Vou contar para meus pais

Na vida gay, algo que é específico e atribuído a quem é homossexual exclusivamente, é o revelar para as pessoas de nosso convívio, pais e amigos. De acordo com o tempo de cada um, de forma e momento, cedo ou tarde compartilharemos a realidade de sermos gay para alguém.

Assumir ou não, não deixa de ser uma característica específica de quem é gay, situação que reverbera de formas muito diferentes em cada um. Há quem diga que, o fato de aprendermos a preservar tal assunto desde que tomamos consciência, influencia diretamente toda a nossa formação. Acredito fortemente nisso e isso constrói, inclusive, certas nuances de como os gays se relacionam.

Dentre tantas formas que reverberam, soube ontem de uma delas que nunca havia passado pela minha cabeça e, na conversa, veio como um susto pela maneira que um jovem gay levou tal assunto:

– Flávio, aquele meu amigo terminou com o anão.

– Sério? Mas o que houve?

– O anão estava chifrando ele desde fevereiro, até onde se sabe.

– E desde quando eles estavam juntos?

– Desde novembro do ano passado.

– Poutz… de novo o tema traição entre as pessoas.

– E o pior é que meu amigo assumiu pra todo mundo por causa do namorado!

– Como assim, assumiu por causa do namorado?!

Foi aí que percebi, nessa nuance sutil, que não somente esse menino, como outros que estão espalhados por aí, devem colocar a ideia de sair do armário para a família e para os amigos como um certo “feito heróico e amoroso” quando se está namorando. De fato, há algo errado nisso? Como tenho colocado diversas vezes por aqui, nas relações humanas – com ressalvas às doentias – não existe esse juízo de valor do “certo ou errado”, mas certamente há um senso crítico quanto a posturas e atitudes como normalmente trago por aqui.

Assumir a homossexualidade para os pais e para os amigos, no meu ponto de vista (e mediante a minha experiência pessoal e com o Blog MVG) é algo íntimo, pessoal e intransferível. É muito complicado um gay atrelar o “sair do armário” com uma demonstração de amor por outro, embora assumir para nossas pessoas íntimas seja uma prática bastante comum enquanto se está namorando. O namoro, em si, não deixa de ser um suporte emocional e psicológico para que os gays se sintam mais “fortes” para enfrentar qualquer barra que por ventura possa vir. Na minha prática, foi o caso do Japinha e do Beto, gays que assumiram para suas pessoas íntimas (pais e amigos) enquanto namorávamos.

Mas existe uma diferença gritante entre ter um apoio emocional e psicológico enquanto se está namorando, do que praticar o ato de sair do armário como num “ato heróico”, em nome do “amor pelo namorado”. Tal pensamento dificilmente se sustenta, me parece um tanto ingênuo e, consequentemente, vai se jogar na cara uma hora ou outra e vai se frustrar.

Não aprendemos nos lares, muito menos nas escolas, sobre ética e valores da homossexualidade em um contexto heteronormativo e aqui está uma tentativa, para quem notar lucidez nessas palavras: o momento, a escolha e a decisão de assumir é algo pessoal e intransferível e não se deve forçar, (1) nem como uma demonstração de amor pelo outro (e sim a si próprio, num desejo de crescimento e resignificado das relações íntimas depois de assumido), (2) muito menos numa forçação de barra porque a parte que é assumida quer que o outro assuma por ele ou “pela qualidade da relação”. Um excesso de altruismo (1) ou de egoismo (2) tendem a tirar a própria importância do “sair do armário” para a evolução individual.

Embora seja uma jornada “solitária”, como sugeri anteriormente, muitos gays recorrem a um momento em casal para sair do armário. Desde que o outro seja o ombro amigo, a pessoa para oferecer colo ou celebrar a alegria da aceitação, não há problema algum no modelo. Mas qualquer influência do outro, buscando manipular para que a pessoa revele algo que ainda não está maduro, consciente e seguro, não me parece emacipador ou educado.

Sabe quando a gente aprende a ideia de que “tem coisas que a gente não se envolve?”. Eu diria que interferir demais no processo individual do outro, de sair do armário, não diz ao nosso respeito. Ou seja, querer se meter demais cai na falta de educação.

Por isso, coloco uma afirmação direta aqui: se você já é assumido e orgulhoso assim pelos feitos conquistados, mas está se envolvendo por alguém que vive outro contexto, ainda mais enrustido do que assumido e ainda descobrindo sobre a própria identidade homossexual, saiba dar apoio sem chantagear. Se você não tem maturidade suficiente, entendendo que o outro tem certo dever de assumir por você, como num ato heróico ou de demonstração de “amor”, pense duas vezes (no sentido de raciocinar mesmo) se você quer entrar nessa relação. O ato de assumir é pessoal e intransferível. Saiba respeitar porque, no caso, o respeito é a própria manifestação do amor. Do contrário é egoismo. O seu, no caso.

10 comentários Adicione o seu

  1. O “problema” é dedicar-se ao relacionamento.
    É complicado uma pessoa que já não tem questões a resolver com a sua sexualidade namorar com outra que está cheia de limitações. Ter um relacionamento desses é abdicar de prazeres como:
    – Não desenvolverei uma relação com os teus pais
    – Nem todos os meus amigos poderão saber que namoro você
    – Carícias e derivados às escondidas
    – Terei que aguentar ver você me tratando com uma certa distância
    – O exercer da sua sexualidade é limitado, caindo em caixinhas e estereótipos
    Etc.

    Pode haver egoísmo de minha parte, mas também há egoísmo da parte do outro.
    E aí fica minha dúvida:
    Quando é que eu devo criar disposição para viver um relacionamento com um enrustido?

    Abraços do CR!!

    1. Thiaggo disse:

      não se envolva com um enrustido!
      vc não é obrigado, nem muito menos ele …

    2. minhavidagay disse:

      Oi CR!

      Sugerindo uma resposta para a sua pergunta: quando o relacionamento de seu namorado com seus pais não tiver uma relevância, quando não importar muito se seus amigos saberão ou não de sua vida íntima, quando a expressão de carícias públicas não forem tão significativas, quando distância ou proximidade não te afetarem tanto e quando suas percepções pessoais estiverem consolidadas e resguardadas dos estereótipos, talvez você de valor e destaque para outras atribuições e, o outro ser enrustido ou não, deixa de ser critério para suas escolhas.

      Outras e novas atribuições do indivíduo lhe parecerão mais interessantes.

      Abraço!

  2. Sandro Bonassa disse:

    Acredito que depende da relação e experiências de cada pessoa para, assumir, deixar no gelo, não namorar.
    Meu atual namorado, levou um ano para se assumir.
    Na verdade ele foi descoberto, ficou com medo de confirmar para família mas acabou assumiu e já faz um ano isso.
    O lance com um cara não assumido é você assumir o risco e não precionar para o namorado sair do armário. ( isso funcionou perfeitamente para mim), e olha que eu entreguei meu irmão, e tive toda a compreensão do mundo com o meu namorado, também entre um lance e outro foram pelo menos doze anos, deu para amadurecer depois de tantas coisas.
    No começou meu namorado só conseguia chegar em na minha casa, sábado após o almoço e tinha que ir embora domingo após o jantar.
    Isso tudo falando para família que estava de rolo com uma guria chamada ALINE ” MEU NOME DE GUERRA DURANTE UM ANO, RS.
    E assim foi por seis meses, quando ele começou a ganhar mais coragem começou a chegar em casa na sexta e ir embora na segunda.
    Nesta altura do campeonato a família dele não fazia muita questão de conhecer a ” guria “, afinal ele tinha fama de namorador e quando a família começava a gostar da menina ele terminava, então foi dito ” só traga em casa quando tiver certeza que vai vingar o namoro “, a carta branca para chegar em casa na sexta.
    Após um ano e sem apresentar a tal ” Aline “, começou as desconfianças e pronto foi descoberto.
    De imediato ele deixo a entender para família que poderia ser algo passageiro, foi o combustível para uma família evangélica crer com todas as forças que tudo passaria com uma simples oração.
    Ele me perguntou o que deveria fazer.
    Pensei e respondi.
    Guri você é gay e isso mesmo você sabe, agora deixar a no ar que pode ser passageiro, só complica sua vida.
    Só cabe a você, decidir, viver como você é ou voltar para dentro do armário.
    Principalmente ser gay não pode depender de nosso namoro, caso ele acabe um dia você precisa estar seguro da sua sexualidade.
    Você vai precisar descer do muro, e o lado depende apenas de você.
    Quanto mais tempo se passa em cima do muro mais pedradas de ambos os lados você vai receber. ( uma linha de pensamento minha).
    Ele afirmou sua sexualidade, avó, duas tias, alguns primos já fazem parte da minha vida, sogra vai demorar um pouco mais, ela é durona, rs.
    Tudo tem o seu tempo.

    Está é minha experiência com não assumido, tive boas vivências para agir desta forma e assumir o risco e ter segurança para aguentar o tranco, caso ele abandonasse tudo quando a família descobriu.

  3. Jorge disse:

    Oi Mvg, eu queria dividir com você a minha atual situação, não tem muito a ver com o assunto do texto mas o tema é o mesmo: sair do armário.
    Eu tenho 18 anos e quero contar para os meus pais que eu sou gay (não, eu não estou namorando), estou cansado de esconder isso deles e de todo mundo, eu quero poder viver mais pois sinto que estou preso por esconder esse segredo. Eu faço terapia já a uns 7 meses e a minha psicóloga é a única que sabe sobre mim, sempre conversamos sobre o assunto e eu divido com ela as minhas experiências. Bom, faz parte da terapia dela chamar o responsável para uma consulta para falar como vai indo o tratamento, e ela chamou a minha mãe para conversar com ela nessa quarta (03/06), combinei com a psicóloga que se caso minha mãe toque no assunto (pois desconfiamos que ela suspeita de mim), que converse com ela para ver o que ela acha. Eu planejei contar pra eles depois que a escola acabasse, pois o povo da minha sala era muito besta e eu não queria me estressar à-toa, e agora que acabou eu tomei um tempo pra ficar mais confortável comigo mesmo e estou pretendendo contar para os meus pais após essa consulta. Ultimamente a minha casa anda cheia, então quero aproveitar a primeira oportunidade que esteja somente eu e os meus pais em casa, pra a gente poder conversar sem ninguém atrapalhar.
    O problema é que cada vez mais isso tá se tornando real e chega a ser pavoroso, queria saber como eu sei que é a hora certa de contar para eles? Por que eu fico pensando em cada uma das pessoas que eu conheço que saber sobre mim, até por que eu moro em cidade pequena então rapidinho as pessoas ficam sabendo, e além disso eu tenho 4 irmãos mais velhos e tudo hétero –‘. Eu me sinto pronto pra contar para os meus pais mas não sinto pronto pra enfrentar a reação do resto das pessoas que também estão próximas de mim.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Jorge,
      tudo bem?

      Acho bastante difícil chegar uma hora que você esteja 100% pronto pois, medir a reação das pessoas sobre tal assunto é quase impossível. O que eu acho importante é você focar em contar para seus pais. Ter a ajuda da psicóloga é um caminho bastante válido.

      Primeiro conte a eles, viva as reações e a fase de aceitação. Depois pense em contar para as demais pessoas. Vá com calma, sem pressa. Costumo dizer que sair do armário é um processo que as vezes dura anos. Contar para a família é só o primeiro ponta de pé de uma busca pela sua própria identidade.

      Com a aceitação deles, você passará a ter outro tipo de segurança para abrir para as outras pessoas próximas.

      Um abraço,
      Flávio

      1. Jorge disse:

        Obrigado pelas dicas mvg, minha mãe foi hoje falar com a minha psicóloga mas não tenho certeza se ela tocou no assunto, vou saber na próxima quarta e vou esperar pra ter um tempo pra falar com os meus pais e pedirei a eles que não contem pra ninguém até eles se acostumarem com a ideia.

        obg novamente =]

      2. minhavidagay disse:

        De nada, Jorge!
        Espero que as questões da sua homossexualidade e família evoluam! :)

        Um abraço,
        MVG

  4. lucas disse:

    Sou um cara de 17 anos, nunca tive oportunidade de ser feliz por ter uma opção sexual que eu não tive oportunidade de escolher, sempre tive dezejo por homens . eu namoro uma garota que nem percebe que eu sou gay to com ela faz uns 3 meses, e já quero terminar, e pra piorar tive relações sexuais com meu tio, e quero me suicidar . a cada dia que passa me sinto estranho minha vida e muito confusa , pra piorar tudo , meu pai tem muito orgulho de mim, e flw que só não teria orgulho se eu uzace drogas ou fosse gay .. Eu queria tentar sentir atração por mulheres , mais não consigo nem um pouco tentei de tudo pra ser etero mais nada deu certo, minha mãe queria ter um neto e eu não tenho capacidade de fazer um por eu ser uma aberração se deus abomina os gays porque ele me fez desce jeito, procurei de tudo pra ser etero tentei procurar até na deep web mais percebi que não tem como me cura porque não estou doente estou saudável meu problema eo preconceito que sinto por mim mesmo, será que eu mereço sofrer tanto , além de eu ser gay minha família e preconceituosa. E acabarao me fazendo ser preconceituoso , eu sinto atração por homens eo problema e que eu gosto de conversar mais com homem do que mulher , sempre me imaginei jogando futebol com o namorado , saindo juntos e etc.. Mais quando acordo pra realidade estou vivendo um pesadelo que só vai terminar quando eu morrer …. Estou com depressão estou indo no médico ele pergunta porque estou tão mau e eu não posso dizer porque se não terei que me assumir acho que vou morrer estou com medo da vida estou chorando todas as noites , todo dia quando acordo não saio mais , e vivo tomando anti depressivos e minha namorada vem me ver todo dia e eu não suporto ser um fardo pra ela , eu amo ela mais não sinto atração sexual por ela não adianta minha vida e uma mentira..apesar de eu não parecer gay eu sou oque eu Fasso … Mais se você leu isso que eu escrevi eu agradeço e que não tenho ninguém pra desabafar :(

    1. Ferreira disse:

      Lucas, que situação difícil. É muito ruim, não ter com quem desabafar. E realmente, muitas vezes não podemos contar a realidade. Também tive alguns momentos bem difíceis, mas agora apesar de ainda não ser assumido para minha família, vivo a vida com mais leveza. Certamente teria sido melhor se pudesse ter compartilhado com amigos esse aspecto da minha sexualidade.
      O que quero te dizer é não se desespere e se quiser conversar me envia um e-mail: j.s_ferreira@yahoo.com.br
      Assim, quem sabe podemos nos ajudar,
      Fica bem!

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