Vulnerabilidade e exposição

Quem é que gosta de se sentir vulnerável?

Na realidade, sejamos gays ou heterossexuais, ninguém gosta de se sentir vulnerável. E a vulnerabilidade caminha de mãos dadas à exposição. Refiro-me a vulnerabilidade e a exposição em relação ao outro, a alguém que se configura um interesse e, num contexto geracional, sei que quanto mais jovem se é, mais se pensa em “gostar um pouco menos do outro para se ter certo controle da situação”.

O fato é que nosso ego é danado e somos dotados de um sentimento chamado orgulho. E vou dizer: esse orgulho é um maldito. Para complicar, novas gerações costumam a achar que orgulho é sinônimo de ser adulto. Claro, ninguém quer ficar com a sensação de “estar na mão do outro” e, talvez seja por isso, que expressões como “sou apaixonado por você” ou “eu te amo” andam tão escassos hoje em dia. Dá a impressão que lançar essas palavras cheias de energia positiva, nos coloca em um patamar de indivíduos ingênuos ou, menos adultos. Aguardamos que o outro se “abra” assim antes de nós mesmos. E, as vezes, quando o outro se abre é tão assustador que nos retraímos!

Mas será que infantil não é deter esse tipo de raciocínio e comportamento, no momento em que a gente cria esse sistema de autossabotagem para – “simplesmente” – antecipar uma potencial rejeição que nem se sabe se vem? Como é, afinal, que as pessoas podem viver um relacionamento detendo esse tipo de crença? Não vive. Sinto em dizer.

Por um lado, se o pilar do discurso é a razão, não tenho dúvidas que faz todo sentido. Mas trata-se de uma razão falsificada pela nossa própria cultura. Por outro, se a ideia é viver uma paixão, nosso lado emocional, livre e criativo – refém muitas vezes da muralha da razão – sugere outro sentido.

Ok. Temos medo de nos machucar e, assim, antecipamos alguma “tragédia maior” munidos dessa “razão que nos faz ‘superiores e adultos'”. Nos poupamos de qualquer situação que possa nos machucar e assim, curiosamente, não há a entrega. Não se relaciona.

Nota zero.

Nosso lado emocional, livre e criativo, diria assim: ” você que se acha todo esperto para evitar as sensações da vulnerabilidade e da exposição ao outro, simplesmente não quer sair da zona de conforto e – de fato – é um pedante infantil por ser assim. Não quer crescer, não quer evoluir como um indivíduo emocional (que é) e está se resguardando antecipadamente para não sentir dor. Só que a dor, meu querido – e aprender a lidar com a mesma – é a oportunidade que se tem para viver relações extraordinárias. Daquelas que vão te tornar maior, que vão dar medo sim, que vão lançar para fora suas fragilidades e defeitos e, assim, trarão a você a chance de se tornar uma pessoa mais forte!”.

O fato é que, só quando nos permitimos a uma entrega – e consequentemente a abertura para a vulnerabilidade e a exposição – é que temos oportunidades palpáveis de um relacionamento dar certo. É um risco? Claro. É como pular de paraquedas. É como se sustentar a um elástico de bungee jump diante a queda livre. Mas é também uma permissão. A permissão de amar e ser amado.

É uma oportunidade de sair do lugar comum.

É também uma evolução, quando nos damos conta que essa história de razão funciona apenas nas primeiras páginas da cartilha. Funciona bem para o trabalho e para outros vértices que dependam menos da emoção. E se dependem menos da emoção, sugere que são mais rasas. Nossas emoções são profundas, seja lá de quem estiver lendo este conteúdo.

Se o assunto é desenvolver um relacionamento, não existe esperteza e racionalidade que garantam o sucesso. Pelo contrário. E se a dor vier por não ser correspondido ou a pessoa não funcionar de um jeito idealizado, acabamos por aprender – cedo ou tarde (antes cedo do que tarde) – que é lidando com a própria dor que nos tornamos mais hábeis para nos relacionar. Que é assim, principalmente, que aceitamos e respeitamos nossa totalidade. Que é assim que vamos de encontro a nossa essência, despida de infindáveis crenças e valores que o nosso entorno nos enfia goela abaixo desde pequeninos.

Deixamos de ser fragmentos.

Aprendemos onde não pisar, numa trilha que se a gente evita caminhar, é para não sair do estado de conforto. É cômodo, por mais que a comodidade nos traga certas preguiças e chateações. Mas são as velhas e eternas preguiças e chateações que se está acostumado. É, de novo, caminhar em círculos.

Somos vulneráveis, frágeis e aceitar essa realidade – igual a qualquer pessoa – é aceitar a si. Inteiro.

4 comentários Adicione o seu

  1. André disse:

    Casa comigo ?!!!
    😜

    1. minhavidagay disse:

      Rs… casamento por hora não está no meu vocabulário! 😝

  2. Bacana o texto. Estou há mais de 2 anos sozinho (ou evitando estar com alguém rsrs) e posso dizer que os relacionamentos que tive antes desse período foram criados com a visão de um cara que pensava de forma bastante diferente da atual. Tentei de tudo um pouco: ficadas, sexo casual, sex club e incrível como nada me satisfazia completamente no dia seguinte ou até logo após nos últimos encontros.
    Passar por isso trouxe a percepção de que não me serve desta forma (e olha que acreditei no contrário por quase uma década!) e vivo uma fase em que, se por um lado continuo ensaiando pra voltar a me relacionar, por outro o crescimento emocional segue se fortalecendo.

    1. minhavidagay disse:

      Legal seu breve depoimento, Francisco. Será que aprender a lidar com as dores e a frustração, para se permitir de novo a um relacionamento, não faz parte do crescimento emocional?

      Abraço!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.