Você tem um espaço na minha vida

Gostar ou não gostar?

A minha geração – e estou falando de homens gays – que estão na faixa dos 40 anos, viveu ainda um cenário, na juventude, no qual o preconceito e limitações para a expressão da afetividade eram mais evidentes. Quando eu tinha meus 23 anos, era sabido que a Frei Caneca, por exemplo, ou até mesmo a Paulista, eram ambientes para o público gay. Mas a expressividade, em si, era bastante inferior e muitos que gostariam de ter autonomia para afeto em público se sentiam reprimidos.

O contexto faz as pessoas e essa é uma das afirmações que, até o presente momento, faz parte de minhas crenças.

Como éramos mais reprimidos na juventude, eu e meus colegas da geração, assumíamos o “ser gay” depois da faculdade, na maioria das vezes. Desvendávamos nossa sexualidade mais velhos e certa adolescência tardia é consequência para muitos “exemplares” que hoje tem 40 anos. Se alguns de nós estamos ainda nas baladas todos os finais de semana, não é nada espantoso, do ponto de vista de contexto.

Em um reencontro com um amigo da ESPM que se tornou professor por lá, ele comentou que a “coisa” está bem diferente. Existe até um grupo político na faculdade que promove a homossexualidade; casais jovens de gays namoram tranquilamente pelos corredores. Achei bem legal a notícia e fiquei pensando como este novo contexto reflete e refletirá na realidade relacional dessa nova geração quando adultos. Pelo viés da autonomia e liberdade de expressão é tudo muito bom, embora, como já citei em outros posts, geração nenhuma está isenta de seus respectivos bugs. Somos humanos, essencialmente e é bom lembrar.

E uma das características desses jovens é uma tendência a individualidade e o usufruto da razão “acima de tudo”. Convivo com eles na equipe de produção de minha empresa, me relaciono com jovens como preferência para relacionamentos, meu professor de japonês tem apenas 23 anos e tenho percebido essa atmosfera de “sou livre, independente e se é para me relacionar, não é por carência”.

Acho isso ótimo na verdade. Antigamente, era muito comum você encontrar pessoas carentes, querendo namorar porque estavam carentes. O “grude” era um fenômeno corriqueiro e cansativo. A carência foi e é, de certa forma, algo de ingenuidade.

Hoje, quando o discurso é intimamente leal à realidade dos sentimentos desses meninos, essa independência aponta para relacionamentos mais saudáveis e maduros. E, consequentemente, demora mais tempo para se conceber porque subentendem-se mais filtros. Subentende-se se desconectar da própria individualidade e conectar a uma relação, o que dá certo “trabalho” e é necessário muitas certezas (racionais) para valer a tentativa. Porque, também – quando não é tão leal aos sentimentos assim – fica até que fácil para um cara como eu, vindo de nove namoros que pude intitular de “namoro”, perceber que todo esse discurso “sou livre, independente e se é para me relacionar, não é por carência”, de fato é a maneira “neo-adulta” de dizer: “não vai ser para qualquer um que vou expor minha intimidade e fragilidades. Não posso me desequilibrar porque tenho muitas responsabilidades”.

Jovens tão centrados em profissões, escolhas próprias, informações de interesse e amizades individuais nem sempre sabem direito quando estão gostando porque o gostar para essa nova geração vem cercada de um senso crítico agudo. O “Tico” (razão) e o “Teco” (emoção) vivem em embates de ansiedade muito maiores – rs.

Foi-se o tempo da inocência na adolescência, algo que vivi com a naturalidade daquela época. Se encantar era mais fácil pois, talvez, tínhamos mais acesso ao “Titanic” do que a realidade de fome na Somália ou as dificuldades fronteiriças na Síria, ou a sangria que é se alimentar de animais como bois, frangos e porcos. Se encantar era mais fácil pois apreendíamos que as dores do mundo faziam parte de nós. Não éramos seres tão especiais isentos de nossas falibilidades; fazíamos parte do dark side of the moon como todos e isso era colocado frequentemente pelos nossos pais. Os jovens de hoje, ou pelo menos parte deles, se sentem desprendidos dessa faceta, com o propósito de tornarem-se os agentes apaziguadores dessas dores. Se isso é um fato ou não, se eles se isentam das dores, não é hoje que vou debater.

Com tanta responsabilidade, como se sujeitar a falir perante a outro alguém, caso haja a entrega mas a relação não se desenvolva como se espera? Será que dá para gostar de alguém e, ao mesmo tempo, ter a autonomia necessária para “mudar o mundo”? Ou, na mais modesta das hipóteses, fazer acontecer o próprio mundo individual?

Tenho 39 anos e sou um espectador entusiasta. Mas me dou o direito de ser apenas espectador. Entusiasta. E aprendo muito.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

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