Vida louca, vida

“Logo quando reinstalei os apps de pegação, o Maurício foi um dos primeiros que eu chamei para trocar ideia. Ele era um ‘novo cara’, segundo o Hornet e estava a 1 Km de mim. Estava aprendendo a mexer no aplicativo, dei algumas dicas e estendemos nossas conversas sobre profissão, local onde morávamos, intenções e etc. até um dia que ele sumiu. Reiniciava assim uma história conhecida dos apps, após o término do meu último namoro. Foi nele que dei minha primeira ‘investida’ e eu poderia ter esquecido de sua fisionomia, mas não”.

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Era para eu trazer um pouco da minha sexta-feira por aqui. Mas acabou tão “normal” em relação aos acontecimentos de sábado, que o dia de ontem, definitivamente, mereceu o registro.

Desde sexta, com a chegada do final de semana, bateu uma vontade de ser um pouco “Cazuza”. Ariano com ascendente em áries como ele foi, como eu sou, uma emoção de “se jogar” bateu mais forte nesse final de semana. Precisava de intensidade, de me sentir preenchido de vivências que me atirasse um pouco aos meus extremos. Quando entro nessa sintonia, parece que a minha energia atrai, formando situações, trazendo pessoas e criando cenários apropriados à vibe.

Assim, passei meu sábado praticamente inteiro fora, se prolongando até as seis da manhã de hoje. O começo foi bem tranquilo – embora certas “coincidências” já se manifestassem desde o primeiro ato – mas o final foi limítrofe. Fazia tempo, muito tempo mesmo, que não desejava tanto a minha casa e a minha cama (rs). Fazia tempo que não percebia os passarinhos cantarem logo pela manhã.

Acordei por volta das 10h30 no sábado, cuidei da minha rotina diária de lavar quintal, conversar um pouco com a minha cachorra, dar comida a ela, remédios, troca de água e os cuidados do meu café da dieta. Deu tempo ainda de assistir um primeiro episódio de um seriado qualquer, no caso, o Arrow. Gostei.

Fui até o Shopping Frei Caneca, de encontro com o Kota, amigo do MVG, que queria fazer updates de seu momento atual e assistir pela segunda vez “Jurassic World”, fã confesso da série dos dinos. Logo veio de encontro a mim uma primeira “coincidência”:

– Meu irmão pediu para não te contar, mas vou te falar (rs) – referiu-se o Kota a seu irmão mais velho que também é gay.

– Não contar o quê? (rs).

– Então, ele está saindo com um menino que te conhece.

– Sério?! Que menino? – falei já achando certa graça no assunto.

– Um tal de Cristiano.

Na hora matei a charada, sabendo onde o Kota mora e onde o primeiro Cris do post “Momento de Crises” também mora, este também altamente “japófago”.

– O mundo é um ovo, Flávio.

– Ah, com certeza – respondi ao amigo, pensando sobre certas “coincidências”.

Lá pelas 17h estava em casa e o Jonathan, leitor do MVG que havia demonstrado interesse em me conhecer, mandou mensagem no Whats perguntando se eu tinha alguma programação. Iríamos nos encontrar no dia anterior, mas ele me deu um “leve bolo” (rs) para curtir um peguete. Fechei com ele um pré-encontro no Bar da Dida para um esquenta e uma prévia de assuntos para um primeiro contato, para que depois fôssemos à sauna! Definitivamente um primeiro encontro inusitado e diferente, mexendo um pouco com as “caixinhas” que tanto busco revisar por aqui.

– Não vai furar dessas vez, né, Jon?

– Não, Flávio… desculpa mesmo por ontem, mas hoje não vou furar!

Cheguei antes na Dida e o boteco estava, como de costume, lotado. Tenho créditos a perder de vista no bar, por uma permuta de trabalho que fiz há anos, e sempre que chamo alguém para lá, o convidado fica responsável apenas pelos 10% do serviço. O Jon teve que desembolsar 10 reais, entre cervejas de garrafa, cachaça Boazinha, caipirinha e petiscos.

Depois de umas duas horas de papo, sobre expectativas, assuntos “cabeções”, religião e política, partimos para a Chilli Peppers. Apresentei toda casa a ele, que se impressionou pelo tamanho.

– É, eu acho a Chilli na verdade um tipo de clube – comentei a ele, diante de suas impressões sobre os diversos espaços.

Nos separamos e começamos com nossas investidas. Não estava achando ainda o público muito legal. Resolvi descer ao bar e pedir uma cerveja para beber tranquilamente sentado. Provavelmente fiquei por lá por 40 minutos vendo as pessoas circularem. Foi aí que um cara de beleza bastante exótica, cheio de tatuagens, alguns piercings e alargador de orelha, me cruzou e entrou na sauna de frente ao bar. Esperei alguns segundos e fui atrás.

Praticamente só estava ele no lugar, ou melhor, só quis enxergá-lo. A área da sauna estava bem iluminada e notei que, de tantas vezes que estive lá, era a primeira que eu entrava naquele receptáculo abafado e, no caso, úmido. E a outra coisa que notei foi o Raul, aprendiz de tatuador, de olhos claros e de lábios bonitos e tão rosados que deu vontade de arrancar com os dentes. Cruzei por ele, trocamos olhares e sorrisos, mas pensei: “agora não”.

Depois de alguns minutos circulando pelos ambientes, cruzei com ele de novo:

– Onde você estava, japonês? Eu estou te procurando (rs).

Nos beijamos, pude morder seus lábios e fomos para minha cabine. O que fizemos por lá vocês já sabem.

Nos separamos e fui descansar um pouco perto do bar de novo. O Raul passou por mim novamente, depois de algum tempo, e lançou:

– Você curte fumar?

– Curto sim… você tem aí? Faz tempo que não fumo.

– Espera aí que vou pegar lá…

Trocamos bastante ideia na área aberta enquanto desgustávamos um baseado. Ele falava dos esquemas de sua vida, expectativas de trabalho, relacionamentos passados, projetos para sair do país e sonhos de um cara de 27 anos em busca da concretização da vida profissional. Gente boníssima que não exitou em me oferecer mais uns tragos, caso a gente se cruzasse de novo. Pra mim, aquela vontade de se falar mais demonstrava a “famosa” intenção que até mesmo numa sauna pode rolar, como tanto venho sugerido por aqui.

A natureza das andanças não me fez encontrar mais com o Raul. Cruzei uma vez com o Jonathan, dei um “oi” de longe e seguimos pelos corredores.

Foi aí que, dentro da área do cinema vi um menino e nem sei como o reconheci tão rapidamente naquela penumbra: era o Maurício que, na situação estava acompanhado, mas que fixou o olhar em mim traduzindo o mesmo reconhecimento. Depois nos cruzamos novamente em outra ocasião, olhos nos olhos, até um terceiro momento, quando eu andava próximo ao bar e ele aguardava junto com os amigos o elevador da casa:

– Hei, a gente conversou pelo Hornet… é você, não é? Você está me reconhecendo? – falou o Maurício estendendo a mão pra mim.

– Sou eu, sim.

– Vem cá que eu quero conversar com você – falava já entrando no elevador e tentando me levar.

– Daqui a pouco eu subo, tudo bem?

– Beleza… mas vem que eu quero falar com você.

Dei mais uma voltas e subi para procurá-lo. Esbarrei novamente o Jon e nos despedimos.

Confesso que não foi nada difícil encontrar o Maurício: ao chegar no terceiro andar da casa, ouvi um som alto de música vindo de uma das suítes masters da Chilli. Ele e mais um grupo de amigos tinham reservado daqueles “super quartos”. O Maurício estava na porta, junto com seus camaradas e logo que me viu, veio conversar.

Me puxou para aquele ambiente novo e descobri que essas suítes, com cama de casal, hidromassagem, ar condicionado, aparelho de som, cozinha e banheiro próprio, tem uma varanda aberta aos fundos! Ficamos nos pegando por lá, enquanto ele trazia diversos assuntos, desde o dia que havíamos nos “cruzado” pelo app, da estranheza por termos nos reconhecido tão facilmente, da atração rara por orientais e de muitos outros temas, vindos de maneira um pouco desconexa que, a mim, denunciava claramente o uso de alguns “aditivos especiais”, aditivos que não demoraria muito tempo para eu experimentar (rs).

Nos pegamos bastante, beijamos muito, falamos mais, até que tais “extras” começaram a bater errado em mim. Foi aí que soube que o que havia consumido não era exatamente o que eu imaginava (rs). As sensações que vinham eram novas e, na situação, não vieram da melhor forma.

A partir daí, tenho basicamente flashes de memória. Sei que o Maurício ficou comigo o tempo todo, preocupado com meu estado, atitude que poderia ser bem diferente quando um “estranho” chega no terreno de um grupo e logo adquire certa preferência.

Por um momento, lembro de dois de seus amigos se aproximando de mim para uma pegação e o Maurício me puxando para não entrar na parada. Por outro momento, lembro dele e eu na varanda, ele deitado no meu colo e eu mexendo em seus cabelos, falando de coisas da vida que eu não sei o quê (rs).

Até uma hora que eu sentei novamente em frente do bar e ele – tão louco se não mais do que eu -, se ajoelhou na minha frente e disse:

– Fica aqui tranquilo que estou indo na área aberta fumar um cigarro, tá bom? Qualquer coisa você me chama.

– Vai lá, Maurício… muito mal por ter atrapalhado a sua vibe. Desculpe.

– Para de falar isso. Sério mesmo… eu adorei te conhecer.

Apesar de sentimentos de vulnerabilidade e constrangimento naquela situação, pelas minhas experiências, sabia o quanto tais estados eram possíveis e legítimos. O menino foi bacana comigo do começo ao fim e assim que ele saiu de cena, resolvi fugir para meu quarto para descansar.

De golinho em golinho de água, deitado na cama, os revertérios iam passando. Nada que eu não tivesse vivido em diversos momentos da minha vida, principalmente na época de faculdade com meus intensos e belos amigos heterossexuais, sempre os mais empolgados (rs). Quando não era eu que entrava na “bad”, era com um deles que a loucura não caia bem. Eram épocas que o filme “Trainspotting”, com o Ewan McGregor, nos representava a todo momento, quando o mood era incrível e quando, as vezes, era lastimável (rs).

Para quem vibrava intensidade, sair um pouco do eixo foi um alívio. Pelo menos é assim que me sinto hoje. As vibrações que sempre mudam, me trouxeram momentos importantes ontem e entre “coincidências” na vida, encontros inesperados, reconhecimentos e loucuras, cheguei em casa são e salvo, fui dar um “oi” para a dog e entrei num banho longo e fundamental antes de dormir. Cá estou em casa, com a ressaca prevista pós aditivos, apresentando de coração aberto o lado “Cazuza” que faz parte de mim.

Para muitos, essas situações vão muito além do saudável, do compreensível ou do tolerável. Para outros não deixa de ser parte da própria vida.

As vezes a gente precisa, sim, morrer um pouco, para aprender a renascer. Pode ser num ímpeto como esse, de carreira solo, pode ser num término não desejado. Aprender a renascer, diversas vezes na vida.

2 comentários Adicione o seu

  1. Jonathan Santos disse:

    Ontem uma hora dessas, exatamente 20h56 estava olhando o relógio descendo a Consolação e virando a Al. Franca para encontrar o Flávio, após um “leve bolo” ocasionado por estar com uma outra expectativa, fato esse que foi perdoado e tirado a má impressão.
    Como relatado nos encontramos pela primeira vez, hoje com a certeza de muitas outras, e concluímos como nada normativo marcar um primeiro encontro com direito à sauna e evidenciando que viver fora da “caixinha” não tem pior, ou melhor, não tem certo ou errado, curtimos cada um a sua vibe e independente das consequências cada um são e salvo em casa no amanhecer do domingo.
    Confesso que também estava com saudade de ver o nascer do sol, uma sensação muito prazerosa, pois no dia a dia, acordo pouco depois de o dia clarear.
    Comentei com o Flávio que não enxergava ele como o super homem, como o ser ideal que as pessoas idealizam conforme relatado em “Apenas pinceladas” e, provei o que tenho dito algumas vezes em alguns comentários, o cara bacana, especial e super humano que o Flávio é.
    Mais uma coincidência foi viver também o lado Cazuza que existe em mim, não somente no sentido dos aditivos que, como informado eu estava nas minhas investidas, mas o lado Cazuza quase como um todo e no final de semana em geral.
    Aproveitando a deixa de sair do comodismo, de ter que morrer para aprender a renascer que reforço o termo que utilizo há um tempo que é “o seu mundo muda, quando você muda” e é o que temos aprendido e vivido independente do quem tem acontecido, ou venha a acontecer para nos forçar a aprender a renascer.
    Estamos numa época de crise no país, e acredito que elas acontecem pelo fato de estagnarmos, e ainda levando em conta a minha opinião, para sair ou evitar uma crise é necessário à ação, e aqui mudo o cantor pra utilizar um trecho sabendo que há algum tempo tenho estado numa zona de conforto, “quero dizer o oposto do que eu disse antes, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
    Acredito que assim, saindo do eixo às vezes, vivendo fora da caixinha, cumprindo as expectativas que queremos sem julgar o certo e errado nos faz mais humanos independente das nossas tristezas, que não podemos evitar, mas assim, acredito que podemos impedir que esses fatos permaneçam e prevaleçam.

    Abraços após o melhor final de semana até agora!

    1. minhavidagay disse:

      “O seu mundo muda, quando você muda” – realmente já falamos bastante sobre essa frase e que vem apropriada quando me refiro a “morrer um pouco para aprender a renascer”.

      Vira e mexe estou desafiando minhas zonas de conforto e acho que você entendeu bem, Jon, as importâncias que estão por trás dessa ideia. Não é a sauna, não são os aplicativos. Mas, a mim, é a nossa conduta, nossa postura e nosso olhar que fazem toda diferença.

      Abraços e obrigado pela cia! :)

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