política.”

    Acho que ele define muito bem tudo isso.

    1. minhavidagay disse:

      Oi André!
      Eu discordo do termo “despolitização”. O discurso moral é uma manifestação política.

  4. André disse:

    Oi Flávio! De um certo modo sim, não deixa de ser uma manifestação política, ainda que, a meu ver, sob uma perspectiva bem vazia. Mas talvez o que a autora queira dizer é que na tentativa de normalização de suas vidas amorosas, alinhando-as ao modelo heteronormativo (personificado na figura do deputado Bolsonaro, e no simbolismo que ele traz), esses gays de direita terminam por tratar a temática ‘sexualidade’ como algo que só pode ser reconhecido enquanto questão privada. Ignorando (convenientemente ou não) o fato de que é na esfera pública que os gays menos ‘convencionais’ e de menor aceitação social sofrem diversas sanções sociais, onde são insultados, agredidos ou mortos.

    1. minhavidagay disse:

      Entendo… vejo que o respeito às diferenças ou aceitar que um homem possa ser afeminado diz respeito a educação e cultura, num aprendizado desde pequeno, e não à política propriamente. Política, hoje, nos ajuda a criar regras para combater as diversas práticas que infringem o espaço privado. Política serve para moderar.

      Entendo que sem educação, que inclusive nos elucide e nos descole de representantes radicais como Bolsonaro ou Wyllys, seja a efetiva solução de muita coisa, inclusive a existência das extremas. Quando educados – efetivamente – nos sentimos muito mais autônomos de representantes. Não precisamos grudar em caras como Bolsonaro para construir significados a nossa imagem.

  5. André disse:

    Verdade, a educação liberta sim. Por isso que amo o blog, aprendo muito por aqui rs 😀

  6. Sandro bonassa disse:

    Oi Flavio quando tempo.

    Eu pago o pato , rs , devido esses rótulos

    Para os amigos gays sou muito HT
    Para os amigos HT sou muito gay.

    Na balada tento alguma coisa com o meninos , eles ficam desconfiados e sempre tem mais mulher chegando em mim do que Boys. Rs

    Juro que gostaria de ter vários jeitos , trijeitos , quintojeitos ,rs, para ser notado com gay.

    Saber dançar todas as divas pop , sou péssimo dançarino , rs.

    Gostari de Ter o rosto mais delicado e voz que muito grossa poderia ser mais fina.

    Essas classificações são em saco.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Sandro!
      Não é muito diferente pra mim também (rs). Mas a gente aprende a conviver com isso e a formalizar “SOU GAY”! Quando necessário, eheheh

  7. Sandro bonassa disse:

    isso é verdade .

    Quando necessário formalizo SOU GAY!!

    Rs.

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